I. Em tradução (tradutores)

 

 

Amanhã postaremos o texto de Cristian Clemente sobre o programa de mentoria de tradução mencionado por Caetano Galindo no texto abaixo.

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Já falei aqui da minha atração pelo modelo da guilda, do aprendiz, de um profissional mais velho que põe um mais novo embaixo da asa até o cabra aprender como se faz.

Na ocasião, até mencionei que quem me fez pensar nisso foi o economista/cético/frasista Nassim Nicholas Taleb.

Mais recentemente, o Taleb deu de falar de possíveis campos “uberizáveis”. Ou seja, campos onde a prestação de serviços entre particulares pode ser mais interessante que a mediação de empresas. E a educação, de novo, era um deles.

Durante esse ano, eu tive o grande prazer (grande mesmo) de participar de um programa de mentoria de tradução, organizado pelo British Council e pelo British Centre for Literary Translation. E foi um mega caso de uma uberização patrocinada por uma instituição.

Por meses a fio eu trabalhei com o Cristian Clemente, um tradutor mais jovem que eu, dando palpites no trabalho que ele apresentou como projeto (uma tradução supimpíssima do romance Helena do grande Evelyn Waugh: editoras, fiquem de olho!). Mais do que isso, encontrei com ele em São Paulo, participamos de um evento juntos, levei ele para conhecer o editorial da Companhia das Letras, e ele veio a Curitiba, onde assistiu aulas aqui na UFPR e sentou de novo pra discutir tradutices comigo.

Pela gentileza do Cristian parece que o programa foi de algum proveito pra ele.

Pra mim (e só me cabe falar de mim) foi uma experiência bem de mudar opiniões e vidas mesmo.

Os critérios do pessoal do programa definiam que era eu o mentor, mas o Cristian é muito mais experiente que eu em trocentas áreas do mundo editorial. A hierarquia dizia que era eu quem o “ajudaria” com dicas e palpites, mas quem for ler a minha tradução de Cidade em Chamas no ano que vem vai se beneficiar de pelo menos um momento em que o Cristian, numa conversa informal, me fez ver uma bobagem que a minha falta de cultura pop ia me fazendo cometer.

E teve isso… teve as conversas informais.

Numa pizzaria em SP depois do evento na Casa Guilherme de Almeida.

Andando pelo centro de Curitiba, à toa, e aprendendo horrores sobre história, igrejas, ritos e anedotas do cristianismo, sobre o Sul dos Estados Unidos e o interior de São Paulo.

Eu tenho um amigo que diz que a gente não tem que ficar com vergonha quando constata que a parte mais importante, digamos, de um evento universitário, foi a do cafezinho entre as palestras. Diz ele que é pra ser assim. Que é esse contato que ensina. Que é aí que a gente aprende. E cresce.

Uberização ou não, patrocinada ou não, a experiência de conviver com um colega, que enfrenta as mesmas cismas, me parece uma solução genial pra quem quer aprender a (se) traduzir.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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4 Comentários

  1. admin disse:

    Olá, Gabriel!

    Não há planos de reimpressão dos títulos esgotados no momento. “Bleeding Edge” será lançado pela Companhia das Letras, mas com previsão de lançamento para 2017.

  2. Boa tarde, Galindo.
    Gostaria de saber se existe alguma possibilidade de alguma das obras esgotadas de Thomas Pynchon voltarem a ativa. E fiquei sabendo de um livro que ele lançou em 2013, Bleeding Edge, também existem planos para a tradução desta obra?

    Obrigado pela atenção.

  3. Erico Assis disse:

    O Richard Dawkins é defensor apaixonado do sistema de tutorias de Oxford – no qual ele foi tanto tutorando como tutor -, em que os alunos acompanham um mestre ao longo do curso. E, como ele diz, a tutoria é mútua. Fala bastante disso no FOME DE SABER, que eu (ahem) traduzi, e na continuação (ahm-ham) que estou traduzindo.

  4. Victor disse:

    Esperando ansiosamente pela tradução de Cidade em Chamas,que pena que sairá apenas no ano que vem!

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