Tempo de compartilhar

Por Carol Bensimon

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Ainda lembro do professor Assis Brasil falando sobre tempo em sua famosa oficina literária. Segundo ele, por trás de qualquer fragmento narrativo havia ao menos três tempos, na maioria das vezes fluidos, imensuráveis: o tempo que o autor levou para escrever o texto em questão; o tempo que transcorre na narração propriamente dita (um ano na vida de Fulano, dois minutos entre o abrir de uma porta e o início de uma discussão, etc.); e o tempo que alguém leva para ler aquele fragmento.

O primeiro tempo é certamente o mais misterioso. Nem o autor sabe às vezes dizer quantos anos levou para escrever tal livro, e acho que é ainda mais difícil saber o que colocar e o que deixar de fora dessa conta. Aqueles meses de idas à praça e eventuais notas num caderninho vermelho, eles contam? E o tempo que levei para ler todos aqueles livros sobre ___________ (insira aqui um assunto que supostamente não deveria interessar ninguém tanto assim)? E quanto àquela noite com amigos que, sem eu desconfiar, acabou inspirando um diálogo decisivo do romance? Não é tão fácil separar ofício e vida, em resumo, o que não raras vezes se transforma em uma fonte de angústia e comparações inúteis com a dinâmica de outras profissões. Não sei se todos sofrem disso, mas, enfim.

A velocidade do mundo contemporâneo (sempre me sinto uma idiota usando esse tipo de expressão) também tem uma influência bem perceptível no tempo da escrita. Para não perder o fio do tempo, para amenizar nossa ansiedade – mesmo sabendo que isso de nada adianta — a gente faz o que todo mundo faz: compartilha. Compartilha o processo. Compartilha a foto de uma pilha de livros-úteis-para-pesquisa como alguém compartilha um corpo deitado na areia branquíssima de Punta Cana. Compartilha fichas-de-estruturação-da-trama como alguém compartilha um magret de canard com purê de mandioquinha. Compartilha o final de um conto ainda não escrito como alguém compartilha a possibilidade de arranjar um novo emprego. Herói aquele que consegue ficar em silêncio durante a longa gestação de um livro.

Mas a verdade é que é muito difícil fingir que não é com a gente, que podemos viver um tempo próprio e que não estamos inseridos nessa meleca chamada contemporaneidade, que obviamente nos traz um monte de benefícios, ao mesmo tempo em que nos deixa ansiosos, confusos e apressados.

As rápidas revoluções do mundo não afetam apenas o tempo da escrita e a concentração dos escritores. Antes fosse. Os próprios assuntos a serem tratados num romance podem se tornar velhos ou, no mínimo, desatualizados antes de a gente colocar o ponto final. Tudo bem, as coisas sempre podem valer como um retrato de uma época, mas propor-se a fazer um retrato do agora e acabar com um retrato de ontem pode ser meio frustrante.

Olhando com uma lupa para o texto, há também os pequenos momentos de dúvida entre ser específico ou ser genérico no que diz respeito à tecnologia. Claro que ignorá-la é uma má ideia (se o objetivo é falar do mundo de hoje). A tecnologia traz consequências narrativas, e seria ingenuidade fingir que essas consequências não existem. É só olhar para os celular no cinema, quero dizer, na tela do cinema: alguns conflitos desaparecem com a possibilidade de você falar com alguém a qualquer momento, outros só são possíveis por esse mesmo motivo. Mas eu estou falando de algo como citar o Craiglist nominalmente, por exemplo. Ou mesmo o Facebook. É uma boa ideia eu escrever, na primeira página de um romance, que o personagem comprou um carro usado porque viu um anúncio no Craiglist? Daqui a dois anos talvez o Craiglist seja substituído por outro site, outra ferramenta. Não sei se quero que meu romance seja um fóssil em tão pouco tempo.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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