Elas não sumiram

Por Isabela Noronha

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Resta um começou a nascer em 2004, quando eu era uma repórter iniciante, recém-chegada à redação de um grande jornal em São Paulo. Recebi a tarefa de escrever sobre um tema que a novela das nove tinha colocado em discussão: crianças desaparecidas. Eram — e continuam sendo — 40 mil por ano no Brasil.

Passei uma semana conversando com as mães desses meninos e meninas, ouvindo histórias diversas com o mesmo desfecho: na verdade, a falta de um.

Me lembro de detalhes, da mulher que tinha parado de se cobrir à noite porque o filho, onde estivesse, poderia estar passando frio, do cheiro de papel acumulado do escritório de uma delas, do nome da rua de outra: “Fartura”.

Elas precisavam ser vistas. Quanto mais pessoas soubessem quem eram seus filhos e que estavam sumidos, maior a chance de encontrá-los e menor a possibilidade de o caso cair no esquecimento e ser arquivado pela polícia. Mas não havia sequer uma instituição que centralizasse com competência os dados das crianças.

A reportagem que escrevi, no formato de um especial para o site, poderia ter ajudado. Porém, ficou poucos dias no ar, foi retirada por problemas técnicos para ser republicada depois, o que não aconteceu. O assunto esfriou, e as histórias daquelas mães ficaram apenas com elas e comigo.

Em 2011, quando fazia mestrado em criação literária na Inglaterra, me perguntei: que história preciso muito contar? A resposta veio com força: eu tinha que voltar àquelas mulheres, lidar com o medo, a dúvida e a esperança que compunham aquele vazio onipresente.

Talvez esse vazio tenha me levado à matemática, a ciência que torna visível a ausência, o zero. Pesquisei sobre o assunto e conversei com matemáticos da USP e da rede estadual de São Paulo para conseguir emprestar o universo deles à Lúcia, a protagonista, uma mulher que, como as mães que entrevistei em 2004, não desiste de encontrar a filha desaparecida. Em meio ao caos, ela acredita que só a lógica e os números salvam, mas será obrigada a reavaliar suas crenças.

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Sinopse: Lúcia sempre foi uma mulher que enxergou a vida pelo viés dos números. Professora respeitada do curso de matemática da Universidade de São Paulo, sua lógica cartesiana parecia manter sob controle todos os aspectos da existência. Um dia, porém, sua única filha, Amélia, não volta para casa. A criança desaparece sem deixar rastro, abalando tremendamente o pensamento racional da mãe. Anos depois, a professora, que deixou a universidade e desfez o casamento, segue com a esperança de encontrar Amélia — embora seja a única a acreditar nessa possibilidade. E seus esforços parecem não ter sido em vão, pois recebe um e-mail que traz, por fim, a pista de alguém que diz conhecer o paradeiro da menina. Isabela Noronha costura neste romance de estreia uma sofisticada trama psicológica que cresce a cada página, levando-nos pelos estágios do desespero de uma mãe que perde o que lhe é mais valioso.

Resta um chega às livrarias no dia 30 de setembro.

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Isabela Noronha é mineira, jornalista e mestre em escrita criativa pela Brunel University, na Inglaterra. Recebeu o prêmio da agência literária Curtis Brown pelo projeto do romance Resta um.