Escovadas suaves e longas

Por Carol Bensimon

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Eu gostaria de ver vídeos em time-lapse de escritores na frente do computador. Provavelmente seriam os vídeos mais entendiantes do mundo, porque o escritor ficaria quase todo o tempo lá parado não digitando coisa alguma, olhando para a tela em branco ou para a paisagem que vê da janela. Claro que, nesse tempo, ele estará pensando no almoço ou na catástrofe da sua vida, mas também em diálogos entre seres fictícios, paisagens de papel e em como coordenar tudo isso ao mesmo tempo. Uma palavra depois da outra.

A grande estrutura da trama costuma ser desenhada em outro momento, anterior a esse, ou pelo menos assim parece ser o método de quem escreve narrativas longas. A maioria dos detalhes, por outro lado, aparece na hora da escrita. Detalhes são a base de tudo, e provavelmente a coisa mais negligenciada por quem entra em uma oficina literária. E isso não é exatamente uma visão muito pessoal ou o conselho de quem ainda é jovem demais para dar conselhos. Se você for atrás do que dizem grandes escritores ou críticos, vai descobrir que, de maneiras diferentes, eles estão dizendo a mesma coisa.

Em Como funciona a ficção, James Wood diz que a narrativa moderna tem como uma de suas características mais marcantes o apelo aos sentidos, a sensação de que estamos lendo algo “cinematográfico”. E uma outra característica dessa narrativa — que começa com Flaubert —  é que “o pavoroso e o comum sejam notados ao mesmo tempo”, o que, de certa forma, é uma consequência da riqueza de detalhes. Um trecho de O emblema vermelho da coragem, de Stephen Crane, exemplifica:

“Olhava para ele um homem morto, sentado de costas contra uma árvore que parecia uma coluna. O cadáver estava metido num uniforme que um dia fora azul, mas agora estava desbotado numa triste tonalidade esverdeada (…) Sobre a pele cinzenta do rosto passeavam formigas. Uma delas arrastava algum tipo de carga ao longo do lábio superior.”

Autor de O romancista ingênuo e o sentimental, um ótimo livro sobre processo criativo, o romancista turco Orhan Pamuk também entra na questão primordial dos detalhes. Segundo ele, nenhum personagem nasce na cabeça de um romancista como um ser psicologicamente complexo cujo temperamento responde aos estímulos externos; na verdade, o personagem se constitui pela observação que faz do mundo ao seu redor.

O que torna Anna [Kariênina] inesquecível é a precisão de muitos pequenos detalhes. Chegamos a ver, sentir e nos ligar a tudo da mesma forma que ela — a noite nevada lá fora, o interior do compartimento, o romance que ela está lendo (ou em vão tentando ler). Vemos, sentimos e nos interessamos como ela. Um motivo para isso talvez seja a maneira como Tolstói molda seu caráter: em contraste com a maneira como Cervantes retrata Dom Quixote, Tolstói apresenta Ana como suave e ambígua, deixando espaço suficiente para que nos identifiquemos com ela. Quando lemos Anna Kariênina, não somos deixados do lado de fora, como quando lemos Dom Quixote. O aspecto mais distintivo da arte do romance consiste em mostrar o mundo tal como os protagonistas o percebem, com todos os seus sentidos. E, como a ampla paisagem que vemos de longe é descrita através de seus olhos e de seus sentidos, colocamo-nos no lugar deles, comovemo-nos profundamente e migramos da perspectiva de um à perspectiva de outro para compreender a paisagem geral como um sentimento experimentado desde dentro. A paisagem em que as figuras caminham não lança sombras sobre elas; ao contrário, os protagonistas do romance foram imaginados e construídos para o preciso propósito de revelar os detalhes dessa paisagem e iluminá-la. Para isso têm de estar profundamente envolvidos com o mundo que percebem.”

Hoje alguém compartilhou um conselho de Chuck Palahniuk nas redes sociais e, pronto!, lá estava a mesma ideia em uma nova roupagem.“Evite os ‘verbos de pensamento’”, dizia Palahniuk (a dica na íntegra pode ser lida aqui). O que ele quer dizer com isso (estou tomando uma certa liberdade) é que verbos como pensar, saber, entender e acreditar podem ser atalhos para expressar certas coisas da narrativa, e que esses atalhos não são bons, mas o contrário disso; são preguiçosos e acabam fazendo com que não mostremos todos os detalhes que poderíamos mostrar.

Em vez de fazer seus personagens saberem qualquer coisa, você deve agora apresentar detalhes que permitam que o leitor os conheça. Em vez de fazer seus personagens quererem alguma coisa, você deve agora descrever a coisa para que seus leitores passem a querê-la também.”

Então Palahniuk não está dizendo que menos é mais. Mais é simplesmente mais. Por isso é que torço o nariz quando falam em “concisão” nas oficinas literárias (e fora delas também). Claro que concisão é importante em muitos sentidos, mas não me parece que essa precise ser a ideia mais forte a ser transmitida para um grupo de pessoas que deseja escrever ficção.

Para fechar, mais Palahniuk:

“Por exemplo: ‘Enquanto esperava pelo ônibus, Mark começou a se perguntar quanto tempo a viagem tomaria…’. 

Uma construção melhor seria: ‘A programação dizia que o ônibus chegaria ao meio dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram 11:57. Dali dava para ver até o fim da rua, até o shopping, e ele não via nenhum ônibus vindo. Sem dúvidas, o motorista estava parado em algum retorno no fim da linha, tirando uma soneca. O motorista estava dormindo e Mark estava atrasado. Ou pior, o motorista estava bebendo e, quando ele parasse ali, bêbado, cobraria setenta e cinco centavos por uma morte horrível em um acidente de trânsito.’ 

Um personagem sozinho deve mergulhar em fantasia em memória, mas mesmo nesses casos você não pode usar ‘verbos de pensamento’ ou qualquer um de seus parentes abstratos. 

Ah, e você não pode se esquecer dos verbos lembrar e esquecer. Nada de frases como ‘Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar seu cabelo’. Em vez disso, diga: ‘Quando estavam no segundo ano da faculdade, Nelson costumava arrumar o cabelo dela com escovadas suaves e longas’. 

Outra vez: desmembre. Não utilize atalhos.” 

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

2 Comentários

  1. Sória disse:

    Te amo.

  2. Recentemente abandonei ‘Carol’, da Patricia Highsmith, na pág 113 da edição pocket da L&PM, depois dessa frase: “E finalmente foram à zona residencial da cidade, jantar tarde em um restaurante onde havia uma harpa tocando. Foi uma noite esplêndida, uma noite verdadeiramente magnífica.”

    Acaba assim o capítulo. EU PRECISO QUE VOCÊ ME NARRE O QUE É UMA NOITE ESPLÊNDIDA, BABY!!

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