Tietagem literária (1)

Por Paulo Scott

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1.

Na quinta-feira da semana da Flip, na órbita de roda de amigos, quase todos escritores, que se formou ao acaso em frente a um dos vários restaurantes do Centro Histórico de Paraty, alguém, um sujeito que eu não conhecia, parou para dar um olá a um deles e depois se aproximou de mim e — tão logo se certificou de que eu era de fato eu — fez questão de me contar que tinha lido o Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Agradeci. Em seguida listou alguns dos poemas do livro dos quais tinha gostado. Agradeci de novo. Então me disse que tinha ficado incomodado com uma coisa: o texto que, na visão dele, não era poesia, era crônica confessional, um texto que, lá pelas tantas, falava de enfileirar tietagem literária.

O texto que ele referiu é o “Seja macho”.

É bastante pertinente o questionamento sobre se tratar de poema ou prosa — entretanto, do meu ponto de vista, o que importa é: escrevi o texto como poema e na minha cabeça é poema, por isso figura lá como poema. E, ainda, penso ser bem razoável isso de alguém detectar ruído, desconforto, num trecho do poema que diz: “Vou enfileirar tietagem literária segundo nossa disposição sincera de abrir bem as pernas e noivar e depois forjar seu aleijamento (…)”. É o que pude lhe dizer.

Não é minha intenção explicar aqui o que pretendi com esse trecho e menos ainda o que busquei com esse poema — tudo perderia a razão de ser se eu fizesse isso. Minha intenção neste momento é unicamente pinçar o termo tietagem literária.

2.

O significado de uma locução pode variar, pode ganhar sentido negativo ou positivo. Ainda me abstendo de analisar a tal tietagem literária no contexto do poema “Seja macho”, imagino que valha a pena avançar na direção da explicitação do seu sentido negativo.

Tietar pode ser admirar incondicionalmente, colocar-se num espaço de (a partir de uma convicção) aceitação completa de tudo que advenha da identidade objeto do nosso admirar, tende a ser a admissão de um esvaziamento crítico absoluto e até, a partir desse esvaziamento, a sedimentação natural e o estaqueamento de posição subalterna. Essa perspectiva — que acaba mesmo circunscrevendo um lugar que se poderia chamar, em termos ainda mais pragmáticos, o lugar do bobo — não seria (em seu acontecimento) demais se fosse apenas oca, fruto da convicção de quem, à certa altura, e em determinada experiência real/concreta, identificou elementos reais/concretos na obra, na produção, nas consequências geradas pela identidade admirada, se não fosse — aqui está o detalhe importante — farsa e combustível nocivo de algo que nada tem a ver com literatura, se não fosse nada além de mero deslumbramento.

Lembro, por conta disso, da situação aquela do sujeito que se aproxima do autor em alguma festividade literária e, descuidado, projeta um empolgadíssimo (e inusitado) “sou seu fã desde sempre, fã número um”, recebendo como resposta um “obrigado, mas, então, me diga aí: qual dos meus livros você leu?” e replicando, o dito fã, despeja um “eu te sigo no Twitter, leio o que você posta” ou “leio os seus textões no Facebook” ou “leio a sua coluna” ou até um “leio de vez em quando o seu blog”.

Não me agrada tietagem literária, tietagem vazia, casuística, a que adquire o livro, mas não lê o livro (e não se abala ao lidar com o fato de que jamais lerá o livro). Não vou entrar em detalhes, sobretudo por saber que estamos longe, eternamente longe, dos mundos ideais, apenas vou registrar: o universo literário brasileiro contemporâneo precisa de leitores, leitores de verdade, não de tietes. E isso, até onde eu sei, se consegue com educação fundamental de qualidade, educação de verdade.

Sem pânico. Não vou panfletar.

3.

