A primeira vez que traí um personagem

Por Mauricio Lyrio

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. No post de hoje, Mauricio Lyrio, autor de Memória da pedra, fala sobre sua primeira experiência cara-a-cara com o leitor em um clube de leitura.

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Com o primeiro livro publicado, podem vir outras iniciações, e foi assim que participei pela primeira vez e como autor de uma sessão de um clube de leitura.

A Companhia das Letras tinha lançado, em 2013, um romance meu, Memória da pedra, e algum tempo depois me convidou para participar de um clube de leitura em Brasília. Os integrantes leriam o romance ao longo do mês e, no dia marcado, eu conversaria com eles sobre o livro.

No palco do auditório da livraria, sobre as cadeiras dispostas em círculo, a atmosfera era de simpatia e gratidão, pela suposta generosidade do autor de se materializar num clube acostumado a discutir autores que não podiam estar presentes, por pertencerem a outro continente ou mesmo a outro século.

Ao longo das primeiras interações tudo transcorreu de maneira suave, como deve ser: discussões sobre o processo de escrita, a origem dos personagens e situações, as ideias por trás, a razão para esta ou aquela solução da história.

Já estávamos no terço final quando uma senhora até então calada levantou o braço para falar. Tinha uma voz muito segura, quase o tom de uma tutora, o que contrastava com os olhos pregados no livro aberto em seu colo. Fez alguns elogios protocolares e logo foi ao ponto que parecia lhe interessar: por que diabos eu tinha feito aquilo com o Romário no final?

No romance, Romário é um menino de rua que passa a morar com um casal de classe média alta do Rio de Janeiro. Ao cabo, faz algo grave supondo ser um gesto de retribuição e solidariedade.

Expliquei que uma solução mais solar para o personagem faria do livro um romance social edificante, o que jamais tinha sido minha intenção.

Balançando a cabeça de um lado a outro, os olhos nunca dispostos ao contato, a senhora disse que o final era cruel. Romário não merecia aquilo. Por sua trajetória, pelos afetos desenvolvidos.

Ponderei que não havia crueldade. Afinal no horizonte das páginas em branco do romance, em seu futuro oculto, o personagem continuava vivo. Não morreu nem sofreu qualquer dano físico.

Não morreu, mas fez algo horrível, ela retrucou. Perguntou o que eu tinha contra o rapaz.

Respondi que lhe tinha dado uma vida, ficcional ao menos. Não era uma prova de afeto. Mas tampouco era um indício de perseguição.

Não sei se ela disse que eu não tinha o direito de dar a alguém uma vida se era para desdobrá-la daquela maneira. Talvez tenha dito, ou imaginei depois. A frase passou a integrar a memória daquele diálogo.

Saí do clube de leitura ao mesmo tempo contente e intrigado. Contente por ter despertado numa leitora certa paixão sobre o comportamento de um ser que não existia para além das páginas do romance. Ela argumentava como se uma vida estivesse em jogo.

Intrigado, no entanto, por aquela curiosa disputa de apropriação dos rumos de um personagem. Em que momento o personagem acompanhado por um leitor ganha uma segunda vida ao refletir os sentimentos, valores e expectativas deste novo “autor”? Ou em que medida um personagem requer um desenvolvimento particular, numa direção específica, movido de maneira consistente por uma suposta essência, que se manifesta e reforça a cada ato e pensamento seu? Coerência psicológica vale mais do que a concepção estética do que deve ser uma obra de ficção? Talvez minha interlocutora estivesse correta ao sugerir que eu havia traído os desejos de libertação e curso autônomo do personagem, ao amarrá-lo à minha visão do que deveria ou não deveria ser aquele romance.

Veio à mente a resposta de Vladimir Nabokov quando lhe perguntaram o que achava da tese de E. M. Foster, hoje um tanto gasta, de que, no ato de se escrever um livro, os personagens podem ganhar vida própria, se apoderar da trama e ditar seu curso.

Com a mordacidade usual, Nabokov alegou que até simpatizava com os personagens do inglês em seu desejo de fuga dos lugares onde Foster os metia, mas no caso dele a história era diferente. Meus personagens são “galley slaves” (galeotes  escravos remadores de galé), dizia o russo.

Talvez eu não tivesse por que discordar.

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Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York. Seu primeiro romance, Memória da pedra, recebeu menção honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2010 e foi 2º lugar no Prêmio José de Alencar 2014, da União Brasileira de Escritores.

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