39 anos da morte de JK

Por Heloisa M. Starling

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No dia 22 de agosto de 1976, o ex-presidente da República, Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro, na via Dutra, a rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. A versão oficial é de que o automóvel que transportava JK, em alta velocidade, bateu num ônibus da Viação Cometa, rodopiou na pista, atravessou o canteiro central e, na contramão, chocou-se, de frente, num caminhão Scania.

Quase 40 anos depois, um laudo pericial encomendado pela Comissão Nacional da Verdade confirmou a versão oficial – a morte de JK teria resultado de um acidente. Ainda assim, para muita gente, permanecem as desconfianças de assassinato. Afinal, num curto espaço de tempo, morreram, de forma suspeitíssima, três das principais lideranças civis com atuação política anterior ao golpe de 1964: JK, Jango e Carlos Lacerda. Os três eram políticos de alta popularidade, estavam em vias de recuperar seus direitos políticos, propunham a volta do país à democracia e representavam uma ameaça concreta ao projeto de abertura política controlada que os militares pretendiam executar para substituir gradativamente a coerção da ditadura por um governo civil de tipo autoritário.

Além disso, havia a Operação Condor, uma parceria transnacional com vistas à obtenção de benefícios mútuos na área de inteligência e repressão que uniu cinco Estados ditatoriais, a partir de 1975. A Operação Condor foi, para usar a expressão precisa de Elio Gaspari, uma espécie de “MERCOPorão” formado pelos órgãos de segurança do Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil e Argentina com o propósito de perseguir, capturar e eliminar os líderes militares e políticos latino-americanos de oposição às ditaduras militares instaladas nesses países. Incluía formação de banco de dados, coordenação policial, troca de informações e a realização de ações conjuntas: captura, interrogatório, tortura, sequestro e assassinato/desaparecimento.

Do que hoje se sabe, diversas lideranças de oposição no Cone Sul não escaparam da Condor: o ex-presidente da Bolívia, Juan José Torres, assassinado em Buenos Aires, em 1976; e o ex ministro do governo de Salvador Allende, no Chile, morto em Washington, no mesmo ano. Ainda em 1976 duas lideranças parlamentares de oposição do Uruguai acabaram assassinadas: Héctor Ruiz e Zelmar Michelini. As suspeitas de que JK, Jango e Carlos Lacerda também estavam na mira da Condor até hoje não foram suficientemente esclarecidas.

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brasilBRASIL: UMA BIOGRAFIA
Em Brasil: Uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling propõem uma nova (e pouco convencional) história do Brasil. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, as autoras se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e os eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.

Brasil: Uma biografia já está nas livrarias.

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Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

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