História sobrenatural do espiritismo

Por Joca Reiners Terron

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1.
Estava eu acocorado diante de minha távola redonda quando entrou meu cliente, o editor de livros espíritas. Arrazoou seus devaneios de sempre, mais um: queria que eu contatasse Rimbaud e Verlaine, pois se cansara de psicografar analfabetismo alheio. Concordei, molhando o bico na xícara de chá onde escondia uísque e iniciamos os preparativos, que incluiriam minha secreta leitura de ambos. A fim de ganhar tempo para tal, marquei a sessão inaugural para a manhã seguinte. Devia era ter fugido.

2.
O editor, como todo malandro, é madrugador. Começamos pelo começo, depois dos finalmentes relacionados ao faz-me-rir. A dúzia de poemas ficou acertada em quinhentos cruzeiros, o que me pareceu honesto. Duvido que Rimbaud ou Verlaine tenham merecido tanto em vida, pois ganharia eu em seu lugar na posteridade, rá. O dia ensaiou dois ou três passos de bebê e se estabacou no chão. Aleguei mal estar e tonturas, sintomas da mediunidade, energia a flux. Ficou para outra. Assim que o editor saiu, corri ao sebo da outra esquina.

3.
No sebo havia apenas uma edição de poemas de Rimbaud. Custava cento e cinquenta cruzeiros, o que dava boa margem de lucro. Pedi fiado, disse que pagava na semana vindoura. O livreiro falou que não precisava tanto, éramos amigos, e consultou-me ali mesmo sobre amores negociados & negócios amorosos. Vislumbrei felicidades passadas, presentes e futuras. Riquezas ao alcance dos dedos e da piça. Arrebanhei o volume grátis.

4.
Na tarde próxima, após o almoço, surgiu atrasado o editor. Não tinha repousado bem, vomitou pela manhã, zonzo zonzo, que diacho. Teria contraído minha indisposição? No entanto, se eu estava melhor, em breve ele me imitaria: haveria de ser necas de pitibiriba, mera virosezinha. Abancamo-nos ao redor da mesa, à direita uma garrafa de vinho chablí de dezoito cruzeiros, o livro de Rimbaud à esquerda. Um de cada vez, expliquei, pois ouvi dizer que terminaram em briga feíssima. O editor concordou, cerrando olhinhos e alcançando minhas mãos. Ommm, meditamos.

5.
Nada aconteceu, mas isso foi só porque a energia do editor de livros espíritas se encontrava enfraquecida, a meio pau. Gripe mela com tudo, até as sagradas coisas do ectoplasma não resistem, expliquei. Voltaria dois dias mais tarde, já devidamente aspirinado. Foi-se, aos espirros. Lavei as mãos e voltei a ler Rimbaud. Devia ter me antecipado ao baixo astral do ambiente, economizaria tempo e fosfato, pois dinheiro não tenho. Muito menos vergonha. No difícil prefácio, soube da precária existência da dupla de facínoras. Um deles atirara no outro. Expuseram intimidades cabeludas ao escrutínio jurídico. Outro tornou-se carola. Um se mandou para África. Fim? Ma che.

6.
Com a tesourinha de cinco cruzeiros, recortei versinhos do livro. Onde estava a Tenaz, que nunca lembro onde escondo? Encontrei, salivei o biquinho com meio chupão, esparramei cola branca no papel almaço. Ficou assim, se eu gostei?

Certos céus aperfeiçoaram minha ótica;
A que animal é preciso adorar?

Rumores das cidades, à noite,
Um verde e um azul bem carregados
Invadem a imagem.

Tudo se fez sombra e aquário ardente.
O mundo reduzido a um único lenho negro.

Ô, gostei demais da conta.

7.
Três dias depois, retornou o editor. Corado. Pimpão. Disse: vamos. E fomos. Destapei nova garrafa de vinho, mais caro, pois parte do fracasso se devera ao chablís de dezoito cruzeiros, expliquei. Este custa vinte e cinco e é francês de origem comprovada, veja. Ergui o selo. Xar-dô-né, sublinhou o editor. E assim baixou Rimbaud, por meio da colagem de poemas, que anotei enquanto sacudia a cabeça para trás e adiante e luzes acendiam e apagavam sob ímpetos da energia do bad boy de Charleville a endemoninhar o ambiente. Suado, entreguei a primeira dúzia, e o editor molhou-me as palmas com quinhentos cruzeiros. Agendamos Verlaine para dali a cinco dias, o poeta adolescente esgotara-me. Trinta e sete, sussurrou o editor. Trinta e sete, não, eu disse, combinamos quinhentos e isso também vale para o Verlaine. Não, disse o editor, quando morreu Rimbaud tinha trinta e sete. Ah, aquiesci. Qual siri, calei a tromba, repousando a poupança no divã, exaurido pelo esforço mediúnico.

