Escrever enquanto dinossauro

Por Luisa Geisler

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Luisa Geisler escreve sobre a primeira vez em que “foi” um dinossauro.

* * *

Tenho um irmão. Naquela tarde de verão gaúcho, eu estava na fase da infância entre o ódio e a mais pura admiração por ele. Aquela fase em que ter quatro anos a mais parece não só uma geração inteira como um oceano de sabedoria apenas comparável ao dos adultos. E também a fase em que dizer “vou te matar” partia verdadeiramente de um desejo visceral de consertar minha existência por meio de fratricídio.

Eu não gostava de crianças. Odiava a maioria das outras crianças da minha faixa etária. Eu me achava muito madura para a minha idade. Isso em algum lugar entre seis e nove anos de idade. As crianças da escola não sabiam de nada, sabe por quê? Porque meu irmão tinha me dito que o Ensino Fundamental era moleza, e difícil mesmo era o Ensino Médio. Pouco importava que meu irmão tinha ouvido isso de um outro garoto, e nenhum de nós entendia bem a diferença entre Ensino Fundamental e Médio.

Ao mesmo tempo, porque nunca fui tão psicopata quanto quando era criança, eu tinha planos de matá-lo durante o sono. Meu irmão me batia, brigava melhor, era mais forte, riscava meus livros de colorir, roubava bonecas, comia os restos de McLanche Feliz que eu colocava na geladeira, não me emprestava os quadrinhos do Homem-Aranha que a mãe assinava para ele e me ameaçava com a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Eu nunca tinha visto a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu tinha medo de que fosse sentir medo da Cuca. Claramente, esse medo do medo é a característica mais neurótica que tenho, e só me tornei escritora — não pelos quadrinhos, não pelas histórias antes de dormir, não pela Feira do Livro de Porto Alegre — por essa neurose precoce. Logo, sempre que se citava a Cuca, eu desligava a televisão para não precisar vê-la.

E meu irmão ligava de volta.

E só a mente infantil compreende o quão aterrorizante é a possibilidade de ver a Cuca na televisão.

Acho que era final de semana. Então: calor, irmão, pura admiração, puro ódio. Ah, e um VHS de Jurassic Park. Se eu tinha medo da Cuca, pensem em quanto medo eu tinha de dinossauros. Por algum motivo, meu irmão não tinha o direito de ver a televisão (na minha opinião), e eu me recusava a sair da sala. Ele sabia que se colocasse o filme dos dinossauros e eu estivesse na sala, eu iria começar a chorar do medo do medo, meus pais iriam achar que ele estava me provocando e ele ficaria de castigo. Eu era a menina, eu era menor. Logo, ele sabia que eu tinha que sair por livre e espontânea vontade ou não haveria paz.

E eu sabia disso também.

Logo, não saí da sala. Não me lembro por quê, mas era uma causa justa. Fiquei no sofá, esperneei e ameacei chorar enquanto ele rebobinava e iniciava a fita. Tanto reclamei que:

— Tu não quer ver o filme? — meu irmão disse. E tacou um pano (?) do sofá na minha cara. — Pronto. Não vai ver o filme.

Segui na sala, ameaçando que conseguia ver o filme entre partes do pano. Mas meu irmão se absolvera de culpa. O medo do medo tomou conta de mim, mas travei quando um dos funcionários do parque foi puxado para dentro da gaiola na cena inicial. E vi um olho de dinossauro. Shoot her. Fazia muito calor sob o meu pano. Depois ainda, minha frase favorita de todas: clever girl (especialmente porque entendi sem as legendas). E tudo isso levou a um segundo de duas horas e dois minutos que cresceu a ponto de eu cogitar ter “velociraptors” no título do Livro Novo em que estou trabalhando hoje.

Dias (?) depois, meu irmão sugeriu brincarmos de dinossauro. Basicamente a gente iria pisar bem forte no jardim. Tivemos uma discussão porque é claro que sim. Ele queria ser o tiranossauro. Eu queria também. Meu favorito era a clever girl, mas o tiranossauro era maior, e eu não queria reforçar os sistemas de poder e opressão causados por tamanho, que já existiam na vida não pré-histórica (para referência, meu irmão hoje tem quase dois metros e eu, 1,79m e 50mm). Discutíamos.

Meu irmão, então, sentou e começou a me contar de um dinossauro. Que era tipo o tiranossauro, só que maior e mais forte. E mais colorido. Tinha muito de velociraptor misturado. Ele tinha visto nos livros de dinossauro. Ele ia mostrar depois. E ele ia me deixar ser esse dinossauro, porque ele era generoso assim.

Eu me levantei. Eu sorria. E, pela primeira de muitas vezes, eu fui um dinossauro.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

2 Comentários

  1. Tarcisio disse:

    A relação entre irmãos é sempre complicada. Me identifiquei mto com o texto

  2. Daniel Abreu disse:

    Moça, se vc tem 1,79m e 50mm, vc tem então 1,84m! Não seriam 1,79m e só 5mm, isto é, meio centímetro?
    Ô como eu sou chato (rs).
    Abraço, e boa sorte.

    P.S. Espero que a convivência com o seu irmão tenha melhorado. Essa é uma das coisas boas de envelhecer: ela, a convivência, via de regra melhora.

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