O mágico ator

Por Raphael Montes

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Raphael Montes escreve sobre a primeira vez que leu um livro.

* * *

Eu tinha dez anos e queria ser mágico. Estudava no Colégio de São Bento e vivia de um lado pro outro com um maço de cartas nas mãos, mandando alguém escolher uma carta ou pensar em um número para que eu adivinhasse, buscando alguém para me dar uma moeda ou outro objeto pequeno que eu faria sumir diante de seus olhos. A mágica era minha paixão.

Na turma, todos viam desenhos animados, jogavam videogame em casa e futebol na hora do recreio. Eu ficava praticando mágicas. Sempre. Comprava novos truques em um quiosque que havia no shopping Rio Sul, via e revia um show do David Copperfield que passara na Globo com apresentação da Ana Furtado que eu tinha gravado num VHS. A prática leva à excelência, eu sabia. Mas nunca cheguei a ser realmente bom naquilo. Eu era determinado, mas meu público era um só e já ia ficando impaciente após ver o mesmo truque pela vigésima vez. Hoje penso que a mágica me encantava por sua capacidade de surpreender e de iludir diante dos olhos. Ilusão e surpresa: duas sensações que sempre me fascinaram.

Por um tempo, desisti da mágica e resolvi ser ator. Eu gostava de me sentir na pele de outro — pensar e agir como outra pessoa. Por esse motivo também, adorava brincar com bonecos de luta: a cada boneco, eu criava todo um passado para ele, um motivo para que tivesse chegado até ali (algo bem mais interessante do que simplesmente “mamãe foi na loja e comprou”) e fazia com que ele lutasse com todos os bonecos que eu já tinha para que pudesse entrar na gangue. O lado divertido é que, como eu não via desenhos animados, eu escolhia os bonecos pela aparência apenas — não conhecia nada da história deles e podia inventar à vontade. Mais tarde, descobri o nome de alguns. Para vocês terem uma noção, Hagrid e Professor Xavier eram inimigos mortais, ambos maus, contra o bondoso Darth Vader (na minha imaginação, aquele sujeito de máscara preta tinha perdido a família, mas no fundo era um cara legal).

Como gostava de imaginar outras vidas e outras pessoas, atuar me parecia um caminho natural. Fiz um curso de teatro na Barra da Tijuca e cheguei a me apresentar em um ou dois espetáculos infantis, o suficiente para perceber que eu não tinha o menor talento para aquilo.

Então, em uma noite chuvosa, eu estava em uma colônia de férias em Pentagna, perto do município de Valença, com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de Um estudo em vermelho. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola — meus pais não têm costume de ler e, por isso, consumir literatura não era algo “natural” lá em casa. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!

Deitado na cama, comecei a ler. Quando percebi, estava mergulhado naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li A volta de Sherlock Holmes e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: O fantasma da meia-noite e A perseguição. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.

Fiz meus primeiros contos e, logo depois, um romance policial nunca publicado. Daí, comecei Suicidas, meu primeiro livro publicado. E depois Dias perfeitos, O Vilarejo e sabe Deus o que mais vem por aí. No fundo, continuo a ser o moleque que, naquela madrugada chuvosa, descobriu que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros. Mágica e atuação na mente do escritor. Quer experiência melhor?

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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4 Comentários

  1. Bruna disse:

    Que vontade de voltar aos tempos de criança!

  2. JÁ FIZ MUITO ISSO NA MINHA INFÂNCIA, QUANDO FALTAVA LUZ EM CASA DEPOIS DE UM TEMPORAL, ACENDER UMA VELA PARA PODER LER ANTES DE DORMIR!!! SAUDADES DO MEU PAI!!!

  3. Anna Maria de Assis Ribeiro disse:

    Raphael, a gente sempre continua a ser o que foi em criança e adolescência. Acho que estas personas que fomos nunca morrem e acordam nas horas mais inesperadas ao longo da vida. E é bom que seja assim, não é? Vai dai que a velhice fica pra lá de divertida e rica. Tudo na vida resulta num acumulo e mistura de experiências. Você é um dos privilegiados que sem esquecer da mágica a incorporou no que veio a seguir. Que bom! Reconheci esta sua características no momento em que conheci você. Um menino que não se intimidou e nem se incomodou de ter uma velha sentada ao lado num almoço e revelou-se interessante e interessado. Ganho meu. Você me lembrou, naquele dia, uma definição de cultura de meu pai que eu adoro: “é tudo que fica depois que a gente esqueceu onde aprendeu”. E é um fato: a gente vai acumulando dentro da gente, tudo que observa, lê, escuta,infere e isto tudo vai entrando dentro da gente misturando com que já lá estava e formando a cultura de cada um que é unica e original. Quando deixa isto acontecer consegue-se usufruir da vida do melhor modo e deixa-se de ser um citador para ser um criador. Aconteceu com você esta cultura e que bom que foi assim. Há muito ainda pela frente, Raphael.

  4. Marcelo Ribeiro disse:

    Raphael Montes é um escritor incrível! Suicidas é eletrizante, tem uma pegada de cinema e o final é de deixar o leitor de boca aberta por horas! Dias perfeitos é sensacional também e o mais incrível é você se ver torcendo pelo Téo, mesmo depois de tudo o que ele fez! E O Vilarejo não fica pra trás! A primeira história – a da gula – foi a que mais gostei, por causa do final surpresa! Incrível também como todas as histórias são interligadas coerentemente. Muito bom! Só temos a agradecer a avó de Raphael Montes por ter insistindo que ele entre no mundo dos livros! O leitor agradece!

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