A doença do insignificantismo

Por Paulo Scott

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1.
Lendo as respostas dadas pela escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís ao jornalista Carlos Vaz Marques — na seleção de entrevistas As palavras não se afogam ao atravessar o oceano (Rio de Janeiro: Editora Tinta da China Brasil, 2015) —, quando a autora falava da protagonista de um dos seus romances, eu me deparei com este trecho:

“(…) Ela só quer sobreviver e, enfim, afastar tudo o que seja um grande destino. Aquilo para que hoje todos os jovens são criados: um grande destino. (…)”.

Por certo, as expectativas jogadas sobre os ombros dos jovens portugueses, hoje e nas décadas recentes, não são as projetadas sobre os jovens brasileiros nestes meados de 2015, de qualquer modo me parece oportuna a menção ao tal grande destino.

Na pergunta seguinte à resposta na qual estava o trecho reproduzido acima, a autora contou:

“(…) Dizia um médico famoso que, dentro de alguns anos, se irá ao médico para tratar a doença do insignificantismo”.

2.
No Dicionário Houaiss, insignificante é aquele que não tem importância, seja profissionalmente, seja pela riqueza, seja pela beleza, seja por algum talento especial. O sufixo ismo designaria intoxicação de um agente, como no caso do alcoolismo, ou movimentos sociais ou ideológicos — os exemplos que o dicionário dá são o calvinismo, o feminismo e o tropicalismo.

3.
Pôr-se doente porque não se é especial, precipitar-se nesse ânimo (em uma espécie de fobia em relação à normalidade), deixar-se soterrar por não conseguir vencer a maré; bem, para a minha geração, nada há de novo nisso. A segunda metade do século XX chegou a nos retribuir com hit cujo refrão é:

I can’t get no satisfaction

I can’t get no satisfaction

Cause I try and I try and I try and I try

I can’t get no, I can’t get no

4.
A literatura, seja sob ângulo terapêutico ou não, também é maneira de se lutar contra a insignificância.

Entre alguns amigos da minha adolescência, a leitura e a escrita de um poema e outro — mentíamos se tratar de letra de música para não ficar tão vergonhoso, já que, naqueles dias de autoafirmação, ser poeta, só poeta, era um pouco vergonhoso — eram dois modos fortes de se lutar contra a insignificância.

As fitinhas Sony ou TDK nas quais eu gravava minhas seleções de músicas nas casas e nos aparelhos 3 em 1 National, Gradiente ou CCE dos que tinham mais dinheiro e podiam comprar os vinis que eu não podia, as idas ao teatro e ao cinema, aos shows no Salão de Atos da UFRGS ou no Parque Marinha do Brasil ou, às vezes, na Redenção, as histórias em quadrinho americanas, espanholas, portuguesas, compradas na banca da Praça da Matriz e mais um monte de coisas também eram modos de se lutar contra a insignificância, mas a literatura — o livro do Paulo Leminski que um dia me chegou às mãos —, insisto, era mais forte do que tudo.

5.
A doença do insignificantismo depende do modo de olhar.

Como toda doença, ela pode até ser romanticamente querida — lembrando que o querer é sempre mais do que o desejar e que o romanticamente, em eventual erro de digitação, pode resultar em romanicamente.

Dependendo com que tipo de manifestação artística se compara a literatura, a literatura poderá ser o próprio insignificantismo.

A literatura escrita originalmente em português sofre de um insignificantismo maior do que a literatura escrita originalmente em inglês, mas seria uma simplificação grotesca desconsiderar (em relação ao, circunstancialmente, melhor favorecido lado inglês) a diversidade entre os lugares onde se escreve textos literários originalmente em inglês.

Às vezes o exótico aos olhos do mercado onde se escreve originalmente em inglês, quando se trata de um livro que não foi escrito originalmente em inglês, é um atalho — mas, como você sabe muito bem, nada é garantido.

