O abraço do afogado

Por Maria Clara Drummond

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Já faz mais de uma década que minha mãe me aconselhou a não contar para minhas colegas de escola que eu frequentava um psiquiatra para tratar a depressão. Desde então, Andrew Solomon ajudou a desestigmatizar o tema em seu maravilhoso O demônio do meio-dia, inúmeros artigos foram escritos a respeito, e outras tantas celebridades já “saíram do armário” e falaram sobre o assunto.

Apesar de ser a doença que mais cresce no mundo, atingindo 350 milhões de pessoas, é inevitável o sentimento: por que todos ao meu redor parecem levar uma vida normal, com conquistas e alegrias, menos eu? Da mesma forma que não conseguimos descrever exatamente o que é felicidade, a depressão também engloba uma miríade de tipos de tristeza. Ela existe em alguns diagnósticos — a minha é similar à ciclotimia, um subgênero atenuado do transtorno bipolar — e no mesmo diagnóstico o sentimento de cada pessoa pode ser bastante diferente da outra.

Estava estabilizada há anos, tomando os mesmos remédios desde a adolescência, apenas com pequenas crises que conseguia controlar em questão de dias. Quando fui passar as férias de agosto em Portugal, e percebi que em vez de aproveitar a praia, passava os dias chorando no quarto, não tive dúvidas que ela estava de volta. Eu não estava simplesmente triste, eu estava doente.

Consigo perceber meus sintomas: completa falta de esperança no futuro, self-hate, temor paralisante que as pessoas que eu amo deixem de me amar, pensamentos de morte obsessivos, em looping, até a exaustão. Se eu pudesse escolher uma imagem para minha depressão, seria o afogamento. É sufocante.

Durante a crise, pensei muito na expressão: “o abraço do afogado”. Sem querer preocupar meus pais, envoltos com seus próprios problemas de saúde, nem atrapalhar minha irmã, executiva de uma grande empresa com duas filhas bebês para cuidar, acabei recorrendo pela primeira vez aos amigos mais próximos. Não à toa eles tinham a mesma doença, e pensei que por isso eles pudessem me compreender melhor.

Deve ter sido muito difícil para eles me ouvir repetindo as mesmas negatividades, o dia inteiro, sem espaço para resposta. Imagino que seja uma sensação de impotência imensa. Até que um dia, aquele que eu mais amava, e para quem eu mais me doei quando precisou de ajuda, me escreveu: “não aguento mais lidar com suas neuroses. Perdi o tesão pela nossa amizade”. Eu achava que eu estava no auge da minha crise, mas não estava.

Nos meus momentos mais lúcidos consigo entender sua atitude. Já é difícil demais carregar o peso da própria vida, às vezes simplesmente não dá para ajudar a carregar o peso do outro. O deprimido é muitas vezes um egocêntrico. Nada mais lhe importa além da própria dor. Quando junta-se dois, nenhum diálogo é possível. Sem querer, afoguei-o com minhas angústias. Sem ter quem me salvar, afoguei-me mais.

Uma amiga lisboeta certa vez me disse: “aqui em Portugal, para-se tudo para acudir um amigo que está triste, mesmo que para isso seja preciso desmarcar o programa mais importante do mundo”. No Rio de Janeiro, a cidade do samba e do funk, e não a do fado, não temos essa cultura. A regra é jamais abalar a alegria e leveza do outro.

Comecei a semana seguinte com a receita de remédio novo, agenda lotada de sessões de análise todos os dias da semana, e programações noturnas com os amigos. Em uma abertura de exposição, uma conhecida me perguntou atenciosa no meio de uma roda de conversa: “e você, como está?” Sorri para ela, com meu casaco de camurça, minha calça de couro, minha pele maquiada, e disse: “estou ótima!” Depois, mudei de ideia, ainda sorrindo: “na verdade, não. Estou passando por uma crise depressiva pesada”.

Tudo transcorreu de uma forma natural, e isso foi muito bom. Comentei brevemente sobre a situação, em poucas palavras, e a conversa seguiu seu rumo. Mesmo ultrapassado o estigma, é difícil decidir que grau de publicidade se dará à doença. Considerei bem-sucedida a naturalidade que minha revelação foi encarada, mas muitas vezes a palavra depressão, usada de forma banal, pode ser entendida quase como um sinônimo de: estou chateada. Isso me aconteceu em outros momentos, quando provavelmente me acharam dramática e hiperbólica. Neste caso, faz-se um desserviço aos portadores do distúrbio, que volta a ser considerado frescura ou mimimi. É uma equação que ainda estou aprendendo.

O lado positivo da ciclotimia é que você consegue ter momentos bons e divertidos, muitas vezes até eufóricos, mesmo que no dia anterior os pensamentos suicidas tenham sido constantes. É uma trégua. No entanto, isso pode causar incompreensão até maior entre aqueles que se dispõem a ajudar, mesmo que tenham algum conhecimento empírico sobre o assunto. “Quando eu perdia meu sono e chorava de preocupação, você estava na festa, enchendo a cara, e tirando foto.” Mas a euforia nunca é o que parece. Pode ser mais desespero e ânsia de manter-se viva que alegria propriamente dita.

“350 milhões” é apenas um número; e não nos sentimos acolhidas por estarmos acompanhadas de apenas um número. É muito frio. Mas relatos de experiência pessoal sim, eles que são capazes de tornar a trajetória de vida do leitor um pouco menos solitária. Dessa forma, eles nunca são suficiente, e há sempre espaço para mais um. Assim, cada leitor pode encontrar o texto que melhor lhe traduz. É uma visão romântica, sem dúvida, talvez até pretensiosa, mas creio que essa seja uma das “funções” da literatura; se é que ela tem alguma função. E é por isso que estou aqui.

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13926_gA REALIDADE DEVIA SER PROIBIDA
Sinopse: 
Os dilemas e as pressões sociais de Eva podem se parecer com os de qualquer garota da elite. Para quem vê de fora, sua vida se dá entre o restaurante chique e a festa com DJ francês regada a MDMA. No entanto, tudo que é óbvio sobre Eva será desconstruído pela autora Maria Clara Drummond. Como o ator consciente da farsa encenada, a jovem colocará em evidência cada parte dessas engrenagens sociais. Um olhar menos compassivo poderia encontrar apenas superficialidade, mas o que se tem é um retrato sincero de uma geração. Narrado em ritmo cinematográfico, A realidade devia ser proibida guarda um vislumbre de uma época tão difícil de definir.

Eventos de lançamento:

São Paulo — Segunda-feira, 9 de novembro, às 19h — Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073).

Rio de Janeiro — Quinta-feira, 12 de novembro, às 19h — Livraria da Travessa Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97).

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Maria Clara Drummond nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, e é jornalista. Em 2013 publicou seu romance de estreia, A festa é minha e eu choro se quiser (Guarda-Chuva) e em 2015 lança A realidade devia ser proibida pela Companhia das Letras .