O poder das garotas

Por Clara Browne, Lorena Piñeiro e Sofia Soter

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Tom Gauld

“Vai dar namoro? O que faz os caras mudarem os status”

“Como ser a namorada dos sonhos dele”

“VIDA REAL: Eu beijei uma garota, e agora???”

“Clareia! Deixe seu cabelo com a cor do verão”

“Superdicas para murchar a barriguinha”

“Qual o look certo para conquistar? Os meninos contam!”

“Ele disse, ela disse: um guia para ajudar você a entender a língua dos garotos”

“81 sapatos e bolsas que você vai querer”

“Liso dos sonhos: você pode ter o cabelo que sempre quis!”

“O amor não tira férias, por isso, saiba como NÃO passar o verão sozinha”

Todas essas manchetes estamparam capas de revistas para garotas em bancas de jornal pelo Brasil nos últimos anos, mas poderiam ter sido publicadas quando nós éramos adolescentes (e talvez realmente tenham sido).

Mas quem somos nós? Aqui, nesse texto, falando com você, somos três garotas (adultas? Mulheres?): Lorena, Clara e Sofia. E apesar de termos alguma diferença de idade, de termos crescido em cidades diferentes e termos histórias diferentes, o que importa você saber agora é que editamos a Capitolina, uma revista on-line para adolescentes, que vai virar livro pela Seguinte. Aqui, neste exato momento, somos nós três escrevendo. Mas não somos apenas três. Somos três editoras gerais, vinte coordenadoras de editorias e áreas, cento e vinte colaboradoras. Somos não uma, mas várias gerações de garotas que passaram a vida escutando o recado dessas manchetes.

E o recado é claro: toda adolescente que se preze quer comprar muito, precisa “conquistar” garotos o tempo inteiro, não pode ficar sozinha de jeito nenhum, tem cabelo claro e liso (e, a julgar pelas capas, a pele branca), é, ou quer ser, magra. Nós crescemos ouvindo tudo isso da televisão, das revistas, das colegas; aprendendo que ser como nós somos não é bom o suficiente, nunca.

Ouvimos isso a nossa vida toda sem nunca nos identificarmos com o que diziam que nós éramos, sem nunca querermos ser quem nos diziam para ser. Então, crescemos. Crescemos e cansamos. Não dava mais para aguentar uma mídia que trata garotas adolescentes com desprezo, como bonecas, como massa de manobra. Mas é só largar a revista, certo? Não. Porque aquelas páginas eram apenas um reflexo do mundo que conhecemos tão bem. Um alto-falante repetindo sem parar que precisávamos mudar, precisávamos nos adequar ao status quo. Para fechar os olhos e os ouvidos é necessário força. Mas de onde tirar essa força para nadar contra a correnteza de coma-menos-fale-menos-seja-menos?

A história do nascimento da Capitolina é meio boba mas ao mesmo tempo extremamente mágica e significativa — e vocês poderão saber mais na carta que escrevemos no livro. Mas o que é importante saber agora é que nos conhecemos pela internet enquanto criticávamos revistas voltadas para o público feminino. O importante é que, de repente, éramos dezenas de garotas confessando que nunca se viram em nenhuma mídia. E é importante saber que foi na noite em que nos conhecemos, assim mesmo, por trás das telas do computador, que a Capitolina surgiu.

Desde o primeiro momento, nossa revista já veio com a intenção megalomaníaca de ser uma voz dissonante. Mas uma voz dissonante das outras mídias, pois acontece que descobrimos que quem está fora de tom são as empresas, nunca as garotas adolescentes. A Capitolina seria uma ferramenta que ajudaria toda garota a ser capaz de escrever sua própria narrativa. Sabe a história do alto-falante que repete a mesma mensagem negativa? Nós não queríamos só roubar o megafone e trocar o sermão. A gente queria colocar um microfone nas mãos de cada garota para que ela gritasse o que quisesse.

Nosso objetivo é criar um espaço seguro, livre de preconceitos, em que cada garota possa se empoderar e ganhar forças para mudar o mundo à sua volta. Não precisa esperar um príncipe galante que a salve da torre — vamos nós mesmas demolir o castelo.

Na Capitolina, não cansamos de dizer que todas juntas somos fortes. Temos histórias diferentes, viemos de lugares distintos, nossos fios são lisos e crespos, nossas cores não cabem na escala Pantone, nossos corpos não foram feitos no mesmo molde. Somos muitas e somos extremamente diferentes, mas isso não é um problema. Ao contrário: é porque somos tantas tão distintas que podemos nos dar as mãos, ajudar a nós mesmas e às leitoras. Descobrimos que, juntas, temos poder. E esperamos que vocês, com suas próprias trajetórias, histórias, origens e contrastes, encontrem a mesma força ao nosso lado.

Já dissemos e repetimos: somos todas megalomaníacas. Megalomaníacas e rebeldes, pois não vamos nunca aceitar o que nos falam por aí. E é assim que vamos conquistar nosso espaço no mundo.

Não à toa o nosso nome. Vindo da Capitu, personagem-mulher que saiu da ficção e tomou conta da identidade de todo o país por ter escolhido ignorar as palavras de Bentinho e criar sua própria história. Mas mais que isso: Capitolina, antes da Capitu, foi também a loba que deu de mamar a Remo e Rômulo, os irmãos do mito de criação de Roma. Nosso nome vem de uma tradição que poucos sabem de cara, mas que é extremamente significativa. Uma tradição de mulheres fortes e admiráveis, de mulheres que fizeram história, de mulheres que saíram da ficção e invadiram o plano do real fundando seus próprios impérios.

Mas antes de chegarmos ao ápice da megalomania, vamos com calma. Aos poucos consertamos o mundo, mas agora comecemos por essas manchetes:

“Vai dar namoro? Vocês que sabem!”

“Como ser a namorada dos sonhos dele: um guia de projeção astral” 

“VIDA REAL: Eu beijei uma garota, e foi de boas!”

“Deixe seu cabelo com a cor do verão: verde-piscina”

“Superdicas para curtir sua barriguinha”

“Qual o look certo para conquistar? Armadura e espadas!”

“Ele disse, ela disse: um guia para ajudar você a entender a língua dos garotos, caso eles sejam de outro país.”

“81 sapatos e bolsas (para você marcar no Pinterest e esquecer por lá porque não temos toda essa grana no momento)”

“Liso dos sonhos: pra quem não curte roupa amarrotada”

“O amor pode tirar férias, ele fica cansado às vezes”

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capitolinaCAPITOLINA
Sinopse: 
A revista on-line Capitolina surgiu em 2014 como uma alternativa à mídia tradicional voltada para meninas adolescentes. Sua proposta é criar um conteúdo colaborativo, inclusivo e livre de preconceitos, abordando temas como relacionamentos, feminismo, cinema, moda, games, viagens e muito mais. Esta edição reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados. No total, são 41 jovens escritoras e 23 artistas talentosas. Para completar, há atividades interativas para que cada leitora ajude a construir o livro e dê a ele seu toque pessoal. As leitoras vão encontrar conselhos, dicas, reflexões, muito apoio e, principalmente, a sensação de que não estão sozinhas.

Capitolina será lançado pelo selo Seguinte no dia 27 de agosto. As autoras estarão na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro autografando no Estande da Companhia das Letras (Pavilhão Azul G08/H07) no dia 6 de setembro, às 15h, e no dia 12 de setembro, às 18h.

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