Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

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Na Europa após a Segunda Guerra, em meio a uma paisagem de escombros, figuras esqueléticas e quase absoluto desamparo social e psicológico, uma menina e um homem perambulam por entre as ruínas. A menina é Hanna, tem catorze anos, é portadora de uma doença congênita e está em busca do pai; o homem é Marius, sujeito enigmático que parece se esconder do próprio passado. Essa improvável dupla protagoniza Uma menina está perdida no seu século à procura do painovo romance de Gonçalo M. Tavares que acaba de chegar às livrarias.

A história tem contornos fantasmagóricos e irônicos típicos do autor português, que, avesso às convenções do gênero, constrói um retrato a um só tempo abstrato e absolutamente tocante sobre as verdadeiras vítimas da guerra: as pessoas comuns, aquelas mais fragilizadas, que de repente se veem à margem de todos os acontecimentos. Leia um trecho de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai.

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Ao princípio da manhã saímos do hotel — havia muito para fazer nesse dia — e só aí, afastados, me lembrei de que o hotel não tinha nome, ou pelo menos esse nome não estava visível em lado nenhum — nem na entrada, nem em qualquer documento de que me lembrasse —, o que não era significativo, apenas um pormenor a que, no regresso, eu deveria dar atenção.

Descíamos, já ao fim da manhã, a rua principal ocupados com um dos passatempos inconsequentes que fascinavam Hanna: contar coisas iguais — candeeiros, pequenos bancos de rua — ou pessoas com determinado tipo de vestimenta, pessoas com casaco longo, uma, duas… três pessoas com chapéu — uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete; mulheres de cabelo comprido, mulheres de cabelo curto, homens com barba, sem barba; cães, carros de cor preta, carros de cor cinzenta.

Propus‑lhe, nessa altura, contarmos as pessoas que passavam a sorrir e começámos a contar, e a princípio pareciam poucas — uma, lá ao fundo, duas, três — mas o mais interessante era que havia, e tal ficou claro a partir de uma certa altura, uma relação directa entre os sorrisos e a proximidade física, espacial. De uma forma objectiva, eram muito mais as pessoas que sorriam quando muito próximas de nós. Poderia pensar que se tratava de um puro acaso e que o facto simples era que as pessoas que estavam a maior distância estariam apenas mais neutras ou infelizes, mas o que se passava realmente era que Hanna como que fazia batota, induzindo, sem consciência, o aparecimento de expressões simpáticas. Quase invariavelmente as pessoas que se cruzavam connosco deixavam cair algo que, segundos antes, lhes fechava o rosto e, sem defesas de qualquer espécie, sorriam, carinhosa e abertamente, umas vezes para ela, outras vezes para mim, outras vezes para os dois.

A contabilidade que eu e Hanna levámos a cabo atingiu assim proporções claramente irreais. Talvez em quinze minutos, não mais numa outra vez em que repetimos este jogo tive o cuidado de confirmar com exactidão o tempo de passeio, o que aqui não aconteceu —, mas dizia que, em não mais de quinze minutos, contámos setenta e seis pessoas a sorrir. Mesmo tendo nós estado a descer a rua principal da cidade num momento do dia agitado — antes do almoço —, tal número não se justificava; não era preciso ser pessimista para perceber que era impossível existir tanta felicidade, digamos, por metro quadrado. E a sensação que eu tinha era de que Hanna se constituía como um elemento estranho, que parecia, como Moisés, à medida que avançava, separar as águas. A sensação era a de que a cidade e os seus elementos humanos — e mesmo não humanos (até as coisas fixas, os postes de electricidade) — se desviavam para um lado ou para o outro quando ela se aproximava, mas aqui, ao contrário do que sucede aquando da passagem de um homem poderoso ou de uma caravana de carros sinalizada como importante, o desvio a que Hanna obrigava as pessoas — desvio concreto, físico, um metro mais para a direita ou para a esquerda — era realizado com profundo e evidente prazer, prazer que se exteriorizava, então, quase infalivelmente, por via de um sorriso naquele momento crucial, decisivo, na história das cidades, e a que raramente se dá a devida atenção, esse momento de intensidade extrema em que duas ou mais pessoas, caminhando em direcções opostas, se cruzam, não apenas numa linha próxima dos ombros, mas ainda visualmente. Esse momento de cruzamento com outros tornou‑se para mim — em tantas outras ocasiões — um momento de satisfação, como se murmurasse para mim próprio: mais um, mais um!, numa espécie de jogo de sedução em que, para mais, não era eu nem o sujeito nem o objecto da sedução. Muita da extraordinária sensação de reconhecimento que eu sentia devia‑se à expectativa criada no pequeno trajecto — espacial e temporal — que ia daquele momento em que, ao longe, a trinta metros, digamos, víamos uma pessoa, até ao referido instante em que, se quiséssemos e se nos esforçássemos, poderíamos ver a cor dos olhos do outro, e o outro poderia ver a cor dos nossos olhos, tal a proximidade. E sim, as pessoas quando cruzavam o olhar com Hanna sorriam, com simpatia.

Um Comentário

  1. Alexandre disse:

    Todas essas histórias pós-guerra me causam choro.

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