Pare de sofrer

Por José Luiz Passos

mezcal

 

De minha parte, “Boas Festas” a todos vocês. Já comecei a distribuir os meus votos. Quero que o ano acabe logo. Tenho vontade de lhes desejar isso, independente da sua fé, ou da ausência dela. Aliás, dizendo isto a uma colega, ela me respondeu com um “Pare de sofrer…”, em espanhol, que soa ainda mais forte, ¡Pare de sufrir! E como acontece aos autores bloqueados, a imagem do meu editor me veio à cabeça, ¡Marcelo Ferroni! Um ano atrás estávamos eu e ele em Guadalajara, num bar, debatendo a possibilidade de irmos a outro bar com reputação de ser a melhor mezcalería do México. O mezcal é um destilado de agave que tem uma larva de borboleta dentro da garrafa, o “gusano”, verme de um tipo gastronomicamente correto. Ora, o tal bar, cujo nome é Pare de sufrir, já tinha sido qualificado por dois motoristas de táxi como um lugar inóspito, No creo que sea un buen sitio para ustedes… Convenci Marcelo a ficarmos no hotel, para dividir ali mesmo uma meia de mezcal. Ele ficou com o gusano.

No dia seguinte, fui dar minha palestra sobre a imigração brasileira para a Califórnia, que acabou reunindo longe de mim, longe daqui, as memórias de meu pai, de minha avó americana e de um pastor brasileiro, imigrante em San Francisco, como eu em Los Angeles. Por vários meses cogitei procurar por ele, pensei em escrever a história do pastor Jéferson. Disse a Marcelo que daria um bom romance. Por que não? Um professor de sociologia me falou que o principal produto cultural brasileiro nos Estados Unidos não era a telenovela nem o candomblé, nem Caetano Veloso, mas as seitas evangélicas. Face a isso, numericamente, comercialmente, só mesmo Paulo Coelho. Tomei coragem e viajei de volta ao norte da Califórnia, buscando o contato do pastor.

Voltando ali, logo que entrei no café reconheci a figura de dois anos atrás. Jéferson trajava camisa branca, de gola e mangas compridas, calça social e sapato tênis. Ele disse que era de Goiás. Falei que, embora não fosse casado na igreja, após uma visita ao cartório um pastor tinha nos abençoado na casa dos meus sogros, em Olinda. Porém, o que não lhe contei foi que, nos quase dez anos em que estudei em escola católica, num colégio de jardins e sobrados onde D. Pedro II havia se hospedado, vi tolerarem ali, entre o alunado, judeus, algum negro e os filhos das divorciadas, mas nunca um evangélico. Estes, na pregação com seus folhetos a postos, eram chamados de “os bodes”. E isto, talvez, pelo rumor nas abordagens, em suas visitas, no modo de estarem à vontade em praça pública, soando hinos, lendo versículos em voz alta. Só depois soube por um amigo historiador que a alcunha vinha de longe, possivelmente da Colônia, quando se dizia que bastava levantar a barra da roupa dos crentes para se ver as pernas montadas em pés fendidos, como nas patas de um bode. Mas o bode, a cabra, por exemplo, como nos diz João Cabral, escava as coisas até encontrar dentro do que é familiar um estrangeiro. E entre esses animais de senso impaciente, tais quais foram a minha avó americana e o meu pai estrangeirado, o bode, errado ou ruminante, será sempre um sofredor profissional.

Essa foi justamente a questão que quis puxar na conversa com Jéferson, em San Francisco, sobre estarmos aqui, fora do Brasil, dispersos da onda, por vontade própria, tentando não abraçar nenhuma bandeira rápido demais, nem nos julgarmos indignos dela.

“Ser imigrante, você quer dizer? O mundo é feito praticamente só disso”, Jéferson me falou. Eis o ponto alto de sua filosofia. E, com minha teologia de algibeira, expliquei que, semelhante ao exílio, o sagrado repõe a falta como forma de consciência. Mas, realmente, o que era aquilo? A falta como forma de consciência… nem eu mesmo entendia. Ser professor, às vezes, é jamais poder tirar do rosto aquele duvidoso par de óculos ray-ban. Nosso encontro tinha dado em nada. A conversa esfriou, ele saiu do café antes de mim, pardo, sorrindo, digno na sua dedicação aos outros, no Castro, o bairro gay de San Francisco, onde ele pregava num cinema reformado, nos subúrbios dali e do mundo: um pastor suave em prol de gente humilde, que trabalha por pouco e vive longe de casa.

Desse randevu de almas, um goiano e outro pernambucano na Califórnia, resta hoje algo que para mim conta muito. Eu comecei a imaginar a vida que os primeiros missionários protestantes teriam levado no Brasil, quando, no final da conversa, Jéferson me perguntou, “Mas você sabe da história do começo de nossa igreja na Bahia, não sabe?” Acontece que eu não sabia.

“Isso não daria um bom livro, Marcelo? Os que vão fora de casa, tentando a alma dos outros, como nós tentamos o bolso e a atenção dos outros”, e ele me ouviu calado, acompanhando o brinde. Acho que o gusano, no copo, até se mexeu.

Foi o pastor Jéferson quem me explicou que “Pare de sofrer” era um bordão clássico dos pregadores evangélicos, o mesmo usado por um brasileiro em Guadalajara, com seu tom nasalado e tal, cujos programas de rádio e TV faziam sucesso. Numa tirada genial, o bar adotou o bordão por nome. E, coincidência ou não, aqui fica assinalada a moral da história, atrelando San Francisco a Goiâna e Guadalajara: o que nos representa em massa, aqui fora, é menos Clarice Lispector e as telenovelas da Globo do que as vocações na emenda da vida espiritual, vocações com sotaque, que espalham por cá, ainda hoje, uma imagem do Brasil como fonte de concórdia e fronteira a ser conquistada. E os gusanos do mezcal, rústicos, imóveis e sem sofrer, são brindes de exceção, que observam o revolver das coisas e a conexão entre lugares aparentemente sem laço em comum. Lugares ligados, talvez, por uma certeza que se espalha no mundo, enquanto eu e você celebramos livros e autores raros, sorrindo alto, diante de um verme torpe dormindo no álcool.

 

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Um Comentário

  1. Um montão de passos esse texto seu me fez dar, Zé Luiz. Obrigada! :)

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