Cheirar e tocar o livro — ou o editor é apenas um parteiro

Por Luiz Schwarcz

luiz3
Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Com apenas dois textos publicados nesta nova série “Livre editar”, sinto como se já tivesse usado recursos simbólicos à exaustão. Me perdoem, mas vamos lá, eu continuo! Como escrevi no post anterior sobre a propriedade do livro, vale lembrar mais uma vez da imagem tão conhecida do casal que se separa e aparece encaixotando seus livros, cada um debruçado sobre sua caixa de papelão, como no filme Kramer vs. Kramer, Dustin Hoffman de um lado, Meryl Streep do outro. Ou então de um recém-desquitado, cantando para si mesmo: “Devolva o Neruda que você me tomou”. São situações que mostram o quanto somos apegados fisicamente aos nossos livros, e não só ao modo como os guardamos em nossa memória ou imaginação. O livro eletrônico, não sendo palpável, sem cheiro nem cor, rompe um pouco com essa lógica. Mas seu crescimento estancou mesmo nos países onde mais se vendem e-books. Chegou a 30% do mercado e parou por aí. Talvez tal fato queira dizer algo sobre o apego ao formato tradicional do livro, ao papel, que permite o encontro com a tinta, do qual lembramos remotamente a cada página que viramos, ou por vezes após passar o dedo nos lábios ou na ponta da língua…

Por isso também a edição de um livro permite tantas metáforas relacionadas ao parto de uma criança. O tempo de escrita, que, por menor que seja, é longo, feito de meses; a solidão do escritor semelhante à da mãe, que carrega sozinha o bebê em sua barriga; e esse aspecto corpóreo, que faz com que, mesmo tendo visto as provas do livro, desejemos intensamente vislumbrar sua cara final — tudo isso contribui para que esperemos um livro como aguardamos um filho.

Muitos não sabem ou imaginam que os editores, boa parte deles, ao receberem um livro da gráfica, cheiram o objeto e apalpam suas páginas, roçando o dedo nas primeiras páginas de maneira — guardados os devidos exageros — quase erotizada. Sim, os livros têm um cheiro e um toque especiais ao chegarem, recém-empacotados, da máquina de impressão.

Antigamente, muitos livros tinham sua integridade garantida pela cola e não pela costura entre as páginas, e por isso carregavam um cheiro mais intenso ainda. Se mal aplicada, ela vazava grosseiramente para as páginas, deixando marcas fortes.

Lembro de sentir seu cheiro em muitos livros da Brasiliense, ou em me preocupar com a eficiência da sua aplicação, mais barata que a costura. Os livros colados, no começo da minha atividade como editor, “desmilinguiam” em futuro breve, causando transtorno aos leitores.

Creio que na Companhia das Letras sempre usamos a linha. Mas em todo caso, seja cola ou costura, ambas garantem um aspecto fundamental do livro: sua unidade. O livro é sempre um todo, mesmo sendo feito de contos ou poesia, é sempre um conjunto absolutamente singular e fechado. Formado por um tema, por uma fase da vida do escritor, por uma trama ou por uma intenção. É indivíduo ou individualizado. Tem nome, abertura e ponto final.

Cheirar a cola das edições recém-nascidas, ou sentir o odor da costura aplicada a quente no livro; buscar com o olfato o cheiro da tinta ainda fresca aplicada no papel; abrir as páginas do novo “rebento” recém-embalado e manuseá-lo pela primeira vez, são prazeres que aprendi com Caio Graco, o primeiro editor com quem trabalhei. Mas vi Jorge Zahar fazer o mesmo, com idêntica expressão de prazer. Vejo Elisa Braga, responsável pela produção dos livros da Companhia das Letras quase desde sempre, verdadeiro coração da editora, fazer o mesmo gesto ainda hoje, com mais de 4000 livros publicados em nosso catálogo. Além de mero costume de velhos editores, o cheiro e o tato do livro têm muito a nos dizer. Falam também da natureza da profissão do editor, o parteiro e nunca o pai ou a mãe das edições. Não há orfandade possível no mundo editorial. Um livro pode até ser renegado, no futuro, por seu autor, mas tem DNA inescapável, e conta conosco, editores, como meros auxiliares para que venha à luz. Editores são canais entre os dois polos que realmente interessam, caro leitor e caro escritor.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal sobre livros e o trabalho editorial.

7 Comentários

  1. […] já sabem o que penso sobre o aspecto tátil do livro. Num dos primeiros posts desta série, falei sobre o momento em que um editor recebe o livro da gráfica e o cheira. […]

  2. Júnia Maria Albuquerque disse:

    Para mim, é quase automático e mostra a paixão que sinto pelos livros, tocá-los, cheirá-los, folheá-los e por fim suspirar de prazer ao começar a lê-los.

  3. RobertoEscritor disse:

    Prezado Luiz,
    Seus devaneios de editor o conduzem a situações nas quais o livro deixa de ser papel e tinta e passa a ser a extensão de um sentido químico animal, apreciado de forma intensa por cada uma das 20 milhões de células que constituem o epitélio olfativo humano, animando a psique a ponto de deleitar-se com o que, para muitos, dar-se-ia como atitude banal. Mas não observo a liberdade tão idealizada nesse “livre editar” em seu catálogo, não por sua culpa talvez, até porque a tão sonhada “Liberté, Egalité, Fraternité” mesmo na França está sob duro golpe. Oxalá houvesse tamanha liberdade na prática editorial de praxe, e as edições criadas como satisfações ao mercado fossem banidas para o lixo ou impedidas de passarem porta adentro. O papel, a tinta, a agulha de costura pouco se importam com o texto expresso entre letras, palavras e linha após linha. Eles apenas cumprem papeis formais, mas poderão excitar o olfato de igual maneira. Cabe ao Editor eximir-se do silêncio, do papel de franco atirador, e apontar sua carabina de fino calibre para alvos que tenham sido resultado de experiências vivas (não tão fáceis de acertar). Daquelas que antes mesmo de tornarem-se tinta tenham cumprido a dolorosa missão de experiências de sangue. Sei que você é bom nisso! Mas quando você terceiriza essa caça a quem ainda não aprendeu a valer-se do olfato acima da traiçoeira visão, todo o processo retorna para a animalidade, e muitos livros serão apenas tarefas mecânicas de composição.

  4. Perfeitamente identificado com seu objeto de desejo, Luiz! Prefiro livros palpáveis também, onde posso escrever, colocar meu nome, personificar meus companheiros. São como filhos que se cria aos poucos… Abraços!

  5. luiz schwarcz disse:

    Fátima obrigado por seu comentário simpático mas aguarde, o infinito ainda vem por aí…

  6. fatima pombo disse:

    Nossa, eu não queria que acabasse, leria até o infinito…
    Eu adoro cheirar livros. Todos, novos ou os de sebos. E em especial os mais antigos que tinham o papel meio duro, crocante…

Deixe seu comentário...





*