Triste fim

Por Lilia Moritz Schwarcz

lima

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. Lilia Moritz Schwarcz, que está escrevendo a biografia do autor, estreia a série de posts que serão publicados no blog durante todo este mês.

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Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. Esse era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro e o texto de Lima figurou na seção “Folhetim do Jornal do Comércio”; gênero que se convertera numa coqueluche da cidade. Geralmente escandalosos, os folhetins garantiam o desenrolar de tramas rocambolescas com finais diários sempre emocionante. E Triste fim não fugiria à regra. Dividido em 52 folhetins trazia três diferentes partes com desfechos “tristes”: primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público; segundo, quando há a falência do sítio do herói; e terceiro, com o personagem se voluntariando para o exército; preso e desiludido com a República.

A obra só apareceu sob a forma de livro em dezembro de 1915: praticamente 100 anos atrás. Lima pagou pessoalmente para ver a única edição de Triste fim que conheceu em vida. Em março de 1917, no seu Diário anotou: “Devo unicamente ao Lima pela impressão do Policarpo”. No ano de 1916 assim se referia à publicação: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco. Tomei dinheiro daqui e dali… Audaces fortuna juvat”. O livro representava uma cartada profissional importante para Lima Barreto, e por isso a audácia não tinha preço. Afinal, o autor queixava-se sempre da pouca evidência como escritor — nessa que era também uma República das Letras — e não se pode dizer que seu livro de estreia tenha ajudado.

Lima Barreto havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha em 1909, livro que lhe conferira certa notoriedade, mas custara também caro (e em outro sentido): nele, Lima fazia sérias críticas ao racismo vigente e denunciava a “imprensa burguesa” como o “4o poder da República”. A obra desnudava bastidores do jornal Correio da Manhã e práticas de jornalistas colegas, todos com codinomes facilmente identificáveis. Por isso, com grande dose de premonição, escrevera: “Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá”.

Lima Barreto parece ter pago caro demais, em mais outro sentido. Triste fim era livro muito mais bem-acabado do que Recordações. No entanto, era irônico e alusivo, apesar de recuar ao tempo passado. E mais uma vez o livro foi recebido com um grande silêncio. Apesar da pouca repercussão, o jornal A Época do dia 18 de fevereiro de 1916 deu na primeira página uma entrevista acompanhada de resenha favorável à obra. Entre outros, a matéria destacava o lado marginal do autor e sua origem “suburbana”. “No Rio de Janeiro, não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios: seu elemento é a rua. Pergunta-se a qualquer pessoa: “Tu viste o Lima?”. Ela responderá: ‘Vi-o hoje, pela manhã, jogando bilhar.’ (…) Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria e fomos encontrá-lo em uma brasserie.”

Mas Triste fim não era apenas mais um retrato “triste” de seu autor. Ele traduziria um pouco de tudo: o lugar marginal de Lima, a situação declinante de sua família, mas também o ambiente conturbado e a fragilidade do nosso nacionalismo. Lima recua, porém, aos idos de 1893, período em que começava a Revolta da Armada; que sacudiu o país. A circunstância não lhe poderia ser mais significativa. Foi em 1890 que seu pai, João Henrique é demitido da imprensa nacional, sob alegação de conivência com a monarquia. Por ingerências de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, poderoso político do Império, João Henrique aceita emprego como escriturário das Colônias de Alienados na Ilha do Governador. Nesse meio tempo, Lima Barreto é matriculado como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense e entra na Politécnica. Mas a calmaria duraria pouco. No ano seguinte, o presidente Deodoro da Fonseca fecha o Congresso; frente à pressão política pede demissão, sendo sucedido num contragolpe por seu vice, Floriano Peixoto.

O próprio pai de Lima seria diagnosticado como neurastênico, uma doença mental que o obrigaria a ficar recolhido pelo resto da vida. Por isso, loucura é metáfora pessoal e social para pensar o público e o privado, e a sina do país. Ajuda a pensar também no escritor, sua falta de sorte, e a pouca fortuna do nosso Estado.

Na vida pessoal, a história de Lima daria, então, uma guinada — ele abandona a Politécnica, atua como arrimo de família na condição de Amanuense do Ministério da Guerra, e muda-se para o subúrbio de Todos os Santos. Já nosso Triste fim ficaria imortalizado por conta da sua galeria de tipos impagáveis, que não se prendem à experiência íntima de seu autor. De um lado há Policarpo, “um visionário” e defensor das “coisas do Brasil”, tão pontual que servia de “relógio da vizinhança”. De outro, Floriano com seu “bigode caído; traços grosseiros, pobre de expressões, a não ser a da tristeza que não lhe era individual, mas nativa”. É também forte o contraste entre Ismênia a Olga: a primeira frágil como o pai de Lima, logo sucumbe à loucura; já Olga, afilhada de Policarpo, é a ética do major inscrita no corpo de mulher. Há também a contraposição entre o bondoso artista, Ricardo Coração dos Outros, e Genelício, empregado do tesouro que não passava de um “artista na bajulação”. Mas não existem heróis ou vilões no livro; eles são todos uns talvezes, na feliz expressão de Oliveira Lima. O general Albernaz e o contra-almirante Caldas ostentavam seus títulos com galhardia, mas nunca haviam participado de qualquer batalha. Doutor Florêncio “era mais guarda de encanamentos do que engenheiro”. E assim por diante, com cada figurante expressando seus dilemas. Ceticismo e otimismo; honestidade e contravenção; sanidade e loucura; progresso e decadência são dilemas desse momento que oscilava entre a profunda crença no futuro, o olhar saudoso para o passado, a descrença diante do porvir.

Obras como essa acabam por merecer várias redescobertas, muitas vezes relidas por questões do presente. Pensar nas ciladas do patriotismo, olhar com ceticismo para os projetos de nacionalidade, denunciar desigualdades fazem parte das muitas inspirações dessa obra, que se lê com facilidade, mas que permite várias esquinas de interpretação. Além do mais, sua crítica fina e bem-humorada não permite que o texto se torne datado. Há ironia até no nome do personagem central da narrativa. Policarpo significa aquele “que tem e produz muitos frutos”, a despeito da vida do herói não resultar em qualquer “produto”. Quaresma é também palavra de vários sentidos: significa o período de quarenta dias de jejum, que se segue ao sacrifício de Cristo; sacrifício entendido como ato de consagração, cujo desenlace pode ser triste mas igualmente fundar um pacto com a sociedade. O verbo “carpo” (que vem de carpir, chorar, lamentar) remete à ideia de tristeza, presente no título da obra. Por fim, Quaresma é também um tipo de coqueiro; essa árvore presente já nos nossos primeiros mapas seiscentistas. Policarpo Quaresma seria assim um pouco de tudo: uma espécie de Cristo ressabiado dessa nacionalidade tropical; um líder melancólico de um novo e eterno porvir. Pois livros bons são assim mesmo: não se deixam apanhar e desfazem das pistas que eles próprios deixam. Triste fim de Policarpo Quaresma faz 100 anos, cada vez mais jovem.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Lima Barreto subversivo, por Felipe Botelho Correa

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Um Comentário

  1. Rogério Marques disse:

    Sempre trazendo um texto delicioso. Obrigado.

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