Gramática das emoções

Por Elaine Lavezzo

blog_FOTO Elaine Lavezzo

Foto: Tiel del Vale.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Elaine Lavezzo, da Escola Internacional de Alphaville em Barueri, e o projeto literário desenvolvido por ela em parceria com as professoras Anaí Teles (Artes), Carla Litrenta (5º ano do fundamental)  e Natascha Paiva (3º ano do ensino médio) com base na adoção do livro Mário que não era de Andrade.

* * *

Uma experiência pedagógica envolvendo teatro e literatura

O projeto Literatura em Cena nasceu há uma década, a partir da leitura e da adaptação teatral da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, encenada por alunos do então 6º ano, em um teatro improvisado numa grande sala de aula, no ano de 2005. A aventura cênica dessa “turma que gostava de teatro” seguiu pela literatura afora, até inaugurar o auditório da Escola Internacional de Alphaville em 2009, com a apresentação do espetáculo Vida Severina, uma livre adaptação da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, na qual alunos e alunas eram os “Severinos” que migravam pelo universo da pós-modernidade. Os cantos e encantos dessa “Vida Severina” serviram de norte para outros alunos da escola, que também resolveram embarcar nessa caravana teatral, na qual eu também peguei carona. Este passo foi decisivo para eu mudar minha trajetória como educadora, migrando do ensino de português para as artes cênicas.

Esse deslocamento profissional indicou-me novos caminhos e perspectivas para trabalhar com os alunos. Ao invés da gramática do texto, passei a observar mais sensivelmente a gramática das emoções. A singularidade do olhar de cada aluno e a pluralidade da visão do grupo eram destinos incertos a serem cuidadosamente pesquisados. O que mais me impressionou — e emocionou! — nesta investigação foi a descoberta de que o teatro é um território pedagógico democrático e inclusivo, que dá voz e o merecido espaço a alunos que muitas vezes não se expressam tão bem em aulas da grade curricular por motivos cognitivos, étnicos e socioeconômicos. Por trabalhar em uma escola que preza pela visão integral do aluno, a atuação dos estudantes nas peças passou a orientar um olhar mais sensível dos professores em relação à performance pedagógica dos alunos. Nesse cenário que se descortinou, nós, educadores, passamos a aprender muito mais sobre o mundo sem fronteiras que contribui sensivelmente para a formação de alunos disléxicos ou com diferentes questões de aprendizagem.

Um ponto de encontro nesse caminho de confluências entre a literatura e as artes foi o projeto de encenação do espetáculo teatral Maria que era de Andrade, uma livre adaptação do livro Mário que não era de Andrade. Nesta premiada obra da literatura infanto-juvenil, a escritora carioca Luciana Sandroni aborda a vida do escritor paulistano Mário de Andrade e a relevância do modernismo enquanto vanguarda artística no Brasil. Desde 2008, este livro vem sendo lido e trabalhado por alunos do 5º ano do ensino fundamental, que muitas vezes participam de um bate-papo com a autora. No entanto, em 2015 este projeto literário seguiu em busca de novas direções.

Pegando carona no projeto “Literatura em Cena”, este ano o livro Mário que não era de Andrade foi adaptado para teatro, numa montagem protagonizada por alunos do 5º ano do fundamental e do atual 3º do ensino médio — a primeira turma da escola a desenvolver um projeto literário com a obra de Sandroni. A adaptação para o teatro passou por uma mudança no gênero do protagonista e a versão ganhou o título de Maria que era de Andrade, personagem interpretada pela aluna Maria Sarmento, de 11 anos, que brilhou como a criança que viaja pela história de Mário de Andrade e de seus amigos como Dona Olívia Penteado, Villa-Lobos e outros artistas que participaram do Modernismo no Brasil.

