Um ano sem Ubaldo

Por Rodrigo Lacerda

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Foto: Bruno Veiga

João Ubaldo Ribeiro foi um escritor de inúmeras qualidades. Em primeiro lugar, era ótima pessoa. Erudito e divertido, preciosa combinação. Não tinha falsa modéstia e sabia muito bem o tamanho de seu talento, mas era extremamente humilde perante a arte e o ofício de escritor. Era também um espírito aberto e extremamente respeitoso da opinião alheia. Por isso, creio, evitava falar de arte. Ele sabia que, em noventa e nove por cento dos casos, quando duas pessoas conversam sobre o tema, em meio à troca de pedantismos, uma está na verdade tentando impor suas preferências à outra.

Sargento Getúlio, Vila Real, Livro de Histórias e Viva o povo brasileiro são obras-primas da primeira fase. Diário do farol e O albatroz azul, os livros de que mais gosto da fase final. Mas em todos eles vemos com que habilidade trabalha a língua portuguesa, tornando-a eficiente na construção dos personagens e sonora no ouvido e na cabeça do leitor. O alcance do seu universo vocabular é raríssimo entre os escritores contemporâneos. Em seus livros, o passado e o presente da nossa língua se encontram.

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Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. É autor de O mistério do leão rampante (novela, 1995, prêmio Jabuti e prêmio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Vista do Rio (romance, 2004), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da Biblioteca Nacional, prêmio Jabuti, prêmio da FNLIJ), Outra vida (Melhor Romance no prêmio Academia Brasileira de Letras), e A república das abelhas, lançado pela Companhia das Letras em 2013.