61 anos do suicídio de Getúlio Vargas

Por Heloisa M. Starling

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Em algum momento entre 8h30 e 8h40 da manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas fechou a porta de seu quarto, deitou-se na cama, encostou o cano da pistola no lado esquerdo do peito e apertou o gatilho. O suicídio de Vargas foi seu último triunfo político: frustrou a oposição que acusava o presidente de corrupção e, desnorteada, viu escapar a oportunidade de acirrar a crise, desmoralizar Getúlio com a renúncia e abrir caminho para o golpe militar. Sua carta testamento não deixava dúvida sobre como o suicídio deveria ser entendido pela população: uma campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais para bloquear a legislação trabalhista e o projeto desenvolvimentista. “Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida,” declarou.

Cerca de uma hora depois, o prefixo estridente do “Repórter Esso”, o mais importante noticiário de rádio-jornalismo do país, informou aos brasileiros, em edição extraordinária, o suicídio de Vargas. Aturdidas, as pessoas saíam de casa, procuravam uns aos outros e choravam. Aos poucos, porém, a população se transformou e, em diversas cidades — Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, São Paulo —, uma multidão amargurada, revoltada e colérica passou a percorrer as ruas armada com paus, pedras e fúria. No Rio de Janeiro, capital da República, a multidão arrancou dos postes a propaganda política dos candidatos da oposição, quebrou as vidraças da Standart Oil, apedrejou a fachada da embaixada dos Estados Unidos e dos prédios onde funcionavam as redações de O Globo e da Tribuna da Imprensa e, para arrematar, cercou e incendiou os caminhões de distribuição dos jornais. Apenas Última Hora, o único jornal favorável ao governo de Vargas, circulou nesse dia.

Não parou aí. Em frente ao Catete, cerca de um milhão de pessoas tentava ver o corpo de Getúlio; muita gente chorava compulsivamente, outros desmaiavam e havia quem, ao entrar na sala onde acontecia o velório, se agarrasse ao caixão. Às 8h30 da manhã do dia 25, a multidão acompanhou o corpo de Vargas até o aeroporto Santos Dumont, em um gigantesco cortejo que ia se desenrolando pela praia do Flamengo, do Russel e da avenida Beira-Mar. Mas quando o avião da Cruzeiro do Sul decolou e desapareceu no céu, rumo a São Borja, aconteceu o inevitável e as pessoas perceberam o lugar onde estavam: em frente ao quartel militar da 3º Zona Aérea. A dor se transformou em cólera e a multidão avançou contra a guarnição da Força militar que mais claramente havia se posicionado como oposição à Vargas. A Aeronáutica aterrorizada pegou em armas, soldados e oficiais dispararam contra a população civil desarmada. O tiroteio durou 15 minutos. Mulheres e crianças foram pisoteadas, uma pessoa morreu e muita gente saiu ferida — por estilhaços de granada, tiros ou cortes de sabre. Os manifestantes fugiram, mas o motim continuou: a multidão se reagrupou no centro da cidade, os manifestantes juntaram-se a outros milhares e os conflitos continuaram a sacudir a cidade durante todo o dia.

Antes de cometer o suicídio, Vargas deixou registrado: “Escolho esse meio de estar sempre convosco… Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Seu gesto final tinha um poderoso apelo político e, de fato, imobilizou a oposição e paralisou a tentativa de golpe militar. Mas foi o povo amotinado nas ruas das principais cidades brasileiras quem garantiu a Democracia e fez os golpistas recuarem.

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brasilBRASIL: UMA BIOGRAFIA
Em Brasil: Uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling propõem uma nova (e pouco convencional) história do Brasil. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, as autoras se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e os eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.

Brasil: Uma biografia já está nas livrarias.

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Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

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