O fantástico caso do dr. Drauzio e sr. Varella

Por Luiz Schwarcz

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Coluna Imprima-seDe uns anos pra cá, uma nova expressão entrou no vocabulário, embora seja raro vê-la por escrito. Como finalmente naturalizamos sem culpa a cultura cinematográfica ― do mocinho contra o bandido, do bem contra o mal ―, quando queremos elogiar integralmente uma pessoa, dizemos “tal sujeito é do bem”, ou ainda “é muito do bem”. É uma expressão tão comum hoje em dia que é normal a utilizarmos para definir não só pessoas. Assim, não seria estranho eu me vangloriar aqui de que livros são do bem, ou que minha profissão é do bem. É claro que todas as profissões que operam dentro da lei são do bem. Mas com livros podemos nos gabar, já que não resta muita discussão sobre seu fim ser positivo, sobre a aquisição de cultura ser algo importante na vida de um ser humano e a leitura influenciar o fortalecimento de bons valores nas crianças, nos jovens ou em qualquer leitor.

E se podemos falar, sem pestanejar, que ler é do bem, ou que livros são do bem, nem sempre há o mesmo consenso ao tentarmos definir autores e pessoas que trabalham com livros. Por características próprias à minha personalidade, eu tendo sempre a ter um olhar mais atento aos do bem que aos do mal ― é difícil alguém chamar minha atenção por frequentar essa segunda categoria. Autores então, com raríssimas exceções, são quase, por via de regra, vistos por mim como parte de uma legião de super-heróis, mesmo com a convivência íntima que cultivo com eles. Com o tempo, me é permitido acompanhar seres humanos em momentos de fragilidade ― ao entregar um trabalho recém-terminado e acalentado, depois de meses na mais pura solidão ―, ou então em momentos de vaidade ― ao ter um livro comentado favoravelmente pela imprensa. Peço perdão aos leitores por abusar aqui de rimas fáceis, mas vaidade, por exemplo, rima com fragilidade, assim como meu argumento combina mais com as dicotomias do mundo dos quadrinhos da Disney ou da Marvel do que com o mundo da literatura. Já, já explico melhor, e o ponto aonde quero chegar ficará mais claro.

Faz parte da regra número zero de um editor não revelar preferências, ter preparado um arsenal de respostas prontas para perguntas tão comuns como desnecessárias, do tipo: “E qual o seu autor favorito?”, “Dos 4 mil livros que você publicou, qual é o que mais lhe deu satisfação?”. Se aprendi a escapar dessas armadilhas dizendo, por exemplo, que “Meu livro favorito é o último que publiquei”, vou me arriscar e afirmar que Drauzio Varella é o autor mais do bem que já publiquei. Sim, todas as pessoas enquanto autores, assumidas as premissas contidas nesta crônica, são do bem, e, é claro, talvez seja difícil concluir que alguém é mais do bem do que outros. Mesmo assim, me arrisco, em várias frentes, e digo que o dr. Drauzio, como às vezes o chamamos, é o campeão do bem, dentre todos os nomes de nosso catálogo.

As visitas do dr. Varella à editora, nos dezessete anos de nossa convivência ― desde que Jô Soares nos indicou o livro do médico amigo, que escrevera sobre a própria experiência como voluntário no presídio do Carandiru ―, são encontros não só com um autor, mas também com o médico-amigo, que atende informalmente a todos que têm uma dor para curar ou um conselho a pedir. Eu mesmo sou paciente do dr. Drauzio, que nunca sabe o que esperar de um SMS meu, se um elogio do editor; as boas-novas sobre as vendas de seus livros; um pedido descarado para atender um funcionário doente; ou o inventário do último mal, do corpo ou da mente, que me acometeu.

Lembro bem de uma época sofrida, quando uma operação mal realizada de hérnia inguinal me deixou com dores constantes e tão fortes que chegaram a contribuir para um estado depressivo posterior.

Nesses tempos, Drauzio vinha mais de uma vez por semana à Companhia das Letras, munido de uma ampola de Voltaren para estancar minhas dores. Ele provavelmente disfarçava o motivo da visita. Nossos escritórios, na época, ficavam a menos de dez minutos a pé um do outro. Drauzio nunca frequentou a Companhia tão assiduamente. Por isso este post celebra um momento muito importante da minha vida profissional e leva de roldão o mito de que um editor não pode diferenciar entre seus filhos editados. Escrevo para comemorar a venda de 1 milhão de exemplares do autor mais do bem que conheci. Essa história começa com Estação Carandiru (leia o post sobre isso), mas continua, por muitos anos, com o prazer de ver o médico humanista virar um grande escritor e as duas facetas deste mesmo ser humano excepcional virarem uma só. Se o livro de Robert Louis Stevenson fosse rebatizado no Brasil, teria um enredo oposto ao de O estranho caso do dr. Jekyll e sr. Hyde (ou O médico e o monstro). Aqui seria chamado de O fantástico caso do dr. Drauzio e sr. Varella. Esse é o verdadeiro conto de fadas que vivi nos últimos anos: a história de um médico que se transforma em autor e melhora, depois de escritor, ainda mais sua prática na medicina, para o bem da saúde e da literatura do Brasil.

Obrigado, Drauzio, por existir, por escrever tão bem, por editar conosco, pela amizade e pelas lições de vida que nunca, nunca mesmo, vou esquecer.

* * *

Drauzio Varella tem 11 livros publicados pela Companhia das Letras:

Estação Carandiru (1999), Nas ruas do Brás (2000), De braços para o alto (2002), Por um fio (2004), Borboletas da alma (2006), O médico doente (2007), A teoria das janelas quebradas (2010), Primeiros socorros (2011), Carcereiros (2012), A saúde dos planos de saúde (2014) e Correr (2015).

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.

4 Comentários

  1. Belo depoimento, Luiz. Com as suas crônicas – que espero um dia virem livro -, você está humanizando a atividade editorial, mostrando as pessoas que estão por trás das obras: autores, editores, agentes etc. É uma espécie de autobiografia do mundo editorial. Abraço.

  2. Silvia Souza disse:

    Um sucesso merecido!
    Um ótimo médico, uma pessoa como poucas e os livros que agradam adultos e crianças (meus filhos adoraram “Nas ruas do Brás”).

  3. Tamara disse:

    O Dr Drauzio é um exemplo perfeito do as pessoas do bem almejam para o Brasil.
    Deus o abencoe.

  4. Teresa Fiore disse:

    “A história de um médico que se transforma em autor e melhora, depois de escritor, ainda mais sua prática na medicina, para o bem da saúde e da literatura do Brasil.” Parafraseando: “…para obem da saúde da literatura do Braisl”.
    Li Estação Carandiru quando foi lançado e depois não parei mais. Drauzio Varella cresceu “nas ruas do Brás” como eu só que eu trechos diferentes: eu, no início da Rua Oriente e ele, no fim. Meu cinema era o Oberdan; o dele, Rialto, mas, com certeza nós nos cruzamos pela Maria Marcolina.
    Grande médico, grande autor e grande homem.

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