Em Tradução (Pinguins)

Por Caetano Galindo

tolstoi

A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Então me pediram pra escrever alguma coisa em referência a um título clássico do acervo da Penguin por causa do aniversário da editora.

(Logo, aguardem pra próxima coluna mais divagações sobre City on Fire… A tradução vai indo, chegando a 700 páginas.)

Meu!

Chega a ser difícil pensar em escolher. Os pinguins pra mim são quase o símbolo da leitura de ficção de qualidade. Porque o acervo é imenso e imensamente incrível, porque os preços são bacanas, os projetos gráficos são DEMENTES e o acabamento dos livrinhos, ah… Que felicidade e que durabilidade!

Todos: os modernos, os clássicos, os “vintage” de capinha em tom pastel… Talvez acima de tudo os “black spines”, claro, com aquele “retanglinho” preto no terço inferior da capa e a tarjinha branca com o pinguim. A cara de um dia feliz de leitura.

Tenho vários, tive muitos mais. Sou quase devoto.

Quando eu soube que a minha tradução do Ulysses não só ia sair pela Companhia das Letras, mas ia ter pinguim e black spine!

Pô, eu tenho uma blusa que eu comprei só porque era duma marca que estampa um pinguim no peito! Eu tenho uma camiseta Penguin-Companhia que eu roubei da minha mulher! (Fica LINDA moldando meu physique de rolo…) Isso porque a minha, original, eu tive que dar pra um joyceano inglês num congresso!

Mas na hora que me pediram pra falar de UM clássico (e logo depois de me sugerirem muy amavelmente que de repente eu já falei demais do Ulysses aqui), eu de imediato lembrei de uma ediçãozinha pequenininha que eu achei numa loja que nem existe mais em Curitiba, exatos vinte anos atrás.

Por que eu sei que era 95? Porque o volume era parte da coleção Penguin 60s, de volumes baratíssimos feitos pra celebrar o aniversário de 60 anos da editora.

Qual livro?

A morte de Ivan Ilyich.

Que eu sempre quis ler porque o Dalton Trevisan, maior dos maiores, uma vez escreveu que todo homem morre duas vezes, sendo a primeira a leitura do Ivan Ilyich.

Li numa sentada.

Morri mil vezes.

Tolstói, digamos com todas as puras palavrinhas, simplesmente sabia tudo de narração. Ele é um monstro.

Hoje, ainda cedo, eu falava com os alunos que é estranho ver o quanto o cinema e a televisão demoraram pra desenvolver uma gramática narrativa que, no fundo, estava inteirinha em Guerra e Paz. Em Anna Kariênina.

Era só ter ido ler…

Mas o Ivan Ilyich ainda é uma pancada tão grande em termos simplesmente humanos. E num texto tãããão breve.

Aquilo é uma aula de coisas que você nem sabia que podiam ser ensinadas.

É uma humilhação.

E eu nunca, nunca mesmo, devo esquecer da total felicidade de encontrar naquela loja já morta aquele livro (já perdido), que seria capaz de mudar a minha vida (e a minha morte), num voluminho lindo por um preço que eu podia pagar com a grana da bolsa monitoria da universidade…

Tudo por causa do pinguim.

Obrigado.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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