O Vilarejo: Processo criativo

Por Raphael Montes

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Uma das ilustrações de Marcelo Damm para O Vilarejo.

Nesta semana chega às livrarias meu novo livro, O Vilarejo, pelo selo Suma de Letras. Trata-se de um romance de terror, com catorze ilustrações incríveis que complementam a narrativa, feitas pelo Marcelo Damm. Normalmente, sou bastante organizado e metódico ao escrever meus livros. No entanto, o processo criativo de O Vilarejo foi inusitado, totalmente sensorial e despretensioso.

Suicidas, meu romance de estreia, foi escrito dos 16 aos 19 anos. Dias perfeitos, escrito entre os 20 e 23 anos. O que eu escrevi entre os 19 e 20 anos? A resposta é O Vilarejo. Em 2010, enquanto procurava uma editora para publicar Suicidas e rascunhava os primeiros capítulos de Dias perfeitos, eu estava devorando as obras de Poe, de Lovecraft, dos irmãos Grimm e de Stephen King. Todo esse mergulho na literatura de horror gótico e de suspense me levou a escrever histórias situadas em um vilarejo distante, incrustado num vale isolado pela neve. Queria explorar a vida daquelas pessoas em situações extremas, passando fome, lutando pela sobrevivência e desprovendo-se de sua racionalidade e moralidade.

Escrevi as histórias sem qualquer desejo de publicá-las — fui fazendo conforme tinha as ideias, sem saber exatamente onde queria chegar. Com o tempo, elegi uma linha mestra: o romance se baseia na teoria do padre e demonologista Peter Binsfeld, que, em 1589, fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar aquele respectivo pecado nos seres humanos. Assim, cada história do livro explora um pecado capital, apresentando gradualmente a degradação dos moradores do lugar. Ao longo das páginas, o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pelo frio e pela fome.

Quando terminei de escrever as sete histórias, mostrei ao meu amigo Marcelo Damm, desenhista talentoso. Decidimos fazer um livro com ilustrações, ao estilo de alguns trabalhos de Lovecraft e Neil Gaiman. Ao longo do ano seguinte, pensamos, discutimos e elegemos as catorze ilustrações que agora figuram em O Vilarejo. De posse delas, optei por reescrever partes do romance e por alterar os tempos verbais, trazendo-os para o presente — assim, a história ganha um tom de imediaticidade e perturbação real. Por fim, antes de mostrar ao editor, escrevi um prefácio e um posfácio.

Ao tentar entender em que “modelo” se encaixava O Vilarejo, percebi que se tratava de um romance fix up. Criado nos Estados Unidos nos anos 1950, o romance fix up é composto por histórias independentes que se inter-relacionam num todo coerente, de tamanho e complexidade semelhantes ao romance. O livro não foca em nenhum personagem, contando sobre todos de um universo em comum; no caso, o vilarejo. Trata-se de um estilo pouco explorado na literatura brasileira e que merece atenção não só por seu caráter híbrido (algo tênue entre livro de contos e romance), como também pelas possibilidades que traz de agilidade e fluidez à narrativa.

Assim, em O Vilarejo, as histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que uma personagem de passado misterioso tem sua história explicada em outro conto e, por vezes, um conto esclarece — ou ainda modifica — o final de outro. Ao término da leitura, as sete histórias convergem em uma única e surpreendente conclusão.

Semana passada, recebi o primeiro exemplar do livro. Ficou lindo! Espero que todos se aventurem no vilarejo. Antes, no entanto, recomendo vestir um bom casaco e levar consigo uma faca bem afiada. A gente nunca sabe o que vai encontrar pelo caminho…

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Eventos de lançamento de O Vilarejo: 

São Paulo — Terça-feira, 25 de agosto, às 18h30, na Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional).

Rio de Janeiro — Sábado, 5 de setembro, às 18h30, no Estande da Companhia das Letras na Bienal Internacional do Livro do Rio (Pavilhão Azul, G08/H07).

Rio de Janeiro — Domingo, 13 de setembro, às 16h, no Estande da Companhia das Letras na Bienal Internacional do Livro do Rio (Pavilhão Azul, G08/H07).

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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5 Comentários

  1. Elson Mauricio Gomes de Andrade disse:

    E vc acertou na mira que livro bom… tanto que já o reli duas vezes.O Vilarejo foi o primeiro que li e não parei mais…Dias Perfeitos também não deixa a desejar,futuramente quero ler Suicidas.Parabéns Raphael dos escritores comtenporâneos,só para citar alguns;Alberto Mussa,Miguel Sanches Neto-está entre os melhores.

  2. Raquel Moritz disse:

    Li O Vilarejo recentemente e fiquei muito satisfeita com os contos. Achei muito inteligente a forma como vc os amarrou e, sendo bem sincera, aquela foto no final foi de arrepiar. Muito legal mesmo, obrigada por manifestar sua criatividade com os leitores. :D

  3. Raphael,
    sou uma senhora com mais de 70 anos. Já li seus tres livros e, desde o primeiro, queria ler mais por pensar que você, além de excelente escritor, teria o dom de canalizar seus monstros através de sua arte. Acabei hoje o ‘suicidas’ e gostaria de saber se a dica que você dá sobre o final é percebida com facilidade ou eu é que delirei. Em cada capítulo onde se encontra a data em que o manuscrito foi encontrado na casa do Alessandro, data posterior ao ‘encontro” é o que pensei? uma pista?
    grata se puder responder.
    sucesso e muita ins + piração.
    Angela

  4. […] LIVRO QUE O MARCELO DAMM ILUSTROU Conheça esse trabalho megalovaxfoda do desenheiro do mal! […]

  5. Jersey disse:

    Cara, sou seu fã

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