Sobre uma poeta que só conhece o mar pelo rumor que faz um livro

Por Victor da Rosa

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Este livro recente de Ana Martins Marques, O livro das semelhanças, entre outras coisas, poderia ser comparado a um espelho, ou melhor, devemos ler seus poemas como se estivéssemos em uma sala de espelhos, sempre desconfiando das suas pistas e mesmo das imagens que eles nos indicam — e que tanto nos surpreendem. Além disso, o livro também se parece com ele próprio, embora não possamos ter certeza se o livro a que o título se refere é realmente este que temos em mãos… Em suma, toda semelhança é também uma forma de armadilha, já que toda armadilha, por sua vez, deve se parecer com algo diferente daquilo que manifesta, para lembrar do livro anterior da poeta, Da arte das armadilhas.

Conforme escreveu Michel Foucault em As palavras e as coisas, obra que poderia ser considerada o grande tratado do século XX sobre o assunto, uma semelhança é o que há de “mais manifesto e mais oculto na linguagem”. Quer dizer, uma semelhança precisa ser assinalada na linguagem, criando vínculos entre a palavra e o mundo, tornando o mundo assim inteligível, mas a mesma semelhança não será jamais transparente, e sim um ziguezague indefinido e um pouco secreto, ou então um “biombo”, já citando uma das primeiras peças do livro da poeta, “Capa”: “Um biombo/ entre o mundo/ e o livro”. Enfim, semelhança é tudo aquilo que permanece instável entre duas regiões, não justamente nas palavras ou nas coisas, e sim entre elas. O poema anuncia que as palavras e as coisas — o livro e o mundo — vão se separar.

Antes ainda de “Capa”, o livro de Ana Martins se inicia com o poema “Ideias para um livro”, que ao todo são seis, entre as quais “Uma antologia de poemas escritos/ por personagens de romance”, sendo a sua última ideia, aí sim, a do livro que temos em mãos: “Este livro/ de poemas”. Mas qual? O procedimento do poema mais uma vez é ambíguo, evasivo: além de ser um modo de anunciar o próprio livro, é também de retardá-lo, ainda mais por se tratar de uma espécie de anti-poema, e esse efeito de retardamento é confirmado com a série de poemas “Livro”, que vem na sequência e lembram a melhor poesia de Joan Brossa — a rigor, aliás, é como se o livro começasse só na última parte, intitulada “O livro de semelhanças”. De resto, quanto à maneira como “Ideias para um livro” termina, de modo abrupto, seco talvez, lançando mão, embora de um jeito meio venenoso, de um recurso que os pré-modernistas chamavam de “chave de ouro”, enfim, a poeta na verdade esconde muito mais do que diz.

Uma das consequências de leitura sugerida por esse modo um pouco evasivo de composição é que, como escreve Foucault a respeito da pintura de Velásquez, o livro de Ana Martins nos lança em “uma rede complexa de incertezas”. Não se trata de incertezas apenas sobre o fazer literário, tão recorrentes nos poemas metalinguísticos, mas também sobre o amor e, como queira, sobre o mundo, ou seja, as coisas, os objetos, as praias, os percursos dos mapas, os lugares-comuns. Na poesia de Ana Martins, em todo caso, todos esses saberes se parecem: são costurados por pequenos fios — firmes, frágeis. Mais do que isso, o livro nasce e se completa somente para que possa se desfazer depois, seja enquanto poeira ou luz, como na imagem sugerida em “Poema de trás pra frente”, o último de todo o livro: “acendo um poema em outro poema/ como quem acende um cigarro no outro/ que vestígio deixamos/ do que não fizemos? (…)”.

É óbvio até que a poesia de Ana Martins, desde o primeiro livro, A vida submarina, testemunha sobre um mundo que não existe fora do poema, e por isso seus textos são repletos de pontos cegos, recomeços, soluções às vezes enigmáticas de tão abruptas, movimentos em torno deles próprios, e por isso também a poeta (por meio, por exemplo, dos títulos) nos lembra a todo momento que estamos lendo poemas: “Primeiro poema”, “Segundo poema”, “Boa ideia para um poema”, “Não sei fazer poemas sobre gatos” etc. O mundo da poesia de Ana Martins é como se fosse dobrado sobre si mesmo, conforme a imagem de um mapa sendo fechado, que a poeta sugere no último poema da série “Cartografias”. Por isso é que, ao tratar da vida, Ana Martins se refere a uma vida submarina. É como se os poemas estancassem as palavras.

Por fim, O livro das semelhanças é também semelhante aos dois livros anteriores da poeta. Afinal, Ana Martins se dedica a um percurso circular, além de traçado lentamente, seja por meio da investigação sobre a aparência das coisas, à maneira de Francis Ponge; de uma tentativa de juntar os cacos da poesia lírica; ou de interrogações sobre a natureza do encontro, ou do tempo. Por outro lado, neste livro, é possível notar uma poeta que, além de experimentar recursos novos — e é notável perceber como já domina a técnica do enjambement, associada aos versos mais longos, outra novidade nos poemas da autora, que sempre tiveram uma métrica tão alinhada —, também parece ainda mais à vontade em seus textos, dona de uma ironia sempre sutil, só que agora mais franca também. Enfim, seguimos acompanhando os passos dessa poeta singular, mesmo que seja para encontrá-la “na esquina das nossas ruas/ que não se cruzam”. Afinal, parafraseando outro de seus poemas, todas as palavras deste livro, mesmo que elas não sejam, parecem escritas para você.

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13989_gO LIVRO DAS SEMELHANÇAS
Sinopse: Esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa — sempre temerária, mas também desafiadora — de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém, a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático — e de igualmente fascinante.

Evento de lançamento:

Belo Horizonte — Sábado, 29 de agosto, às 11h, na Livraria e Editora Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).

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Victor da Rosa é crítico literário e doutor em literatura.

2 Comentários

  1. César G. disse:

    A Ana é uma grande poeta, já com dois livros se não clássicos, de muita classe e que exerceram grande influência sobre mim, numa época em que minha depressão refletia-se no descuido com a expressão, primeira e principalmente A vida submarina veio me resgatar, realizando um papel revitalizador em mim e em minha escrita. Desde então, voltei-me como antes(já há 30 anos) para a escrita. Desde então, sou fã mesmo – acho as poesias da Ana Martins Marques sensacionais!

    César G.

  2. Luiz Schwarcz disse:

    Os livros de Ana Martins Marques me dão um grande orgulho. Este novo está na minha cabeceira de onde dificilmente irá sair.

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