De Malkuth a Kether com David Bowie

Por Ana Maria Bahiana

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David Bowie por Masayoshi Sukita, 1977.

Por onde começar?

Talvez por aquela tarde de primavera em Nova York, 1993 quando, sem querer, andei de limusine com ele. Eu e uma das minhas maiores (senão a maior) amiga que tive, tão fã dele quanto eu, e desfrutando da posição privilegiada de trabalhar para a gravadora EMI, que distribuía seus discos na época. Estávamos as duas lá para uma série de eventos marcando o lançamento do álbum Black Tie White Noise — uma apresentação num hotel para os manda-chuvas, seguida de um show ultra exclusivo num clube, a poucas quadras dali.

Terminada a parte burocrática do evento, minha amiga e eu estávamos na porta do hotel, onde uma van da gravadora deveria nos pegar para o traslado ao clube. Era um desses dias lindos em que Nova York parece que saiu de um filme de Woody Allen especialmente para nosso deleite, e nós duas, entretidas com um bom papo, sequer notamos que van alguma aparecia. Em seu lugar, um cortejo de limusines com cartazetes no para-brisa com o nome da gravadora, claramente destinadas aos VIPs. De repente, uma delas para bem em frente a nós, e a porta se abre. “Ah, vamos nessa mesmo”, diz minha amiga, uma escorpiana impacientíssima.

Entramos assim no galope, nos ajeitamos, a porta se fecha. E aí ouvimos uma voz muito, muito conhecida: “Well… Hello, ladies!”

Pois é. Tínhamos entrado na limusine de David Bowie.

Depois de alguns segundos de queixo caído, pedidos de desculpa e ameaças de sair da limusine, percebemos que sim, iríamos até o clube com ele. Um cavalheiro. Terno cinza, camisa branca, bem humorado com a confusão, ele queria saber quem éramos, qual nosso trabalho, se morávamos em Nova York. Falou de seu amor por Nova York, de como se sentia aos 46 anos — “empolgado, com muitas perspectivas” —, quis saber se tínhamos filhos (tínhamos, temos — garotos, nascidos com meses de diferença, ambos adolescentes àquela altura. Ele riu: “e nós sabemos como isso é difícil, não?”).

O traslado, infelizmente, foi curto. Chegamos ao clube, ele entrou por uma porta, nós por outra, e rapidamente assumimos de novo nossos papéis de astro e plateia.

Mas não. Vamos começar por outro ano terminado em 3 — 1973 —, quando finalmente comprei, com meu suado dinheirinho, meu primeiro álbum de David Bowie: Aladdin Sane. Meses depois eu compraria Pin Ups, e aí não pararia mais. Foi aí que virei loura e passei água oxigenada nas sobrancelhas, uma experiência que não desejo a ninguém e que me transformou não na bowiette que eu esperava ser, mas em algo saído de um filme de David Lynch. Não durou muito tempo, felizmente.

São rituais de iniciação, esses desastres. Os artistas de real talento estão em contato com o divino em todas as suas formas e nós ansiamos por incorporá-los, na tentativa — ele cantaria isso três anos depois, ao contrário, em “Station to Station” — de ir de Malkuth a Kether, do Reino profano à Coroa transcendental.

Rockstars são uma multidão, mas Bowie nunca foi totalmente um deles. Ele esteve um deles. Para mim, a adolescente complicada que, como o personagem de “Lazarus”, tinha cicatrizes que não podiam ser vistas (e algumas que podiam ser vistas), Bowie significava o potencial da Arte transformando a Vida. A possibilidade de ser algo mais, algo além, usando os materiais incoerentes, às vezes toscos, de nossa próprias existências.

Outros rockstars funcionavam (e ainda funcionam) para mim como bardos, extravasando raivas, animando os espíritos, açulando a libido. Bowie era e é o Mago — aqui estou eu, imperfeito como você, confuso como você, buscando a mim mesmo através das máscaras que crio com meu corpo, com minha voz, com minha música. Sou um homem e sou uma moça, sou um alienígena e sou um junkie, sou um rockstar e sou um poeta, sou um palhaço e sou um anjo, de Kether a Malkuth, estação a estação, movido por um daemon, por uma fagulha, que ainda não tem nome.

O fato da vida de David Robert Jones ter sido uma baderna de ideias, experiências, paixões e erros fenomenais nunca foi importante para mim. A vida de David Bowie, que era também sua arte, foi perfeita como é perfeita uma escultura clássica ou o salto do atleta ainda em voo: todo o esforço se cristalizou em algo maior que a carne, a voz, as ideias. Isso era o que ele me dizia, lá em 1973, o que continuou me dizendo depois do nosso encontro (com Bowie? Com Jones?) e que nunca vai parar de me dizer enquanto eu também estiver por aqui. A transcendência é possível, aqui mesmo, naquilo que fazemos, se o fizermos com coragem, com amor e com devoção. A busca é o fim, de estação a estação.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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2 Comentários

  1. Helio Jenne disse:

    Sou adorador do Bowie desde o dia que ouvi Five Years pela primeira vez, em 1972. Estava na casa de um amigo quando ele abriu as portas do paraíso (um armário com a sua modesta coleção de discos que ocupava a parede inteira do cômodo) e veio com o “The Rise and Fall of Ziggy Stardust” nas mãos. O disco que mudou a minha vida. Não consegui voltar para a piscina onde a festa continuava a rolar até acabar a última faixa daquele LP importado da RCA que sugeria “To be heard at the maximum volume”.
    Desde então virei um fiel seguidor do David Bowie.
    Parabéns pelo blog e repetindo a forma como DB costumava terminar seus textos, “Love on You”.
    Scubi

  2. David Bonfim disse:

    Desde que lia sua coluna no extinto Jornal de Musica, Pipoca Moderna, alem de fã de rock eu era seu fã. Adorava suas expressões tipo quando gostava de album, voce dizia que era gostoso como um bolo. Nunca me esqueço. E claro sempre sua posição do que gostava e o que nao gostava. Gostava dos Stones mas nao curtia muito o Genesis. Respeitava os Mutantes sem a Rita, e o Ezequiel execrava.
    E sempre as criticas maravilhosas sobre os trabalhos do Bowie. O primeiro contato com a musica do Bowie que tive foi com o compacto do Aladin Sane. Que tinha Lady Grinning Soul e Let’s Spend the Night together no lado B. Fiquei chapado. Ai nao parei mais. Depois comprei todos e tive que importar alguns, uma vez que muitos albuns nao tinham sido lançados no Brasil.

    Ana, adorei isso que voce escreveu sobre o Bowie. Achei engraçado e claro a gente se toca que ele ja foi pra o andar de cima.

    Keep up the good work. I am fan.
    Te mandei um friend request no face.
    Abraços
    David Bonfim

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