Os móveis do mundo

Por José Luiz Passos

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Em geral, nos domingos não me pedem para cozinhar. Aqui no casarão eles saem para rezar ou recebem gente próxima, só com aperitivos. O dr. Ramil uma vez quis saber se eu não sentia falta das coisas do Norte. Que Norte, se não venho da Amazônia? “O Brasil não cabe no Brasil”, diz o filho da casa, que também se chama Ramil.

Longe de onde nasci, aqui me sinto à vontade, mesmo com esse cheiro de gás no ar. “São Paulo é sertão e aeroporto”, me disse um taxista. Não discordo, mas também não venho do sertão. “A senhora às vezes é uma filósofa”, Ramil filho diz. À noite penso nisso. O cheiro da cozinha se entranha nas roupas e no meu lenço. Quando tomo banho e me troco, passo pelo cesto na área de serviço, sinto o fartum oleoso que vem dos panos embolados no chão. E a memória puxa pelo cheiro de outras épocas.

O dono da casa é advogado, mas não advoga. Depois de ganhar minha causa, foi fazer a vida na fábrica de ventiladores da família. Acho São Paulo mais fria do que quente. Mesmo assim todo mundo compra um ventilador, não compra? De acordo. Igual com a comida. “Então, a cozinha não é a única língua universal?” A pergunta não é minha, é de alguém da universidade, freguês da casa, um professor de Ramil. “A senhora não acha?”, ele insiste, logo quando entro na sala de jantar equilibrando a sopeira grande, em forma de taça.

O dr. Ramil pede que eu deixe a sopeira, “Vá se sentar. O professor quer saber da nossa causa, hum?”, e ele espalha os braços, mostrando o tamanho da vitória no fórum. O professor diz, “É, a senhora conta?”. Ramil filho puxa uma cadeira para mais longe da mesa, e lá vou eu me sentar. Agora eles estão me olhando.

A Beef’s entrou no Brasil como uma cadeia de lanchonetes gaúcha faz vinte anos. Dali foi se espalhando. Tem o Beef’s Supreme, com ovo, e o Xis Beef’s, com queijo. Já teve um Beef’s Picanha, que não era feito com bolo de carne mas com tiras do corte na chapa, e era o mais caro. O Beef’s Dublê tem dois andares. O Natura vem sem pão, com o hambúrguer em folhas de alface. A carne é pré-cozida, moída, depois frita nas caçambas. A mistura é feita em forma de bolota ou pratinho. O dr. Ramil diz que encontraram ali dentro, ainda na minha época, farelo de soja, frango e farinha de ossos misturados com gordura de várias qualidades, até formar uma esponja. Associo essa massa à inhaca das várias frituras e aos bonés com o enorme B na testa, berrante, alaranjado. De longe as Beef’s gritam nessa cor uma nuvem sabor banha, ketchup e salmoura.

Ficávamos enfileiradas num banco comprido, contra a parede do corredor entre a cozinha e os fundos. Ao lado do relógio de ponto tinha uma prancheta marrom com a lista dos funcionários móveis. A Beef’s faz propaganda mostrando gente risonha com o boné do B grande na cabeça, “Beef’s, bom gosto é aqui”. Na época, os clientes iam e vinham, incertos. “Pra um movimento desses”, o gerente falou, “só mesmo funcionário flexível, trabalha quando tem trabalho. Melhor pra todo mundo.” Éramos os móveis do mundo Beef’s. Ficávamos em fila no banco lá atrás. Quando chegavam os clientes, o gerente nos trazia para o turno flexível. Cheguei a pegar uma hora e meia de serviço, num dia inteiro, contente com o visto na prancheta marrom. Não esqueço do meu primeiro gerente, Jéferson, inocente do cabelo pastoso, um homem de fé batista.

As Beef’s não permite que os funcionários tragam comida de casa. As refeições são tiradas em forma de vale. Com as jornadas curtas, os móveis acumulam poucas horas. Chegam na sexta-feira devendo os adiantamentos da comida. Nos fins de semana, a fila dos flexíveis aumenta no corredor malcheiroso. Lembro disso até no nariz. De repente, o professor me interrompe, diz, “O olfato não é parte intrínseca do eu, o gosto também não, já a memória, sim, pois não há eu sem a faculdade de saber ter durado no tempo”. Ramil jovem diz, “Ouvir essa merda me dá é vontade de ter nascido vegetariano”. O dr. Ramil quer que o rapaz estude para ser advogado, como ele, “Olhe, a senhora é como se fosse da família. Nossa ação contra a Beef’s, hum? Acabou-se essa sem-vergonhice”. Associo a jornada móvel ao cheiro das caçambas de óleo chiando com carne de terceira, a bolotas pescadas na escumadeira para as refeições dos móveis da Beef’s. E, hoje, o que a memória me dá é a sensação de alternar o assento com uma colega. Eu e ela de olho na porta envidraçada, na torcida por um feriado ou um jogo no campo do bairro, quando os clientes cantavam vitória enfiando a cara de uma vida estável nas suas pequenas esponjas de carne.

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Versão do texto de mesmo nome publicado na antologia O verso dos trabalhadores (São Paulo: Terceiro Nome, 2015), coordenada pelo Ministério Público do Trabalho. Os recursos para o financiamento do livro resultaram de uma multa trabalhista por conta da terceirização ilícita de mão de obra e condições insalubres de trabalho.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

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