Stieg Larsson foi meu vizinho

Por Ana Paula Laux

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Morei na Suécia de 1996 a 2001. Pouco sabia sobre aquele país antes de mudar para lá. Fundamentalmente, que era o berço dos vikings, que é uma monarquia constitucional (com uma rainha “brasileira”) e que tem um inverno de matar. Conhecia também o ABBA (e quem não conhece?), quarteto tremendamente famoso nos anos 1970.

Das cinco primaveras lá vividas, uma passei em Estocolmo num apartamentinho no bairro de Solna. Naquele final de século, confesso que não lembro de ouvir falar de Stieg Larsson. Apesar do importante papel que ele já cumpria como ativista político e jornalista, não era necessariamente uma figura famosa. Como vivemos na mesma cidade e época, costumo imaginar que nos cruzamos em algum momento pela Drottninggatan, uma importante rua da capital, ou que já comemos um suculento kebab com molho de iogurte na mesma lanchonete, ou que pegamos a mesma fila de cinema numa sessão qualquer. Se passamos pelas mesmas calçadas, se enfrentamos os mesmos invernos, fomos de certa forma vizinhos! Mas ele sempre foi muito discreto, e eu é que nem percebi sua presença…

O fato é que os crimes da ficção de Larsson me chocaram profundamente. Isso porque não reconheci neles a Suécia que vi com meus olhos e absorvi em doses homeopáticas de espanto e admiração. Maldades de natureza tão sombria não eram comuns nos noticiários suecos, e quando aconteciam viravam manchete no jornal. Mas isso existe em qualquer sociedade, sabemos, pois faz parte da natureza humana. A ambição, a busca pelo poder e a inveja permeiam as atitudes das pessoas, independente das condições econômicas e sociais. As histórias de Stieg Larsson nos fazem ver que crimes hediondos e atos de extrema violência acontecem até mesmo em sociedades que consideramos perfeitas, equilibradas e frias.

Mesmo não estando mais entre nós há tanto tempo, esse discreto vizinho continua apresentando ao mundo uma realidade lúgubre que muitos gostariam de ocultar. Realidade violenta, racista, sexista, perversa. Muito disso já era denunciado pelo Stieg jornalista, mas foi o escritor que chamou a atenção do mundo de uma forma mais arrebatadora. Quem diria?! Uma trilogia policial com quase duas mil páginas vende mais de 80 milhões de exemplares no planeta, e volta nossas cabeças para aquela nação aparentemente tão pacata! É o Stieg escritor quem nos informa no comecinho de Os homens que não amavam as mulheres que quase um quinto das mulheres suecas foram ameaçadas por algum homem pelo menos uma vez na vida.

Qual o segredo do sucesso de Stieg Larsson? Foi sua morte precoce e repentina, antes mesmo de publicar a série Millennium? Foi a prosa rápida e fluente? Quem sabe a força literária ou os crimes violentos? Tudo isso e muito mais. Quem pode resistir a uma personagem como Lisbeth Salander, ao mesmo tempo tão problemática e valente? O que dizer de Mikael Blomkvist, o jornalista investigativo que atua numa revista de compromisso político, como fazia o próprio Stieg? Há quem enxergue sutis ironias em títulos como A rainha do castelo de ar e A menina que brincava com fogo, pitadas da inteligência e humor tipicamente suecos.

Curioso é que a coragem e a ousadia de Lisbeth Salander foram inspiradas numa clássica personagem infantil, a pequena Pippi Meialonga, criada pela excelente Astrid Lindgren. Só mesmo grandes autores fazem surgir criaturas que, apesar de seu visual inicialmente extravagante, atuam de forma tão magnética. Não são os piercings, as tatoos, o corte de cabelo rebelde que assustam aos leitores, mas os crimes sórdidos que podem ser cometidos por qualquer ser humano, sem distinções sociais. Stieg soube dosar ação, tensão psicológica, disputas de tribunal e indignação diante da hipocrisia. Isso também ajuda a explicar a tamanha repercussão da trilogia Millennium. Não é à toa que a saga foi parar nos cinemas, em versões sueca e norte-americana, e também seja retomada agora, dez anos depois de ter chegado às livrarias.

Em 27 de agosto, chegará às prateleiras A garota na teia de aranha. O quarto livro da série Millennium é assinado pelo também jornalista David Lagercrantz, coincidentemente nascido no bairro de Solna (será que já cruzei com ele em alguma esquina de Estocolmo?). A retomada de personagens por outros autores que não seus criadores originais têm se tornado cada vez mais comum na literatura. Foi assim com James Bond, Sherlock Holmes e Hercule Poirot, e agora também com a série de Larsson. Será que meu discreto vizinho imaginava um futuro tão popular para a série Millennium? Nunca saberemos, mas gosto de acreditar que sim. Torço para que Lisbeth continue povoando nossa imaginação e tomando atitudes necessárias e corajosas, num mundo que não me parece mais tão descolado dos romances policiais.

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Ana Paula Laux é jornalista e escritora. Produz conteúdos e faz curadoria de informações para o site e o Facebook do Clube do Crime, da Companhia das Letras. É editora do site www.literaturapolicial.com, e sob o pseudônimo Chris Laux lançou com Rogério Christofoletti o e-book Os Maiores Detetives do Mundo.

Um Comentário

  1. Regina Carvalho disse:

    Lisbeth é mulherzica de meu tamanho, não dá nunca pra acreditar que possa fazer tudo que faz… E mesmo assim, acreditamos, né? fui uma ds primeiras pessoas por aqui a ler Larsson, a amar Larsson. Amigos seguiram – e e ADOREI teu texto!

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