Companhia apresenta: A vida dos elfos, de Muriel Barbery

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Maria e Clara são jovens órfãs ligadas por dons secretos. A chegada de Maria traz prosperidade à granja francesa onde é criada, enquanto Clara, crescida em uma aldeia do sul da Itália, é enviada a Roma para desenvolver sua veia musical prodigiosa. Cada uma à sua maneira, elas se comunicam com um mundo misterioso, que garante profundidade e beleza à vida humana, mas, ao mesmo tempo, oferece uma ameaça grave contra a nossa espécie. Só Maria e Clara poderão combatê-la.

A vida dos elfos é o novo romance de Muriel Barbery, autora do best-seller A elegância do ouriçoNeste romance de atmosfera inesquecível, primeiro de dois volumes, a autora se aventura pela fantasia para fazer um elogio do encantamento, da poesia e da natureza. Com lançamento marcado para outubro deste ano pela Companhia das Letras, o livro é uma trama fantástica que flerta com os universos de Harry Potter e Nárnia.

Para você conhecer mais sobre o novo livro de Muriel Barbery, publicamos a seguir uma entrevista com a autora realizada durante o lançamento do romance na França (tradução de Rosa Freire d’Aguiar).

A vida dos elfos se inicia com dois contos, as histórias de Maria e de Clara. Pode-se ler o romance como um conto ou como uma parábola?

Além desses dois contos inaugurais, não creio que o próprio romance seja um conto, embora pegue certos elementos desse gênero, mas também do universo do maravilhoso, e de uma certa literatura da terra. Também não penso que seja uma parábola. No fundo, não sei o que é este texto, caberá ao leitor decidir.

Da mesma maneira, os elfos não parecem os elfos dos contos… 

Por muito tempo eu não soube se eles seriam reais ou apenas do mundo dos sonhos, e, aliás, no fim não há uma decisão clara nesse sentido. Mas eles assumiram a forma que o romance lhes dava naturalmente, a de seres conectados com a natureza e com a parte animal dos vivos, daí suas formas estranhas.

O romance é cruzado pelo tema da harmonia, sobretudo da harmonia com a natureza…

Um dos gatilhos do romance é uma frase de O livro do chá, de Kakuzô Okakura, no qual, em 1906, ele fala saudoso da China antiga, que ofereceu à arte japonesa seus mais belos artefatos. Mas ele lamenta que o mundo chinês tenha se tornado “moderno, o que equivale a dizer velho e desencantado”. Acho fascinante, de uma concisão e de uma limpidez extremas, essa caracterização do mundo moderno, apartado de seus encantamentos, e por isso mesmo de suas ilusões poéticas. E é esse mesmo encantamento, seja ele poético ou natural, o ponto de partida e o guia do romance.

Uma outra frase, ou melhor, um divisa — “Manterei sempre” — parece igualmente importante…

Sempre fiquei intrigada com essa divisa — que em sua origem era a dos Príncipes de Orange —, em razão de sua forma enigmática, quase gramaticalmente incorreta já que esperaríamos um complemento, um objeto direto. No romance, o mundo élfico, em especial, é aquele em que se tenta manter juntos os poderes da natureza e da arte. Mas neste primeiro volume da obra a divisa fica voluntariamente enigmática.

O mundo élfico será, portanto, o mundo das artes por oposição ao mundo técnico, encarnado pelo inquietante Governador?

Na verdade, a mesma linha de falha, o mesmo desencantamento e a mesma ameaça pesam sobre o mundo humano e o mundo élfico.

As flores e os jardins também ocupam um lugar privilegiado…

Sim, o espinheiro, a violeta e sobretudo as pequenas írises que encontramos no Japão, essas iris japonica que são, desde que as conheço, minha flor preferida. Outro detonador do texto de A vida dos elfos foi uma conversa com um amigo a respeito dos jardins japoneses e da concepção francesa da beleza natural. Eu dizia a ele que os jardins japoneses são élficos, ao passo que a estética francesa da natureza é humana, e um pedaço do romance nasceu no dia dessa conversa. Mas também tenho, e acho que é profundamente compatível, gosto pelos tratados e pelas enciclopédias de plantas medicinais, pelos tempos em que os homens procuravam na natureza o princípio e a temporalidade das curas e faziam as plantas e as flores falarem uma linguagem simbólica que também tem enorme poder poético.

Nesse romance você inaugura uma língua muito particular, rica e simples ao mesmo tempo… 

Essa língua veio naturalmente, à medida que eu escrevia o conto original, e foi ela que transportou o relato. Ela se tornou imediatamente atemporal, embora bastante arcaizante, de modo que não seja possível situar a época e o estilo literários, e a mesma coisa vale para a história que é contada no romance.

Essa escrita impõe também um ritmo de leitura muito particular…

Acho que se não se adere a essa escrita, não é possível entrar no relato. Escrever pela primeira vez na terceira pessoa liberou um espaço da língua e um viveiro de possibilidades narrativas inéditas. Foi uma tremenda batalha, eu retrabalhei muito o texto e várias vezes a experiência foi difícil, complicada e frustrante, mas a vivi in fine com grande júbilo.