8.
O mundo editorial se mexe rápido, no ritmo da gatunagem. Alegando compromissos com a mercancia efervescente, o editor faltou ao encontro seguinte. A dúzia de Verlaines a quinhentos módicos já o aguardava, porém na gaveta. Prossegui ao botequim para enxaguar a alma, e não é que o vespertino estampava na lateral da banca a seguinte manchete? RIMBAUD RESSUSCITADO. Prosseguia: “Eterno poeta adolescente galga lista de mais vendidos”. Tinha mais: “Editor de livros espíritas acerta em psicografias de grandes autores e fatura alto”. Meus advogados! Pressenti que meus royalties eram afanados e profanados. Meus sais, suspirei no balcão do Piolho após a talagada. O Piolho entendeu “quero mais”, e encheu meu copo.

9.
O editor adentrou a sala e a lâmpada oscilou. Sorriu, não mencionou bulhufas, iniciamos a sessão. Como não tinha mais cruzeiros para adquirir exemplar de sua lavra, compus a dúzia de Verlaines com sobras de retalhos de Rimbaud. Ninguém veria a diferença, apostei sem nunca ter tido sorte para tanto. Sob a mesa, pressionei o botão da “psicografia pirotécnica”. Era convincente até para mim. Vento uivava, luz piscava, portas e batentes tremiam. Só as pernas balouçantes da cadeira do cliente mereciam um Oscar de efeitos especiais. No meio dessa balbúrdia, ouvi berros em francês. Não dei bola. Com os quinhentos cruzeiros em caixa, comecei a culpar Zezinho, meu comparsa eletricista. Aquele conversê em francês era o fino da troça. O Oscar de efeitos especiais estava no papo. Esse Zezinho… que danado.

Quando somos muito fortes;
Sim, tenho olhos fechados à vossa luz. 

Eu bem seria a criança abandonada no cais.
Quanto ao mundo, em que se tornará, 

Quando saíres dele? Abertos ao espirito
Dos viajantes e dos nobres. E nós o evocamos

E ele viaja…

Verlaine é o bicho, tilintou o editor: mas que bardo. Pensei: “mas quebrado”.

10.
Ao telefone, Zezinho me disse que não sabia a respeito de que eu tresloucava, pois nunca distinguira francês de russo. Não tinha coisa alguma a ver com o vozerio afrancesado que ouvi durante a sessão. Desliguei e cocei a cachola. Depois, enchi a cara com chá de malte e as pulgas sossegaram detrás da orelha. No meio da noite, acordei com novo fuzuê no centro de atendimento.

Fils de pute, ces vers sont de mois!
Vous êtes ce que c’est. M’a même donné un coup de feu! Crois que j’ai oublié?

Fui até a mesa redonda. Completo silêncio. Tinha algo errado. Ô se tinha.

11.
Em poucos dias, o centro virou a franquia do inferno. A brigaiada em francês não me deixava dormir. O editor sumiu por duas semanas. Na terceira, fui ao balcão do Piolho. Notícia nenhuma nas laterais das bancas de jornal, boa ou má. Inquieto, zaranzei pelo centro. Quem sabe não trombaria com o editor em carne, osso e espírito? Cruzei foi com o bilhete da borboleta da loteria, premiado segundo o vendedor. No dia seguinte, deu zebra. Meu amigo editor flagrou-me no ato de rasgar o bilhete: denúncias de plágio o obrigaram ao sumiço, mas voltara. Acusavam-no — a Associação de Médiums do Brasil — de plagiar Verlaine com pastiches de Rimbaud. Encostou-me na parede: eu precisava desatar o imbróglio. Exibiu o punho diante de meu nariz (usava anel de caveira). De soslaio, procurei a tesourinha de cinco cruzeiros. Alegaria legítima defesa. Por que diabos, porém, nunca lembro onde a deixei?

