We accept you, one of us

Por Maria Clara Drummond

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O primeiro beijo, o primeiro livro, a primeira festa, a primeira viagem ou ainda a primeira vez que você se sentiu parte de alguma coisa. A partir de hoje, o blog recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem relatos sobre a primeira vez em que algo importante aconteceu em suas vidas. O primeiro texto é de Maria Clara Drummond, autora de A realidade devia ser proibida, que conta sobre a primeira vez em que vivenciou o sentimento de pertencimento.

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Disseram-me outro dia que a literatura é o lugar do loser, pois bem, então estou em casa. Fora um período excepcionalmente sociável na primeira infância  lembro-me de ser uma criança alegre  todo resto da minha trajetória de vida foi marcada por um profundo sentimento de ser estrangeira a qualquer ambiente social que eu pudesse ser incluída. Desde a adolescência, na mais absoluta solidão, até a juventude, quando tentei me enquadrar nos mais diversos esquemas: de brincão e cabelo alisado trocando beijos com surfistas na Baronetti, me esforçando para parecer menos patricinha aos olhos dos indies cheios de referências da Casa da Matriz, ou à procura de alguma conversa inteligente nos salões do Fasano. A cada fase, buscava um grupo de amigos diferente, tentando me moldar às regras de aceitação vigente, emulando seus códigos, e por mais que tenha feito amigos que me são queridos até hoje, é muito difícil ser feliz quando é preciso um esforço sobrenatural para ser acolhida.

Em 2012, fui convidada para a festa de aniversário da minha amiga Bettina. Estávamos há alguns meses sem nos ver por conta da minha recente mudança para São Paulo, e por isso não conhecia nenhum dos seus amigos presentes. Em dado momento, me vi no pátio interno da casa, onde os convidados sentavam-se em torno de uma grande mesa redonda. À essa altura, eu já ensaiava algumas das características sociais que tenho hoje, como a aparente extroversão, o gestual  expansivo, a verborragia, a fala alguns decibéis acima do normal, o timing para contar algumas histórias como num palco imaginário. E disse: essa semana entrevistei Heloísa Buarque de Hollanda, a mulher que deu a festa que mudou o Brasil!

Todos olharam para mim ao mesmo tempo. Alguns soltaram uma gargalhada expressiva, e em seguida ocorreu um breve silêncio. Um dos meninos que se sentava no canto oposto da mesa, a partir do meu posicionamento no jardim, disse: continua o que você está dizendo. Achei interessante. Então continuei, muito animada, contando sobre a festa narrada no primeiro capítulo de 1968: o ano que não terminou, do Zuenir Ventura. Um dos convidados percebeu que a festa iria dar em merda quando ele pediu ao barman duas doses de whisky e recebeu, em vez de dois copos, duas garrafas de whisky! Percebendo uma receptividade até então inédita na minha vida, prossegui: o Elio Gaspari disse que, depois do réveillon da Helô, o Rio de Janeiro nunca mais foi o mesmo!

É difícil explicitar porque esse momento foi diferente dos anteriores. Talvez tenham se identificado por eles próprios frequentarem uma certa cena noturna que apreciaria o tipo de causação que eu descrevia, mas creditar somente a isso seria bobo e simplista. Acho que a estranheza inerente à minha personalidade que outrora me afastava dos demais para eles fosse bem-vinda. De repente, ser inadequado socialmente passou a ser legal, e essa percepção foi muito libertadora para mim. ­­Finalmente pude ser espontânea sem olhares recriminatórios. É bem provável que eu ainda seja bem mais inadequada que os demais, mas ao menos eu passei a me aceitar como tal, e até mesmo gostar desse meu modo meio sem-noção de me comportar na vida. Muitos que estavam presentes nesse dia se tornaram parte do meu círculo mais íntimo. Desde então, a cada dia que passa faço mais amigos, e em muitos momentos chego até a me sentir amada, o que é sempre uma vitória. Por isso considero o aniversário da Bettina como um divisor de águas. E esta foi a minha primeira sensação de pertencimento.

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Maria Clara Drummond nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, e é jornalista. Em 2013 publicou seu romance de estreia, A festa é minha e eu choro se quiser (Guarda-Chuva) e em 2015 lança A realidade devia ser proibida pela Companhia das Letras .

Um Comentário

  1. Rui Dias disse:

    Gosto dos seus textos Maria Clara.
    Essa questão da sensação de pertencimento é muito importante. Obrigado.

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