A causa secreta

Por Leandro Sarmatz

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A figura do delator é uma presença importante em alguns textos. Bem rápido, é possível lembrar de 1984, de George Orwell, O brinquedo raivoso, novela do argentino Roberto Arlt, e do conto “O indigno”, de Jorge Luis Borges. Há um fascínio temperado pelo desprezo na visão desses autores sobre a pessoa que denuncia. Há, também, uma questão maior ou pelo menos de abordagem mais difícil: faz-se realmente justiça quando alguém é denunciado? Ou ainda: importa se é justa ou não a delação?

Questão difícil. Não me arrisco muito a abordá-la. O fato é que certas culturas são mais propensas às energias negativas da delação. A historiografia registra que, dos lugares tocados pelos violentos braços da Inquisição ibérica, o Brasil concentrou o maior número de delatores voluntários. Fulano não ia com a cara do vizinho e inventava alguma questão (judaísmo clandestino, heresia, sodomia) para vê-lo bem longe dali. O terror como vida cotidiana.

Isso porque a delação é um dispositivo paralisante. É também um buraco negro moral. Nos textos citados no início deste comentário a acusação secreta faz com que todo o resto da trama praticamente fique em estado estacionário, antes e depois. Só importa ao leitor saber se deve ou não concordar com o que advém do sistema erigido a partir da denúncia. Na maioria das vezes, a reação mais natural é a repulsa.

No conto de Borges, a certa altura um policial fala ao personagem: “Você vem com essa denúncia porque se considera um bom cidadão?”. A resposta imediata do delator é de uma banalidade atroz. Mas as consequências deste ato dentro dele atravessaram os anos, as outras culpas e os sucessivos remorsos acumulados. A delação não tem fim.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Um Comentário

  1. E agora vou ter que ler o conto de Borges!
    Obrigada hahahaha

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