12.
Plágio em psicografia, como pode?

Pois não pode. A A.M.B. não permite.

E agora? Que fazer?

Convoque Verlaine. Uma dúzia de sonetos há de nos salvar!

Aiai.

Que foi?

Não entendo o que ele fala.

Por quê, sempre chega bêbado?

Não é bem isso.

Demasiado hermético?

Até que não, sabe…

Qual o problema?

É que não entendo francês.

Então quis saber de onde tirei os poemas. Expliquei meu método poético com tesoura, cola Tenaz e um velho livro de Rimbaud. Fez as contas, o resultado em cruzeiros o levou a me plantar um pé-de-orelha. Fiquei com uma caveira em baixo-relevo bem na bochecha. Era para lembrar que eu tinha encrenca a resolver. Com urgência.

13.
Amordaçada e amarrada no chão do centro espírita, a professorinha da Aliança Francesa gemia. Em francês, o que deixava tudo sensualmente incompreensível. Qual seria a pena para sequestro, quinze, vinte anos? Pouco importava. Eu passaria todo esse tempo ao lado dela. Que biquinho. Imaginei-a sem a mordaça, dizendo si-vu-plê, petípoá, sutiã. Começou a ouvir vozes. Desatei-a. Ela sussurou, quase num gemido: ouça, brigam — trata-se de querela romântica. Quem são? Expliquei: Rimbaud e Verlaine. Não acredito, ela ganiu. São meus ídolos! Comecei  a massagear-lhe pulsos e tornozelos e a devassar seu decote, enquanto ela os chamava: venez, venez, cesser les combats et parlons un peu!

14.
Professorinha Lili, assim fora batizada. Era um fenômeno, de língua e linguagem. Na cama, me ensinou o beabá francês, que aprendera na Legião Estrangeira. No centro, transcreveu e traduziu 123.474 sonetos saturnianos compostos por Verlaine no purgatório. Metade reclamava da qualidade do absinto que lhe serviam por lá, outra metade das saudades de Rimbaud. Entendeu-se, o casal. A separação de 135 anos lhes fizera bem. Arthur ditou seus diários de África. Harar, o tráfico de fuzis, Djibouti, sua paixão pela fotografia, Ras Makkonen. O editor de livros espíritas ganhou milhões de cruzeiros com isso, mas nos repassou os royalties. Ficamos ricos, e passamos a viver os quatro no centro. O editor nos visitava com frequência, à cata de psicografias. Trazia sacos de cruzeiros. A Aliança Francesa, que me enviou Lili e uniu os poetas, nos salvou.

15.
No entanto, tudo que é demais acaba cedo e mal. Em uma noite de insônia em que fora até a geladeira do centro espírita, Lili retornou ao quarto com o copinho d’água trêmulo na mão e a má notícia: não são eles — nos enganam. Eram uns surrealistas peraltas, Benjamin Péret e René Crevel. Troçam de nós. Dois espíritos de porco, isto sim. Lili os ouvira enquanto riam às nossas custas. Consumiam drinques de ectoplasma adquiridos com nossos cruzeirinhos. Uns ignóbeis. Estapeá-los-ia se não fossem espectros. Então aconteceu: a Associação de Médiuns do Brasil esmurrava nossa porta, que veio abaixo. No saguão, os agentes carregavam um Detector Estroboscópico de Psicografias Falsas, cujas luzes pisca-piscantes iluminavam o cenário de forma a parecer uma cena natalina. Lili olhou pela janela: o editor de livros espíritas estava lá fora, algemado. Tinha uma melancólica expressão de abandono. Havíamos sido pegos. Malditos surrealistas, quem diria, acabaram com nosso sonho.

* * *

Despeço-me do blogue com este conto publicado originalmente na revista Modo de Usar & Co. 4 (Berinjela, RJ, 2013) e que circulou pouco. Agradeço a todos pela leitura, pelos comentários e curtidas. Muito obrigado à Juliana Vettore pelo convite lá em 2010, e a Clara Dias, Diana Passy, Taize Odelli e demais envolvidos pelo carinho e paciência. Foram 5 anos que passaram num piscar de links & num clicar de olhos.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013.
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2 Comentários

  1. (…) este conto é demais. da notícia de sua despedida do blog, Joca, não gostei. abraços e alegrias em novos projetos por vir.

  2. victor almeida disse:

    E o blog perde mais um grande colaborador!

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