6.
No ótimo livro A voz do escritor (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006 — tradução de Luiz Antonio Aguiar), de A. Alvarez, tem este trecho:

“Nesse ponto, a própria arte se transforma num espetáculo secundário sem qualquer valor intrínseco. O que importa é a perturbação da qual a arte pode emergir, devido ao talento correto e perturbado e às circunstâncias corretas, ou seja, trágicas. Em outras palavras, os artistas que o público dos anos 60 achavam mais excitantes eram aqueles que contribuíam intencionalmente para a sua própria destruição. Tendo criado mitos de si mesmos, como um subproduto da criação de arte, acabavam se sacrificando por esses mitos essencialmente triviais.

Talvez esse desespero fosse uma reação a alguma coisa no ambiente político: (…) O extremismo foi o estertor do movimento modernista, a experimentação levada até sua conclusão lógica e decorrente, e só poderia ter ocorrido num período de extrema ansiedade. As respostas agora são menores e a poesia, mais mitigada, menos aventureira. Eu não desejaria a volta de todos os problemas que vinham junto, mas o trabalho que resultou disso foi ótimo enquanto durou.” 

7.
A resposta, em português, para a música “(I Can’t Get No) Satisfaction” é a música “Leonor”, do Mundo Livre S/A, cujo ápice — embora este ápice seja a parte que menos tenha a ver com uma possível antítese da música dos Rolling Stones — transcrevo a seguir:

“Eu sei que me vês como amigo

Não sabes o quanto me dói

Mas o céu foi feito pros anjos

Juntemos o nossos lençóis

Que os anjos não querem saber de nós”

8.
No romance Viagem ao fim da noite, Céline escreveu que o doente se precipita na cura — se não foi exatamente isso foi algo parecido.

Em uma dimensão paralela, um Céline jovem e ativo nas redes sociais seria uma estrela das redes sociais.

Céline foi genial quando, na sua literatura, tratou da insignificância — talvez, já que era médico, até do insignificantismo —, tratou também da covardia.

9.
Coloquei rede social em um poema e depois me arrependi, mas daí já era tarde.

10.
Na sua linguagem de rede social, a rede social diz: Você terá um grande destino. Essa frase, repetida todos os dias, subliminar e propositalmente imperfeita, se torna o novo início do “Parabéns pra você…”.

Vem a palavra redismo e, em seguida, provocada, a palavra arredismo — antagonismo é bom sinal.

No arco geral, no propósito do autor, o conflito é só o material transitivo de um truque.

11.
Para Agustina Bessa-Luís a insignificância não é um mal, é o que nutre a sociedade.

Ainda assim, em alguma selva, por serem todos personagens, todos lutam pela própria significância, e o autor luta também – mesmo que resista e jamais escreva: não quero ser invisível, não quero ser esquecido, não quero morrer, não quero morrer.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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5 Comentários

  1. admin disse:

    Olá, Henrique! Obrigado pela correção. :)

  2. Henrique disse:

    Por favor, corrijam o nome da grande escritora portuguesa. Ela se chama AGUSTINA, não AUGUSTINA. Um erro inacreditável, repetido duas vezes.

  3. Adriane Garcia disse:

    Lembrei- me de William Carlos Williams, doente, dizendo, já quase no fim da vida, ao saber que mais um de seus livros seria traduzido: “eu estou vivo.. . Eu ainda estou vivo.”

  4. Mas morrem. Todos. Nascem mortos, nascemos mortos, fadados ao insignificantismo. Shakespeares, Cervantess, Clarices, da Vincis, Picassos, etc etc, duram uma ínfima parcela de segundo, dentro dessa nossa rápida civilização. Personagens de um livro deletado “imediatamente” após ser concluído. Triste também. Lembrando disso porém a doença fica menos grave, mais suportável. Mal é que quase sempre esquece-se desse detalhe. E dói.

  5. Fatima Pombo disse:

    Para mim isso se traduz como uma grande apelação.

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