A ousadia artística dos modernistas inspirou o projeto literário, que acolheu alunos de diferentes faixas etárias (de 10 a 17 anos) e realidades pedagógicas, abrindo o palco para o talento de alunos com dislexia e com síndrome de Asperger. Nesse cenário inclusivo e democrático que a arte coloca em cena, uma ciranda formou-se com base na trajetória pedagógica de cada um para fortalecer-se com os vínculos criados no trabalho coletivo. Na cena final, todos os alunos estavam juntos, de mãos dadas: os alunos do 5º ano despedindo-se do ensino fundamental I e os alunos do 3º ano despedindo-se do ensino médio e da escola. Tal como na Semana de Arte Moderna, o público presente no teatro não se conteve e reagiu. Os espectadores do ensino fundamental e médio invadiram o palco e entraram na ciranda dessa viagem literária, protagonizada pela sensibilidade cognitiva e pedagógica dos mais diversos Mários e Marias.

* * * * *

Elaine Lavezzo é educadora e criadora do projeto “Literatura em Cena”, que promove a leitura por meio de adaptações cênicas de obras da literatura universal protagonizadas por alunos do ensino fundamental e médio.

10 Comentários

  1. Ediva L Barbosa disse:

    Elaine,conheço e acompanho seu trabalho à algum tempo e sei da sua dedicação,respeito, entusiasmo e das horas de estudo que você dedica para cada projeto.
    Formar pessoas através da arte e da literatura é uma benção que engrandece à todos os envolvidos.
    Parabéns pelo trabalho

  2. Nina de Carvalho disse:

    Que orgulho é poder ter participado da criação desse projeto e ter crescido tanto quanto cresci nele.

    Participei da primeira montagem citada, “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, e aí comecei a lmelhorar várias questões de socialização. A satisfação que o teatro é capaz de fornecer foi inesquecível e nós, “a turma que gostava de teatro”, continuamos essa jornada: Diário de Bordo, em 2007, baseado no livro “Diário de uma viagem”; Vida Severina, em 2009, baseada em “Morte e Vida Severina” e, finalmente, Capitães da Areia, em 2010, baseado no romance homônimo. A beleza das montagens não estava só em aprender sobre literatura e teatro, conhecíamos também a realidade sobre as quais os livros falavam, referências musicais das regiões e/ou épocas e dificuldades com as quais não tínhamos que conviver em nossos cotidianos, mas sobre as quais nos tornamos conscientes.

    Só tenho a agradecer por todos os dias ensaiando, procurando figurino, arrumando cenário, ajudando na música, repassando texto, aprendendo e atuando. Sem essa experiência jamais seria quem eu sou.

    Obrigada por toda a dedicação, Elaine, e que cada vê mais você possa encantar, conscientizar e incentivar jovens como eu. Keep up the good work!

  3. Mariana Doná disse:

    Parabéns querida Elaine! Trabalho maravilhoso e orgulho das minhas filhas e eu termos feito parte dele!! Você encontrou o caminho onde todos os alunos são iguais…..onde o aluno através do lúdico consegue enxergar o outro, a trabalhar em grupo, a quebrar a timidez, a respeitar, onde o improviso, o jogo de cintura tão importante na vida de todos tem chance de ser trabalhado! Em pleno séc. XXI, o desenvolvimento socio emocional é de extrema importância…o teatro favorece isso….sem contar o aprendizado das obras, o incentivo da leitura!!!
    Continue sempre plantando sementes de cultura e inovação nos pequenos aprendizes!!

  4. DIVA ELISABETE BERTERO ARANTES disse:

    Elaine,não participei da apresentação,mas me senti presente e envolvida neste encontro e despedida ao ler o seu texto,tão bem pensado e trabalhado.
    Devo parabeniza-la pela iniciativa e criatividade,que proporcionou este crescimento e integração com faixas etarias diferentes.
    Aprender assim faz a diferença!!!!!

  5. Assisti algumas peças feitas com os alunos da escola. Muito interessante a forma como cada um se entregava em seus papéis. Aprender de forma coletiva e vivenciando aquela história, se torna inesquecível. Se eu tivesse aprendido assim na minha adolescência com certeza teria introjetado de forma mais profunda a literatura e a arte. Agradeço cada convite feito pela Elaine em fazer parte desse incrivel projeto. Que outras escolas possam utilizar novas formas de aprendizado!!
    Parabéns Elaine! Muitos frutos gerarão em muitos outros lugares. Com certeza.

