A primeira vez em Nova York

Por Alexandre Vidal Porto

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Nesta semana, Alexandre Vidal Porto, autor de Sérgio Y. vai à América, conta como foi a primeira vez em que esteve em Nova York.

* * *

Meu irmão caçula tinha morrido um dia antes do meu aniversário de 15 anos. Não me lembro de ter sofrido muito. Mas meus pais acharam que eu precisava de uma compensação.

Numa manhã de sábado, no final do mês de junho, eles voltaram de uma ida ao shopping com folhetos e prospectos turísticos nas mãos. Soube, então, que passaria 14 dias na Flórida, entre montanhas-russas, baleias orcas e personagens de Walt Disney.

Em minhas fantasias, eu queria visitar a Escandinávia ou a Capadócia. Foi frustrante ver meus pais acharem que passear na Disney estaria de acordo com minha maturidade e meus interesses.

Mas os pais infantilizam os filhos. E, mais importante, o roteiro que eles escolheram era o mais barato da agência. Meu ressentimento durou minutos. Abracei a viagem com entusiasmo. Era a primeira vez que eu sairia do Brasil.

Eu embarcaria para Miami no dia 3 de julho. Meus pais haviam decidido tudo em cima da hora. Foi tudo feito às pressas.

Combinou-se que, no dia da viagem, um representante da agência nos encontraria no aeroporto com o bilhete aéreo e meu passaporte visado para os Estados Unidos.

Assim foi feito. Na data e hora designadas, encontramo-nos. Ele me passou o bilhete e o passaporte. Disse-me, na frente dos meus pais: “você vai embarcar no voo XYZ da PanAm, para Miami”.  Havia outro garoto, um ano mais jovem que eu, na mesma situação. Chamava-se Rogério. Despedimo-nos de nossas famílias e seguimos juntos para o embarque.

O avião era um Jumbo 747. Eu havia viajado em Caravelles e Boeings 727. Nunca tinha visto nada tão grande. Torcemos para que nossos assentos fossem no andar de cima do avião, mas não tivemos essa sorte.

Mas tivemos outra.

Sentamos lado a lado nas poltronas centrais.  Eu prestava atenção a tudo. Ali dentro, tudo parecia melhor.  Não sei se toda a excitação que eu experimentava me terá deixado dormir direito, mas, na manhã seguinte, um pouco antes da aterrissagem, o chefe de cabine anunciou pelos alto-falantes que, em minutos, pousaríamos no “Aeroporto John F. Kennedy, em Nova York“.

Nova York não fazia sentido. Por um momento, pensei que poderíamos ter dormido e esquecido de descer em Miami. Também cogitei a hipótese remota de que NY fosse apenas uma escala no voo para nosso destino final.

Chamei a aeromoça, e ela me confirmou que o destino final do voo era NY.

“Mas nós vamos para Miami. O roteiro de nossa viagem não incluía Nova York”, disse-lhe com autoridade adolescente.

Ela pediu para ver nossos bilhetes. De acordo com as passagens aéreas, estávamos no voo correto. Vínhamos mesmo para Nova York. O agente de viagem em São Paulo havia cometido um engano.

Aquela parada em Nova York nunca havia sido cogitada. Não sabia o que fazer.  Senti medo.

Éramos menores desacompanhados. A aeromoça parecia preocupada. Enquanto respondia suas perguntas, por cima de minha blusa, apalpei o dinheiro que trazia contra o abdômen, numa barrigueira.

Quando pousamos, fomos levados para a dianteira do avião e desembarcamos antes dos demais. Uma agente nos esperava na porta do avião e nos conduziu até um balcão da companhia aérea, ainda antes da imigração. Lá, outro agente, contratado pela agência turística brasileira, nos esperava com mais 3 ou 4 passageiros na mesma situação.

A agência, de fato, havia cometido um engano. Seríamos redirecionados para Miami no final da tarde. Até lá, faríamos um city tour por Nova York, nos disseram. Subitamente, a viagem ganhara um upgrade.

Lembro-me pouco dessa viagem, mas, dos 14 dias, as memórias mais vívidas que tenho são das poucas horas que passei em Nova York. Eu me lembro do dia de sol, do cachorro quente que comi na frente da ONU, da Estátua da Liberdade vista ao longe e de edifícios tão, tão altos, que pareciam não ter fim.

A visão desses arranha-céus numa viagem inesperada me deu um sentido de possibilidade que, até hoje, décadas depois, eu carrego comigo.

Armando, narrador do meu livro Sergio Y vai à América, fala disso:

“Eu andava pelas avenidas da cidade olhando para o alto, virando a cabeça, sem conseguir ver o topo dos edifícios, acreditando que as minhas possibilidades no mundo, assim como os prédios de Nova York, chegavam ao infinito, nunca tinham fim. Era este sentimento renovado que, ao longo dos anos, eu buscava em meus passeios a esmo pelo quarteirões de Manhattan. “

E eu, Alexandre, também.

* * * * *

Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo, em 1965. Diplomata e mestre em direito pela Universidade Harvard, é autor de Matias na cidade (2005) e Sergio Y. vai à América (2014).

3 Comentários

  1. Claudia Bonotto disse:

    Muito interessante o sentido de possibilidade que você encontrou nessa sua experiência e adotou para a sua vida. Outra coisa que se pode perceber é que graças a que a Disney lhe parecia tão frustrante é que um city tour por Nova York foi tão prazeroso. São os dois lados da moeda. Você extraiu sua paixão por Nova York de sua desilusão com a Disney. E tanto uma quanto outra viagem trouxeram coisas boas para você. Um abraço e muito obrigada por compartilhar!

  2. Que relato pitoresco, interessante e aventureiro!!! disse:

    Os acasos nos trazem na maioria das vezes grandes casos, que torna-se grandes histórias dignas de serem partilhadas em canários novos e bem distantes de seus velhos tempos!!! Amei!!!

  3. Gostei muito do relato.
    E as imagens que viram naquela viagem fora do roteiro, deixou marcas.

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