Trinta e sete não são vinte e nove

Em torno dos astros, há sempre uma constelação de mitologias. Não poderia ser diferente com Renato Russo, ídolo cósmico do rock brasileiro.

“Passei vinte e nove meses num navio/ e vinte e nove dias na prisão”, canta ele na primeira música do álbum O descobrimento do Brasil, lançado em novembro de 1993. Carregado de simbologia, o número “vinte e nove”, que se repete do primeiro ao último verso da letra, logo foi adotado por Renato para falar dos dias que ele passou na clínica Vila Serena, entre abril e maio do mesmo ano, e o conteúdo da canção sempre foi associado à experiência transformadora que esse período proporcionou ao ídolo da Legião Urbana.

Era esse o tempo que, inicialmente, disseram que ele passaria internado. Em torno de vinte e nove dias. A alta acabou sendo adiada em dez dias, o que incomodou nosso artista, como podemos notar nessa passagem:

“Não sinto em mim ainda a capacidade para me desligar e fluir com os eventos do dia. Percebo agora que o maior problema foi o adiamento de minha alta (e não foi por causa de compromissos de trabalho, meu tratamento é mais importante). O que me deixou confuso foi o fato de sentir que estou indo bem na programação (alta 04/05) e ter a notícia de que mais dez dias foram incluídos em minha estadia aqui (alta 14/05). Isso gerou uma dúvida em relação ao meu aproveitamento, me fazendo questionar ainda mais minhas atitudes e sentimentos.” (p.120)

Embalados pela canção do compositor, não vimos aquilo que estava bem diante de nossos olhos, e assumimos que ele passou vinte e nove dias na clínica, como vocês verão nas orelhas e na quarta capa do livro. Mas o leitor atento de Só por hoje e para sempre contará trinta e sete entradas no diário escrito na clínica de reabilitação, de 8 de abril a 14 de maio de 1993.

Vinte e nove: número de anos vividos por aquele que atravessa o retorno de Saturno. Em abril de 1993, Renato tinha trinta e três anos, mas tudo indica que foi ali, na Vila Serena, “aos vinte e nove, com o retorno de Saturno”, que ele decidiu “começar a viver”, enfrentando seus vícios e hábitos destrutivos.

O retorno de Saturno representa, na astrologia, o tempo que o planeta demora para dar uma volta em torno do Sol, trazendo dor, transformação, confronto com nossos próprios limites, crescimento. A numerologia era tão forte para ele que praticamente se consolidou em história. Abrir um baú de inéditos que ficou fechado por mais de vinte anos tem dessas coisas: mais cedo ou mais tarde nos vemos obrigados a rever a história e a reconhecer nossos erros.

Poucos são capazes de transformar uma canção em fato histórico, a ficção em realidade, dois mais dois em cinco. Renato, como o grande criador que era, e para quem havia mais coisa entre o céu e a terra, operou essa mágica e deu uma bela rasteira em todos nós. Trinta e sete não são vinte e nove. Ou serão?