O estilo dos cães

Por José Luiz Passos

vidas-secasb

Cena do filme Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos.

No capítulo 12 da sexta parte de Anna Kariênina, Liévin acorda antes de amanhecer e segue com a cadela Laska para uma caçada. O foco de Tolstói se transfere do caçador para a perdigueira. Num dos momentos mais expressivos daquilo que poderíamos chamar de isolamento pastoral, Liévin também reitera as suas convicções a sobre a importância do contato com a paisagem, da dignidade do trabalho manual e da complexidade política e afetiva ligada à questão da servidão russa. Não estaria a vigorosa ética de Liévin, o alter de Tolstói, calcada numa utopia de fundo ecológico? É dele, aliás, uma das primeiras reflexões no romance do século XIX sobre a sustentabilidade. A transferência no foco do caçador à perdigueira é gesto de grande humanização do quadro social. É também gesto pastoral na medida em que se materializa a partir de um deslocamento no tema central do romance: o conflito entre o desejo de uma vida mais simples, ou verdadeira, e os valores que cerceiam a satisfação desse mesmo desejo. O retiro de Liévin inverte, reitera e transforma o dilema do exílio moral de Anna Kariênina frente à sociedade da corte russa. No translado do centro para o campo; da capital para a província; dos salões de São Petersburgo para os prados de cultivo, o senhor converte-se em pastor. O servo ou o povo converte-se em rebanho, ou cão de pastoreio.

A redução do complexo ao simples, do cortês ao rústico, do urbano ao rural é instauração de um nexo que expõe o pacto político de reconhecimento e manutenção de papéis numa sociedade tradicional. A chave pastoral é método de crítica dessas dependências, ainda que opere sob a lógica de uma insatisfação ou rebeldia “enquadrada”. Tal deslocamento também se dá no tempo: para trás e profundamente. Para trás é ir profundamente. A viagem aos confins, à província, é um mergulho na lógica circular dessas mesmas relações. A visibilidade disso é uma crítica. Aqui está o tema que me interessa destacar sob a forma daquilo que chamo de “um estilo dos cães”: um modo de dar visibilidade a extremos sociais que se reconhecem como opostos no instante do sacrifício de uma das partes.

Um poema de Machado de Assis é de grande ajuda aqui; ele nos propõe que essa visão é um risco particularmente delicado quando o nosso oposto já se perdeu. Falo do soneto “Suave mari magno”, que descreve o alívio proveniente de não experimentarmos a dor que cavalga o outro:

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão. 

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso, 

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

A expressão latina mari magno, usada pelo poeta Lucrécio, era empregada para definir o alívio que alguém sente ao perceber-se livre dos perigos a que outros ainda estão expostos. O cão machadiano espuma; é o interesse dos passantes na espuma de sua dor aquilo que revela esses mesmos passantes. E digo que os revela não como desumanos, mas como plenamente humanos, no seu silêncio frente à fragilidade da vida e à possibilidade de uma aflição comum e incontornável. Essa fragilidade funciona como espelho e oráculo de nosso fado. Aliás, nisso, o cão é também espelho e oráculo do próprio autor, no seu imenso e recatado pânico da empulhação em via pública, nos surtos de epilepsia.

É em tal quadro que entendo Baleia, a personagem de Graciliano Ramos, como outra instância radical de um estilo dos cães. Vejamos a cadela na plenitude de seu aprendizado da fragilidade humana:

“Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. […] Sinha Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensanguentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.” Na caçada, que é prática de imolação e dádiva, a graça está na troca sacrificial, porque o sangue da presa é unção de vida futura.

“O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender. Todos o abandonavam, a cadelinha era o único vivente que lhe mostrava simpatia.” Como companhia, o estilo do cão é o do entendimento. Mas é um entendimento daquilo que falta ao outro. Baleia compreende um modo de exprimir-se — o modo do pequeno — que existe aquém da verbalização; a comunicação se dá utilizando o vazio como meio.

“Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pelo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas sinha Vitória não queria saber de elogios. — Arreda! — Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.” A mimese da maravilha, que se quer compartilhada — expressão fundamentalmente humana —, é índice do estilo dos cães. No rechaço dessa magia, Baleia experimenta o caminho do ressentimento. Aqui chegamos ao aspecto relacional do desagravo como forma politicamente plena de semelhança com o humano.

A cadela é o lugar do entendimento desses empenhos na vida lúdica, doméstica e política da família. Os exemplos mostram que o foco na desumanização se agudiza nos instantes em que a consciência do risco na vida humana é tomada na total colaboração com a cadela de pastoreio, passeio e caça. A ideia de sua utilidade é análoga ao sofrimento, também útil, do cão de riso espúrio sacudido pela convulsão. É um método de observação do caráter relacional presente no fenômeno da dor como risco; como visão de um todo que não pode prescindir daquele que está perdido ou será sacrificado. O estilo dos cães — como um ensaio no risco, ou como ensaio do risco — é, em primeiro lugar, o perigo de não vermos o sacrifício desse outro. Em seguida, de desejarmos o sacrifício dele. E, finalmente, de não tomarmos esse sacrifício como sendo sacrifício nosso. Nesta terceira faceta está a força do estilo dos cães, que liga o soneto de Machado a Laska e Baleia. Nos três casos, os laços de interdependência, parecença e identidade entre o dono e o descamisado, ou entre o observador e o imolado, são estreitados radicalmente. O estilo dos cães é um exercício na visibilidade desse estreitamento.

Aqui mesmo, num post anterior, defini estilo como o conjunto das escolhas de um sujeito na sua consideração sobre como se deve exprimir o gosto de uma vida; e como, na consistência desse gosto, encontrar uma direção ou sentido para esta mesma vida. O estilo dos cães é a exposição da interdependência entre o sofredor e o passante; entre o descamisado e o senhor. Não é, porém, a visão complacente desse conflito. É, ao contrário, uma visão relacional. Baleia pensa em morder a mão de Fabiano; o próprio Fabiano alimenta a fantasia da revolta. Ele se reanima com a força proveniente da injúria de ver-se como cão. Afinal, ser bicho é ser forte. Mas permanece o fato de que, em grande parte, a abertura desses mundos relacionais pertence ao foco narrativo posto sobre Baleia e Laska, e no cão convulso, na relação que possuem com o mundo da ordem imposta na vida de seus donos ou observadores. Poderíamos, é claro, calar ou exacerbar essas oposições que tracei, animados por um espírito de congraçamento ou pelos tiros de festim de um populismo já longamente entranhado em nossa cultura política. Mas não é esse o estilo dos cães; seria ganho menor — ou cegueira. A polarização, a pressa, o grito sem propósito não pertencem ao estilo dos cães. Não fazem parte do que em Tolstói e Machado de Assis é permanência e desacordo do sujeito com o seu entorno. Ao contrário, essa pressa, a dor irrefletida, as bandeiras reluzentes de última hora, são, em vez, o estofo de um mundo sem estilo; um mundo real, porém feito à imagem dos inimigos de Graciliano Ramos.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Um Comentário

  1. Ceci Lohmann disse:

    Excelente comentario e surpresa ao conhecer o blog

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