Bach, salmão defumado e escrever livros até o final

Por Luiz Schwarcz

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Foto: Elena Seibret

O começo desta história penso que os leitores do blog conhecem. Eu era amigo de longa data de Oliver Sacks, soube da sua doença um pouco antes dela se tornar pública, tentei visitá-lo, mandei discos a ele, recebi cartas escritas à mão, como ele sempre fazia. Hoje, entristecido com sua morte — que ocorreu quase exatamente dentro do prazo que os médicos lhe deram —, conto mais um pedaço dessa história, para quem quiser ler.

O tratamento a que Oliver Sacks se submeteu foi sofrido mas, no início, deu resultados surpreendentes. Ele pode viajar para Londres, rever a família, os amigos e escrever.

Numa carta, ele me contou sobre as melhoras no seu estado geral, ao mesmo tempo em que agradecia o CD com as sonatas de Schubert que eu lhe enviara. Me disse que não havia dado atenção necessária àquela obra de piano do compositor austríaco, de morte tão prematura, e que agora ficava feliz ao ouvi-las.

As boas notícias me deram um ânimo exagerado. Correndo uma manhã em Paraty, durante a Flip, pensei — como sempre penso ao correr — que a forma ideal de comemorar os trinta anos da Companhia das Letras, no ano que vem, seria trazer Oliver para uma palestra. Cheguei da corrida na casa que sempre alugo durante o festival e fui direto para o celular. Já tinha escrito a carta em minha cabeça, só faltava passá-la para as pequenas teclas do iPhone. A resposta de Kate Edgar, amiga e secretária fiel, veio rápida, foi curta e direta:

“Luiz, não temos como planejar nada com tanta antecipação na condição de Oliver. E será muito difícil ele poder viajar ao Brasil.”

Continuei embarcado em minha ilusão, a adrenalina da corrida não abaixava, ou eu não queria assimilar que o futuro não era tão promissor, e poucas semanas depois escrevi de novo. Disse que no dia sete de setembro estaria em Nova York para reuniões na Penguin/Random House. Por conta disto perguntei a Kate:

“Posso visitar Oliver e você?”

A resposta mais uma vez veio direta.

“Não, Luiz, ele não está mais recebendo visitas, mas fique tranquilo que eu e Bill estamos cuidando bem dele.” Bill, para os que não sabem, é um amor recente da vida de Oliver, um dos fatos mais marcantes de sua vida afetiva.

Foi um dos últimos sinais que tive. Em vinte de agosto, escrevi um e-mail para dizer que as memórias de Oliver (que publicamos em julho com o título Sempre em movimento) teriam uma segunda impressão e perguntei numa mensagem posterior e breve:

“Espero que Oliver esteja bem.”

Kate respondeu:

“Não está bem, mas sem dor, está emocionalmente em paz. Neste momento ele está ouvindo gravações clássicas de histórias de Sherlock Holmes, contadas por John Gielgud, Ralph, Richardson e outros. Sua vida está muito prejudicada mas ainda há prazeres. Salmão defumado e Bach são alguns dos principais.”

Em seguida respondi que enviaria alguma gravação de Bach da minha predileção para que ele escutasse. Kate disse, mais uma vez, para não me preocupar. Ele tinha muitas.

Numa parte da correspondência desses dias Kate me reiterou que ele seguia escrevendo e que iria continuar fazendo livros até o final. Conseguiu, aparentemente escreveu mais um livro e preparou outros dois, de cartas, correspondências e artigos.

Ouvindo a Paixão Segundo São Mateus, neste triste domingo de manhã em minha casa, logo após saber que meu amigo morreu, sinto uma pena danada. Não houve tempo para o último presente. Ao menos ele ficou feliz com a edição brasileira de Sempre em movimento, que considerou “Magnificent”. Em minha opinião é das capas mais bonitas dos trinta anos da editora. Oliver estará assim, de alguma forma, presente em nossas discretas comemorações.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.