Conversando, tempos atrás, com jornalista estrangeiro sobre literatura brasileira e sendo questionado por esse jornalista sobre quais jovens autores brasileiros conseguem de fato apresentar um corte atualizado do comportamento brasileiro de maneira a dar pistas para uma eventual composição de perfil geral do brasileiro contemporâneo, me vieram à cabeça muitos nomes, mas em primeiro lugar veio o nome da escritora mineira Cidinha da Silva. Não pelo seu engajamento sociopolítico (o que fica evidente, por exemplo, no livro de ensaios acadêmicos Africanidade e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, coordenado por ela), não pela sua capacidade de levantar elementos históricos e reflexões críticas, inserindo-as com habilidade nas suas crônicas, nos seus estudos, mas pelo fato de, sendo escritora, ter escrito narrativas curtas, cheias de vivacidade que venho acompanhando há alguns anos e que sempre chamam muito a minha atenção, como o conto “Ônibus especial” — um conto que está no livro de bolso Oh, margem! Reinventa os rios, da coleção “Selo do povo”, idealizada pelo escritor Ferréz —, que demonstra bem o olhar e a dicção que são exclusivamente dela.

Transcrevo o trecho inicial do conto:

Foi em Goiânia, na Praça da Bíblia, que eu vi. Ônibus exclusivo para empregadas domésticas. Foi uma boa sacada da empresa. O primeiro sai às 5h00, o segundo às 5h30 e o último às 5h45. No retorno do condomínio sai um às 20h00.

Empregada não tem carro para chegar naquele fim de mundo. Mas elas ainda reclamam, queriam ônibus de quinze em quinze minuto. Alegam que o de 5h45 vai muito cheio. Vai cheio porque as dondocas não querem saber de acordar cedo, entram às 7h00 e ainda reclamam. Não pensam nos filhos dos patrões que têm de sair cedo para a escola e não têm ninguém para preparar um café fresquinho.

Sem cair na armadilha da análise do panorama literário nacional a partir do que alguns chamam de o corte de classes, é preciso reconhecer a presença de certa repetição nas escolhas do que ocupará posição de destaque nas eleições do que de mais relevante haveria na produção literária brasileira contemporânea — e não falo aqui de verdadeiros personagens brasileiros, falo de conflitos com peculiaridades relacionadas às singularidades brasileiras. Nessa perspectiva, tenho que o impacto da literatura estrangeira, que é sempre positivo, às vezes acomoda nossa maneira de fazer, de elaborar, de almejar, e só a pluralidade (que precisa ser ampliada e precisa vencer a inércia) e o diálogo com a pluralidade (e com o inusitado) e com a diversidade e com o que não busca conforto desmancharão um resto de medo, um resto de timidez que ainda existe na maneira de escrever dessa geração, dessa nossa grande geração (sem exatidão de idades), educada sob a sombra do regime militar que assaltou o poder no golpe de 1964 produzindo estragos enormes, sobretudo na área das humanas e na capacidade de questionar e de nos olharmos no espelho. Sei que preciso elaborar isso, mas acho importante que tal leitura seja externada.

Cidinha da Silva está na minha lista de autores que — na mesma linha do que afirmou recentemente Silviano Santiago a respeito de Michel Laub em ótima entrevista dada ao jornalista Álvaro Costa e Silva — podem surpreender, nomes cuja produção pode ficar.

Não sou candidato a profeta e sequer tenho autoridade para apresentar, com um mínimo de tranquilidade, minhas apostas, mas sou leitor da produção literária brasileira atual, um do tipo que se esforça para não buscar só o que lhe traz conforto ou o que é melhor projetado (nunca perco de vista o que, nesse sentido, César Aira falou sobre livro best-seller na coleção de textos Pequeno manual de procedimentos), um que, eventualmente, também sucumbe — independentemente das gangorras, das instáveis alturas no altar geral das eleições (e depurações) — à tietagem literária, achando, contudo, que o faz (e cede à euforia) pela obra, pelo conhecimento da obra, e pela leitura nunca suficiente da obra, muito menos do que o faz pelo deslumbramento.

Um poema não resolve dilemas pessoais em relação ao mundo porque — além de outras implicâncias ou assentamentos — é, antes, experiência estética — um espaço, às vezes hermético, aguardando a reforma (e, com sorte, o sentimento de alegria que referiu Roland Barthes no seu A preparação do romance), mas os aproveita, digere-os; se ecoa, não é problema do poeta.

O debate não termina aqui.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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