A primeira vez que falei Esperanto

Por Socorro Acioli

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Socorro Acioli, autora de A cabeça do santo A bailarina fantasma, é a convidada de hoje e conta aos leitores como aprendeu a falar Esperanto.

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Logo que começamos a namorar, meu marido matriculou-se em um curso de Esperanto. Estava empolgadíssimo. Nossos primeiros dias de amor eram preenchidos por longos momentos de explicações sobre a ideia de uma língua internacional. Ele me contava que o criador do Esperanto, o Dr. Zamenhof, inventou um sistema linguístico congregando elementos de vários idiomas, uma fascinante gramática sem exceções, fácil de aprender.

Não demorou para que ele encontrasse um grupo de esperantistas ainda mais empolgados. É a língua da paz e da união dos povos, eles diziam. Planejavam um congresso regional, outro nacional e um grande evento internacional. A esperança de um mundo sem guerras estava na implementação do Esperanto como língua de comunicação intercultural — diziam eles, com veias saltadas no pescoço, na testa, braços para o alto, gesticulando com fervor.

De estudante, meu marido virou professor de Esperanto, e o envolvimento com o projeto esperantista aumentava descontroladamente. A coisa ficava cada dia mais séria. Eu não conseguia acompanhar tamanho entusiasmo e meu marido percebia, é claro, minha participação apática nos eventos da estrela verde.

Mas ele foi esperto quando me disse, um dia, que estava interessado em ir ao Congresso Internacional de Esperanto, em Tel Aviv, mas que só iríamos se eu aprendesse o idioma até lá. Aí sim, ele falou minha língua. Até porque a organização do evento oferecia uma excursão antes do congresso que passava por Jerusalém e eu tinha loucura para conhecer aquele lugar.

Foram alguns meses de empenho para aprender Esperanto até chegarmos ao hotel em Tel Aviv e encontrarmos o grupo da nossa excursão. Eram senhores e senhoras da África do Sul, da Espanha, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da França, da Itália e do Japão e, dentre eles, o mais jovem deveria ter cerca de setenta e cinco anos. Todos falando somente Esperanto — menos eu, que até então estava muda.

Na véspera da visita ao Lago Tiberíades, o guia convocou uma reunião para decidirmos se encurtaríamos o passeio para almoçar em um restaurante arrumadinho ou se aproveitaríamos um pouco mais, porém comendo um falafel em um restaurante caseiro no meio da estrada.

Quando dei por mim, eu estava  explicando que seria muito melhor comer o falafel, é óbvio, a coisa mais deliciosa do Oriente Médio, aquele pão maravilhoso cheio de salada e bolinhos de grão de bico. Uma das coisas que eu mais queria provar na viagem era o tal falafel, não poderia perder a oportunidade. Argumentei gesticulando, dilatando as veias do pescoço e falando Esperanto. Nem eu acreditei, segundos depois. Parecia possuída pelo fervor da estrela verde. Meu marido marejou, orgulhosíssimo. Em nome de um falafel, eu finalmente honrava a língua do Dr. Zamenhof.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

4 Comentários

  1. Sandra Alencar disse:

    Está aí uma ótima motivação pra destravar a língua, rsrs.

  2. Paulo Silas disse:

    Adorei o texto! :3

    é claro, porém, que há só jovens anciãos que falam Esperanto.

  3. Renata Ventura disse:

    Adorei o artigo! Tenho paixão pelo Esperanto. Aprendi a língua neutra internacional há dez anos e já fiz centenas de amigos através dela, ao redor do mundo!

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