  6. Elena Santamaría González disse:

    Me emocionei. Com cada projeto desenvolvido junto à maravilhosa profissional mas além de tudo pessoa Elaine. Me emocionei com cada palavra, gesto, emoção, sentimento e aprendizado dos alunos e de todos aqueles envolvidos. Muitas vezes refletiamos: Como a Elaine consegue tirar tudo isso de dentro dos meninos? Ela consegue, tanto deles, quanto dos adultos que ao lado dela tem o prazer de compartilhar tempo,espaço e emoção.
    Sem dúvida um projeto maravilhoso e necessário, que prova a educação para pessoas individuais, diferentes e unicas como ferramenta para superar limites, muros, frustrações que a vida, a sociedade ou nós mesmos as vezes colocamos nos caminhos.
    Parabéns a todos aqueles que desenvolvem uma labor tão linda. E claro, PARABÉNS à especial e unica Elaine, por compartilhar tudo isso e nos ensinar cada dia.

  7. Kathia Souto Moraes disse:

    Chorei.
    Chorei de saudades, chorei de emoção ao relembrar momentos tão especiais que vivemos junto com nossos alunos.
    A experiência de ter lido em sala de aula com os alunos “O gato malhado e a andorinha Sinha” e depois vê-los no palco, colocando , cada um a seu modo, sua interpretação, foi algo que me marcou para sempre.
    “Morte e vida severina”, também trouxe emoções contidas no fundo da alma de todos nos, alunos e professores…até hoje lembro do cenário, de alguns alunos que se superaram no palco e nos mostraram um caminho diferente e fantástico a ser seguido. E as musicas então? Inesquecíveis!
    Hoje, como psicopedagoga, entendo como fundamental essa conexão entre arte e literatura e agradeço a minha amiga e genial profissional Elaine pelas oportunidades em que pude vê-la tornar concreto alguns sonhos que muitas vezes pensávamos ser impossíveis.

  8. Natascha Paiva disse:

    Tive o imenso prazer de acompanhar o trabalho feito pela professora Elaine e o resultado foi muito emocionante! Foi um desafio colocar em cena alunos de faixas etárias tão diferentes, mas foi exatamente esse intercâmbio que enriqueceu ainda mais a experiência com essa peça. Aproximar nossos alunos da literatura por meio do teatro é uma maneira muito prazerosa de se trabalhar, além da possibilidade de experimentarem novas formas de expressão. Parabéns a todos os envolvidos no projeto!

  9. Elisabete Tscherne disse:

    Esse projeto acompanhei desde nos primórdios, prazer imenso em ajudar no seu desenvolvimento! Prática inovadora e desafiante, o trabalho em conjunto, o exercício democrático da construção do texto, do cenário e tudo o que envolve um espetáculo levado a sua máxima, dão provas da eficiência e protagonismo tanto do projeto quanto daqueles que o levaram a termo! Parabéns!

  10. Ana Luiza Guímaro disse:

    Incrível esse trabalho desenvolvido na Escola Internacional de Alphaville. Pelo ineditismo de seu formato e a beleza dos resultados alcançados, mereceria destaque, sendo compartilhado entre os protagonistas da Educação no País.

    Tendo essa “aventura cênica” já alguns anos de caminhada, valeria conhecer mais a fundo todo esse trajeto, posicionando-o, talvez, como uma dinâmica a ser replicada Brasil afora.

    Registros dessas encenações devem ter sido feitos, daí a relevância de se analisar detalhadamente esse material histórico e, então, possivelmente, tratar o projeto Literatura em Cena como um verdadeiro case, evidenciando sua grande eficácia para as escolas. Como disse a autora e criadora desse projeto, “o teatro é um território pedagógico democrático e inclusivo, que dá voz e o merecido espaço a alunos que muitas vezes não se expressam tão bem em aulas da grade curricular por motivos cognitivos, étnicos e socioeconômicos.”

    Cabe, sem dúvida, um olhar diferenciado de todos para essa experiência tão exitosa!!

Deixe seu comentário...





*