Playlist para acompanhar a leitura: “Se liga no som”, de Ricardo Teperman

se liga no som

Esta é uma lista de links para algumas músicas e videoclipes mencionados no livro Se liga no som – As transformações do rap no Brasil, de Ricardo Teperman.

Cerca de trinta anos depois das primeiras gravações de rap por aqui, o gênero está mais vivo do que nunca, e demonstra enorme influência no conjunto da produção musical brasileira. Um dos muitos índices dessa influência é a homenagem que Chico Buarque prestou ao rapper Criolo na turnê de seu último disco, Chico. O grande medalhão da MPB na verdade respondia a uma versão que Criolo fizera de sua música “Cálice”.

Outro artista muito influente na nova geração de rappers é Emicida, que acaba de lançar um ótimo disco novo, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa. Um dos destaques do CD é a faixa “Boa Esperança”, cujo videoclipe mostra uma rebelião de empregados domésticos numa casa burguesa e conta com a participação do ator Jorge Dias, filho do rapper Mano Brown e da produtora Elaine Dias.

Dando um salto no passado, é até estranho lembrar daquele que alguns consideram o primeiro rap a ser lançado no Brasil: o “Melô do Tagarela”, interpretado pelo ator e produtor Miele.

Essa gravação do Miele era uma versão para o hit mundial“Rapper’s Delight”, lançado pela gravadora Sugarhill Records em 1979.

É bem verdade que o “Melô do Tagarela” era pouco ou nada representativo do importante movimento cultural que fervilhou nas festas populares do Bronx ou nos bailes black das periferias brasileiras. Mas analisar os primeiros contatos do rap com a indústria do disco revela como como o forte posicionamento de classe e raça que o gênero tomaria não estava dado.

A transformação de manifestações de rua —  festas ou performances basicamente improvisadas, com DJs, MCs e dançarinos — em um produto de mercado implicava formatações e transformações.  Ao ir para o disco, o rap colocava em questão a própria noção de autoria: quem compôs aquelas frases originalmente improvisadas? Quem detém os direitos sobre um groove de 4 compassos?

Ouvindo “Good Times”, hit do grupo Chic, não surpreende que seus fundadores tenham ameaçado processar os donos da Sugar Hill Records por plágio – acabando por ser incluídos como coautores de “Rapper’s Delight”.

Durante a maior parte dos anos 80, a música que hoje conhecemos como rap era parte da trilha sonora para as equipes de break e seus passos “robóticos”. Quando Nelson Triunfo e os dançarinos do Funk Cia participaram da abertura da novela Partido Alto, da Rede Globo, a trilha era um samba acompanhado por uma estranha e desajeitada batida de bateria que procurava se aproximar da sonoridade daquela nova música.

Os poucos registros fonográficos de rap que não estavam ligados a equipes de break mantinham o tom leve e bem-humorado do “Melô do Tagarela”, mesmo que tratassem de assuntos sérios como a discriminação racial e social.

Foi só no fim dos anos 80 e início dos 90 que a dimensão política tomou conta do rap, em grande medida como consequência do altíssimo nível da produção dos Racionais MC’s, com seu rigoroso posicionamento de classe e raça e a recusa a deixar-se assimilar pelos esquemas comerciais do mercado da música. Como bem disse Walter Garcia, os Racionais “falavam da violência de modo violento”.

O grupo, claro, não estava sozinho – e dezenas de outros artistas tiveram atuação importante naqueles anos. Em 1988, o lançamento da coletânea Hip Hop: Cultura de Rua fez história.

Disseminado pelas rádios comunitárias, o gênero funcionou como catalisador das chamadas “posses” (organizações ao mesmo tempo políticas e artísticas, como a Aliança Negra) e de movimentos urbanos (como o da estação São Bento do metrô em São Paulo).

O rap do Racionais rompia com o caráter conciliatório do grande projeto de modernização pela cultura, tradição de longa duração que vinha desde o modernismo, passando por Bossa-Nova, Tropicália e toda a MPB do anos 70/80, para ficar só no campo da música. Era uma novidade sem precedentes — e se não dependeu dos circuitos hegemônicos da mídia para conquistar legiões de fãs por todo o país, teve um grande salto de visibilidade com o lançamento de sua obra-prima Sobrevivendo no Inferno, em 1997.

O conflito entre a novidade do rap e a linha consagrada da chamada MPB foi como que encenado durante a cerimônia do Video Music Brasil, da MTV, em 1997, que teve Carlinhos Brown como apresentador e o Racionais como grande vencedor. Se escolheram mesmo o sobrenome artístico, Brown, Mano e Carlinhos têm visões antagônicas sobre o significado da mestiçagem brasileira.  O baiano apresenta uma visão conciliatória, bem à maneira do nosso conhecido “mito da democracia racial”; já o líder do Racionais entende que o passado escravocrata cindiu o país, deixando uma herança abominável que deve ser denunciada.

Desejado ou não, o sucesso de Sobrevivendo no inferno trouxe novas contradições, sobre as quais o grupo refletiria no disco seguinte, Nada como um dia após o outro dia, de 2002. A gravação ao vivo, no DVD lançado pelo grupo em 2006, é impressionante:

Já ao longo dos anos 1990 e sobretudo com a chegada dos anos 2000, a democratização do acesso à internet banda larga e à tecnologia em geral estimulou a produção e a circulação do rap pelo país todo.

Ceará

São Paulo

Rio de Janeiro

Pernambuco

Mais recentemente, grupos sociais que haviam tido espaço reduzido no rap (como mulheres, indígenas e homossexuais) passaram a encontrar espaço de expressão, inserindo novas reivindicações na pauta e propondo novas elaborações estéticas.

A maior escolarização e o aumento dos padrões de consumo de grandes fatias da população trouxeram novos dilemas, contradições e demandas para os músicos e consumidores de rap. Muitas dessas questões foram tratadas pelos próprios MCs, durante as centenas batalhas de rimas que passaram a acontecer regularmente por todo Brasil. Uma das mais tradicionais é a Batalha da Santa Cruz, realizada todos os sábados desde 2006 na saída do metrô Santa Cruz em São Paulo.

Emicida, hoje um dos principais nomes do rap nacional, começou sua carreira participando de batalhas — e vencendo a maioria delas. Numa batalha clássica em fevereiro de 2006, bem antes de lançar sua primeira mixtape, enfrentou o rapper Cabal – então nacionalmente conhecido graças ao hit “Senhorita”.

Em 2013, Emicida e Criolo lançaram DVD juntos, produzido por Paula Lavigne – confirmação do trânsito intenso de ambos no “mundo da MPB”, contando com a colaboração estreita de artistas e produtores, além da benção de medalhões como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque. Usando uma expressão surrada, Emicida e Criolo inseriram o rap na “linha evolutiva” da música popular brasileira – estética e politicamente.

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Um Comentário

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