Não estar no mapa

Por Ana Maria Machado

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Sempre fui fascinada por mapas. Na escola, adorava aulas de geografia, com o caderno de cartografia e os fantásticos mapas-mudos, nos quais vinha impresso o contorno de um continente, país ou estado. Nele os alunos deveriam localizar e desenhar os rios ou as montanhas, capitais, baías e cabos, confrontando com o que nos mostrava o atlas, consultado a cada detalhe, até sabermos dispensar essa consulta e sermos capazes de, na hora da prova, distinguir o São Francisco do Tocantins, ou algo no gênero. Era uma delícia completar cada desenho conforme pedido e, ao final, raspar de leve com a gilete a ponta do lápis de cor, espalhando depois o colorido com um chumaço de algodão, o que ajudava a delimitar cada lugar e reduzia a paisagem terrestre a uma ordenação que fazia sentido.

Na adolescência, adorava livros que traziam mapas ou giravam em torno deles — de A Ilha do Tesouro a fantasias utópicas em terras inexistentes ou policiais que incluíam a planta do castelo onde se guardavam caminhos a explorar e mistérios a descobrir.

Meu avô materno era engenheiro. Construiu a Estrada de Ferro Vitória-Minas, por territórios desconhecidos. Eu adorava as histórias que ele contava sobre esse tempo, e de como aos poucos se ia estabelecendo a ferrovia, dando origem às estações e criando um novo mapa que só então iria para o papel, a partir das medições rigorosas que acompanhavam o trabalho. Quando eu tinha uns dez anos e o avô estava demarcando ruas para um novo bairro — segundo uma planta que existia no projeto antes de ser uma realidade — era um dia de festa quando ele me deixava ir junto acompanhar agrimensores, às voltas com teodolitos. Não é de admirar que, na hora do vestibular, minha primeira escolha tenha sido Geografia, curso que posteriormente abandonei para estudar Letras. Em qualquer viagem de carro, mapa na mão, sempre me orgulhei de ser excelente navegadora, a nos orientar e descobrir estradinhas e desvios.

Já adulta e mãe de família, durante a ditadura militar, quando fui para o exílio e morei em Londres, tive um livrinho precioso como companheiro inseparável, o A to Z, que distribuía por suas páginas plantas da cidade inteira, e que, mais tarde, descobri ter sido criado e desenvolvido por uma mulher, andarilha incansável e autora do cuidadoso levantamento urbano que serviu de base a esse trabalho modelar.  Os britânicos, aliás, foram cartógrafos exemplares e, desde a década de 1840, podiam se orgulhar de ter feito os levantamentos topográficos que permitiram mapear de modo confiável e completo todo o território da Inglaterra e do País de Gales, nos mapas OS ou Ordnance Survey, num trabalho minucioso e admirável.

Pois foi justamente na língua inglesa que encontrei, há anos, uma palavra que me pareceu muito atraente: mapless. A tradução é simples: sem mapa. Mas o que ela exprime, em sua concisão, vai muito além de desnorteado, sem rumo ou no mato sem cachorro. Para mim, é como se trouxesse um desafio implícito: o de se orientar para tentar encontrar saídas, explorar passagens, abrir caminhos e, em seguida, apontá-los a quem vier depois.

De certo modo, meu encontro com Joaquim Nabuco passou por algo desse mecanismo. Eu já lera Minha formação, mas ao mergulhar em Um Estadista do Império, percebi como havia no Segundo Reinado um esforço consciente para dar à nação certo ordenamento — num código civil, por exemplo. Em O abolicionismo e todo o restante de sua obra de ensaísta e jornalista, é comovente ver como Nabuco busca ir fundo em sua análise, não apenas na certeza de que a escravidão é inadmissível e trazia males duradouros e estruturais ao país, mas também se relacionava a outras questões centrais como a posse da terra, o federalismo, as relações entre Igreja e Estado. Ser abolicionista, de certo modo, implicava fazer novos mapas sociais que permitissem percorrer novos territórios.

Ao resolver escrever sobre Eufrásia Teixeira Leite e o tumultuado amor entre ela e Nabuco, encontrei algo inesperado: um novo território a mapear. Agora, o da situação da mulher na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Devido a circunstâncias pessoais e raras, ela de repente se viu jovem, órfã, mais informada que a média feminina e sem ter de depender de ninguém economicamente, ainda que sujeita a todo tipo de pressão afetiva, moral, familiar e social. Não tinha modelos prévios de comportamento nem mapa algum que pudesse orientá-la nesse terreno inexplorado e movediço.  Mas intuía a beleza e a enormidade do desafio. O jeito era partir para sua própria cartografia e criar Um mapa todo seu, título que se impôs ao romance em que evoco os dois namorados.

Entre idas e vindas, avanços e recuos, indecisões e coragem, de certo modo esse homem e essa mulher que não estavam no mapa retratam bem o seu tempo, uma época de barreiras aparentemente intransponíveis, onde souberam encontrar frestas e se esgueirar por suas brechas. Nesse percurso, cada um dos dois, a seu modo e em seu território, foi um rebelde disposto a enfrentar o desconhecido e acabou deixando para todos nós um registro do início de sua caminhada: um singelo mapa todo seu.

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ummapaUM MAPA TODO SEU
Sinopse: Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Um mapa todo seu chega às livrarias em outubro.

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Ana Maria Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. É escritora e tradutora. Escreveu mais de cem livros para crianças, publicados em dezessete países, e também obras para adultos, como Aos quatro ventos (1993), A audácia dessa mulher (1999), publicados pela Alfaguara, e Silenciosa algazarra (2011) e Romântico, sedutor e anarquista (2014), publicados pela Companhia das Letras. Em outubro, lança pela Alfaguara seu novo romance, Um mapa todo seu. 

 

 

3 Comentários

  1. Concy disse:

    Parabéns por trazer à luz a história de mais uma grande mulher para nossos dias. Sucesso!

  2. Gilma disse:

    interessante combinação dois amantes e um contexto histórico de conquistas pessoais vou querer ler!

  3. Leonardo disse:

    Lindo texto, Ana. Na minha carreira de leitor, reconheço a lacuna de ter lido pouco vocês, mulheres – principalmente na Literatura. São novos mapas do universo humano que estou ainda por desdobrar. Obrigado.

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