Acesso total

Por Leandro Sarmatz

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Vejo que uma revista argentina setentista hippie que circulou entre 1976 e 1983 está com a coleção completa disponível online. Capas com bandas de rock portenhas, discussões sobre ecologia (algo que só estava começando), aquela patacoada nerd e contracultural sobre óvnis, Marte etc. Claro que sou idoso, mas isso — tanta coisa disponível online — era uma história de ficção científica quando, adolescente em 1988, eu atazanava o sujeito da banca de revistas em Capão da Canoa — Bashevis Singer à beira-mar no Sul do Brasil, balneário em que todas as famílias judaicas de classe média frequentavam — pra saber se a Bizz daquele mês já tinha saído. Ó tempos! Tanto a Bizz, quanto a Expreso Imaginario (a revista dos hermanos) já foram pras cucuias. Adiós.

Estou lá com o link da revista estacionado. Não tive tempo ainda, ou élan, pra abri-lo. Fico imaginando ter esse acesso quase total em outros tempos, poderia ter sido incrível mas também um bocado atordoante. Pode soar como um argumento meio estranho, mas ter várias lacunas e dificuldade de acesso a objetos culturais na adolescência foi, em grande parte, algo criativo. Pelo menos pra mim. Espero que não seja apenas nostalgia, esse veneno. Lembro de ficar horas com o dedo na tecla rec (a vermelha) do gravador enquanto escutava a Ipanema FM, a rádio que tocava uma miríade de bandas pós-punk que eu gostava ou queria gostar (pra me sentir adulto): Bauhaus, The Fall, Joy Division etc. Não tinha acesso aos discos estrangeiros, então me punha a rechear dezenas de fitas K7 com as músicas transmitidas pela rádio.

Também os livros. Durante meses eu fiquei vidrado num poema do Baudelaire, apenas um, enquanto dava um jeito de conseguir uma edição traduzida d’As flores do mal. Relia, então, mil vezes o verbete da Barsa sobre o poeta francês — tentando imaginar como seriam os outros poemas dele, esse “maldito”. Comecei a escrever uns poeminhas mórbidos e deprimentes (no tema, na qualidade) a partir daquilo que eu imaginava ser um poema de Baudelaire. Era bacana e meio patético ao mesmo tempo mas, ah!, não havia aquecimento global, Porto Alegre tinha então um inverno longo, rigoroso, úmido.

Uns cinco anos atrás, quando trouxe pra casa um computador mais potente e assinei um provedor relativamente mais rápido, passava as manhãs de sábado bebericando malte diante dos sites literários do El País, New York Times, La Nación etc. Era um negócio incrível. Claro que ainda hoje sou useiro e vezeiro dessas páginas, mas alguma coisa mudou. O deslumbramento e a excitação não são os mesmos. Acessá-las virou parte da rotina pessoal e profissional — embora, óbvio, há grandes descobertas sempre. Mas algo mudou inapelavelmente. A oferta é muito grande, e é preciso passar o tempo todo fazendo uma curadoria (pessoal) do conteúdo que está à distância de um clique. Isso é fabuloso. Porém, às vezes me pergunto se tanta facilidade não preenche alguns espaços que poderiam estar vagos pra imaginação. Eu disse, é conversa de velho.  ;)

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

3 Comentários

  1. Valdeci disse:

    Obrigado Sarmatz pela informação. Tinha ficado um pouco em dúvida sobre se era dela que você falava.

    Você poderia me indicar o link em que posso acessá-la?

    Obrigado!

  2. sarmatz disse:

    Oi, Valdeci, é Expreso Imaginario, citada no final do 1o parágrafo.

  3. Valdeci disse:

    Qual é essa revista? Não foi citado o nome…

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