A Companhia das Letras na divina Companhia Delas

Por Sofia Mariutti

Foto: Ligia Jardim

Foto: Ligia Jardim

 

Sobre Alice Munro, Ali Smith, marcas de gênero e a adaptação teatral de Hotel mundo.

 

Breve — nem tão breve — preâmbulo.
Quando a Alice Munro ganhou o Nobel, o Caetano Galindo provou que era o Super Homem da tradução. Todo mundo queria ler o último livro dela, Vida querida, e nós tivemos que correr para lançá-lo. Muito. O desafio era traduzir no ritmo em que se traduzem os livros de ocasião, mas com o rigor e a qualidade literária de um clássico. Não preciso dizer que o Galindo deu conta.

Depois a Ana Cecilia Agua de Melo se mostrou a Mulher Maravilha da preparação: ela trabalhava o texto à medida que recebia os trechos, mandava de volta, eu fechava e em algumas semanas a produção estava com o texto completo. Às vezes – nem sempre! – o ritmo acelerado pode até ajudar na qualidade final, porque você fica mais dentro do livro e tal, aquela velha história de trabalhar sob pressão.

Mas teve um caso engraçado.

Tinha um conto chamado “Cascalho”.

O Galindo deu voz a uma narradora mulher, e lá pelas tantas, com a frase “Eu tenho uma companheira, Ruthann”, acabava se formando um casal homoerótico, duas mulheres. A Ana Cecilia entendeu que o narrador era homem e aí ficamos com um casal hétero. E lá fui eu atrás do original pra tirar a dúvida do gênero do(a) narrador(a). Nada. Não havia marca de gênero em todo o texto. É muito difícil imaginar isso em português, já que os nossos adjetivos costumam trazer a marca de gênero. Você lê “I’m tired” e tem que fazer uma opção. Estou cansada. Estou cansado. Ou então me bateu um cansaço… Tive que adaptar umas coisas, mudar umas sintaxes, mas no fim deu certo: na versão final, o texto também deixa esse vazio, e cada leitor imagina uma sorte de relação. Se isso foi intencional da autora, não sei, desconfio que sim. A ambivalência foi preservada.

Quando fui contar a trapalhada toda pro Galindo, ele me deu uma desculpa ótima: acho que estou contaminado demais pela voz da Ali Smith. Também já vi ele dizer que sente que a Ali escreve exatamente como ele imagina, é como se ela traduzisse a voz dele, e ele estivesse traduzindo a si mesmo. De fato, a escocesa tem muitas personagens e narradoras femininas, e isso deve ter contaminado a leitura que o Galindo fez da Alice Munro. Mas as duas Alis são bem diferentes.

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Alice é uma monstra da narrativa, comparada a Tchékhov, classuda e clássica. Ali tem uma voz mais experimental, líquida, e por isso mesmo contemporaneíssima. As duas têm uma coisa em comum: são heranças maravilhosas que a Maria Emília Bender deixou pra mim aqui na Companhia das Letras como editora. Essa semana tive a alegria de ir ao teatro com ela, madrinha da Ali Smith no Brasil, ver “Mergulho”, da Companhia Delas, peça livremente inspirada no romance Hotel mundo, o primeiro da autora traduzido pelo Galindo, em 2009. O texto teatral foi adaptado por Cássio Pires em colaboração com as atrizes da companhia.

Ao final, a Maria, que editou e já leu o romance umas quatro vezes, se lembrava de como a Ali Smith sempre dá voz a garotas sabichonas e perguntadoras, como a Clara Wilby (no livro Clare), que encontrou sua mais justa interpretação na atriz Thaís Medeiros.

Como pode uma garota tão petulante e nerd ser tão cativante e graciosa ao mesmo tempo? A Clara da Companhia Delas arranca gargalhadas dos espectadores (e quem conhece a Maria Emília sabe de que gargalhada estou falando); é divina. Depois de rirem muito, esses mesmos espectadores saem da peça com lágrimas nos olhos (como a Maria Emília), porque a história toda é muito triste, a Clara perde a irmã mais velha de uma maneira estúpida e está tentando entender a morte e a vida e seus fenômenos naturais, e tentando se comunicar com o lado de lá e sobretudo sentindo muitas saudades.

A Silvana Garcia, diretora, encontrou essa justa medida entre o humor e melancolia. A cenografia de Marisa Bentivegna é brilhante: todas as cenas acontecem dentro de uma piscina vazia, que se enche de luz e música nas cenas de transição em que a irmã morta, Sara Wilby, interpretada por Lilian Damasceno, aparece nadando, sua atividade preferida em vida.

Os relógios de pulso, caindo em desuso, são um Leitmotiv que enche a atmosfera de mais nostalgia. Alice (no livro Lise), interpretada por Fernanda Castello Branco, trabalha numa loja que conserta e vende relógios de pulso e teve um breve mas profundo encontro com a falecida jovem Sara, e entre elas se estabeleceu um amor estranho e desajustado, como os relógios quebrados. Nas histórias de Ali Smith, quase sempre há uma tensão ou experiência homoerótica. E quase sempre entre duas mulheres.

Penélope, a jornalista, interpretada com exuberância e vigor por Julia Ianina, fica obcecada pela morte estranha e alguma coisa se quebra na atividade que ela até então desenvolvia: escrever matérias elogiosas sobre hotéis. A defunta nos fala do além, e conversa com cada uma das personagens. As quatro mulheres se sentem fora do prumo, e nesse desajuste nos são reveladas em sua profundidade, complexidade, beleza.

Hotel mundo parece que estava lá numa biblioteca escocesa esperando ser encenado por essa companhia que só cresce a cada trabalho, e que dá voz a mulheres tão múltiplas e estranhas quanto as de Ali Smith. Delas, por elas, entre elas, com elas. Nos próximos meses, a Companhia das Letras estará muito bem acompanhada, nos palcos. Imperdível: http://on.fb.me/1k808M9

 

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.