Lisbeth está de volta

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Depois de muita espera, finalmente A garota na teia de aranha chega às livrarias.

Hoje, 27 de agosto, é o dia do lançamento mundial do quarto livro da série Millennium, escrito por David Lagercrantz, que dá continuidade às histórias de Stieg Larsson publicadas há 10 anos. Na entrevista coletiva realizada ontem na Suécia, Lagercrantz confessou que “sentia medo de não estar à altura” dos três livros da série escritos por Larsson, mas a recepção, como mostram as resenhas do The New York TimesUSA Today The Guardian, garantem que a nova aventura de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist vai agradar aos novos e antigos leitores de Millennium. Quem se encantou com as personagens fortes e polêmicas em Os homens que não amavam as mulheresA menina que brincava com fogoA rainha do castelo de ar, com certeza não vai perder este novo capítulo da série.

Neste novo livro, Lisbeth e Mikael estão presos a uma teia de aranha mortífera e terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. É tarde da noite quando Blomkvist recebe o telefonema de uma fonte confiável, dizendo que tem informações vitais aos Estados Unidos. A fonte está em contato com uma jovem e brilhante hacker — parecida com alguém que ele conhece. Blomkvist, que precisa de um furo para a revista Millennium, pede ajuda a Lisbeth. Ela, porém, tem objetivos próprios.

A seguir, leia a tradução da resenha publicada ontem no The New York Times, por Michiko Kakutani.

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A garota na teia de aranha traz de volta a dupla de detetives de Stieg Larsson

Os fãs do cativante e estranho casal da ficção policial moderna criado por Stieg Larsson — a genial hacker punk Lisbeth Salander e o seu parceiro ocasional, o determinado jornalista investigativo Mikael Blomkvist — não ficarão desapontados com suas aventuras mais recentes, escritas não pelo criador dos personagens, Stieg Larsson (que morreu de um ataque cardíaco aos cinquenta anos, em 2004), mas por um jornalista e escritor sueco chamado David Lagercrantz. Apesar de haver alguns sobressaltos ao longo do romance, Salander e Blomkvist sobreviveram intactos à transição de autores e continuam tão atraentes quanto sempre foram.

Em A garota na teia de aranha, a dupla se envolve no caso do enigmático cientista da computação Frans Balder: um proeminente especialista em inteligência artificial que se vê enredado em uma trama global envolvendo a Polícia de Segurança Sueca, a máfia russa, espiões industriais do vale do Silício e interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.

Os esforços de Lagercrantz para conectar crimes na Suécia a maquinações dentro da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) são confusos e forçados — uma tentativa óbvia de capitalizar em cima das revelações de Edward Snowden sobre a agência e do debate a respeito dos seus métodos de vigilância. Por outro lado, os leitores de Os homens que não amavam as mulheres não foram arrebatados por conta da trama (fortemente baseada em clichês cinematográficos de serial killers), de sua plausibilidade ou da visão política anti-autoritarista de Larsson. Eles foram arrebatados pelo livro e pelos dois subsequentes — A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar — por causa do charme rude de Salander e Blomkvist e da química improvável entre os dois. E também porque Larsson foi tão hábil em retratar uma Suécia taciturna e com ares noir que transformou o estereótipo de uma Escandinávia limpa e resplandecente (onde as pessoas dirigem Volvos e compram móveis da Ikea) em uma terra de invernos longos, assombrada pelos fantasmas de Strindberg e Bergman.

Em A garota na teia de aranha, Langercrantz parece entender instintivamente o mundo que Larsson criou e os seus dois investigadores nada convencionais: Blomkvist, o repórter dedicado e honrado (e improvável sedutor de mulheres de meia-idade), e Salander, a garota hostil e machucada que parece uma versão raivosa e punk de Audrey Hepburn (se você conseguir imaginar Holly Golightly com tatuagens e piercings em vez da tiara), que luta com as habilidades arrasadoras da Lara Croft nos videogames.

Lagercrantz captura o cansaço, e até a vulnerabilidade, que se esconde por detrás da aparência de força desses dois personagens, e entende que eles são motivados por uma sede de justiça — Blomkvist por causa de um idealismo combativo, e Salander, de uma determinação para vingar o abuso que sofreu quando criança nas mãos do pai, Zala, um ex-agente da União Soviética que desertou e virou o comandante de uma vasta organização criminosa.

Assim como os romances anteriores, A garota na teia de aranha dá mais pistas sobre o passado de Salander, que lançam nova luz sobre como essa antiga vítima se tornou uma sobrevivente determinada e impiedosa, e foi capaz de se reinventar como uma espécie de super-heroína vingadora. De fato, a sua misteriosa gêmea Camilla, há muito desaparecida, ressurge aqui em algumas cenas exageradamente melodramáticas como sua arqui-inimiga, uma mulher bonita e perigosa que parece mais uma vilã de um filme de James Bond do que um ser humano de verdade.

Um personagem bem mais interessante e comovente é August, filho de Balder, um menino autista de oito anos de idade: um savant extraordinariamente talentoso como artista e matemático, mas severamente traumatizado pelos maus-tratos que sofreu do amante violento da mãe e quase incapaz de falar. August, que testemunhou o assassinato do pai e desempenha um papel crucial na busca pelo assassino, fará com que alguns leitores se lembrem do narrador autista do emocionante romance de 2003, O curioso incidente do cão a meia-noite, de Mark Haddon (posteriormente adaptado para o teatro e vencedor do Tony Award). Lagercrantz faz desse menino um personagem cativante. Seu sofrimento e suas habilidades excepcionais o transformam numa espécie de alter-ego de Lisbeth Salander, que usará toda a sua habilidade, toda a sua engenhosidade — em hackear, coletar informações e em sobreviver — para protegê-lo, quando os inimigos do pai do menino se lançam em sua caçada.

A garota na teia de aranha é menos sangrento e aterrorizante que os livros anteriores. Em outros aspectos, Lagercrantz parece ter canalizado — de maneira bastante hábil, em sua maior parte — o estilo narrativo de Larsson, misturando clichês do gênero com detalhes investigativos e originais, e concebe reviravoltas que lembram cenas dos romances de Larsson, com descrições muito bem pesquisadas sobre essa terra sem lei que é o lado obscuro da internet. É provável que a NSA tenha entrado na história em parte como um meio de prestar homenagem ao anti-autoritarismo de Larsson e sua visão sombria do poder do estado (desenvolvida de maneira mais completa em A rainha do castelo de ar, que abordava a corrupção política na Suécia e a conduta ilegal da Polícia Secreta).

E, ainda que o envolvimento da NSA com o caso investigado por Salander e Blomkvist nem sempre seja descrito por Lagercrantz de forma totalmente convincente, sua narrativa demonstra tanta segurança e agilidade nas sequências finas do livro que ele supera facilmente essas passagens mais dúbias.

Em vez de parar e analisar a plausibilidade de parte das conspirações interligadas em A garota na teia de aranha, o leitor vira as páginas com rapidez para ver como Salander e Blomkvist montarão as peças do quebra-cabeça do caso Balder (com grande ajuda de August). Nos perguntamos como as decisões tomadas por eles no calor do momento — em plena fuga ou sob ataque — lançam nova luz sobre quem eles são a esta altura de suas vidas. E, se a missão de cada um — no caso dele, desvendar a história de Balder; no dela, rastrear a organização criminosa comandada por seu pai odiado — os colocará em rota de colisão ou os irá transformar num par, romântico ou não, mais uma vez.

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