Manual de estilo de Raymond Chandler

Raymond Chandler

Raymond Chandler (1888-1959) é um dos escritores mais originais do romance policial. Ele aprimorou elementos clássicos do gênero: o detetive durão e solitário; a loura fatal; o crime intrincado; a cidade violenta, de policiais corruptos e milionários alcoólatras. “Chandler não inventou o gênero do policial hard-boiled”, escreve Braulio Tavares, tradutor de seus livros no Brasil. “Deu-lhe uma dimensão humana e psicológica que o gênero praticamente desconhecia até então, e um brilho verbal que acabou se incorporando ao modo de escrever de seus seguidores.” Era um mestre na linguagem, sobretudo nos símiles, nas comparações, nas imagens inesperadas.

“Ela gargalhou até se acabar, sem fazer mais barulho do que alguém faria partindo uma baguete”, escreve Chandler em certo momento de Adeus, minha querida. Uma das garotas fatais de O sono eterno entra no cômodo em que está Philip Marlowe, o detetive-narrador, “vestindo um pijama cor de pérola com as bordas de pele branca, que flutuavam em volta dela como um mar de verão roçando as praias de uma ilha privativa”. Roger Wade, o escritor bêbado e irascível de O longo adeus, observa “como um cavalo olhando por cima de uma cerca” enquanto Marlowe passa pela sala.

Reunimos aqui alguns desses achados linguísticos. Traduzidos por Braulio Tavares, aparecem nos quatro principais romances de Chandler publicados pela Alfaguara: O sono eterno, Adeus, minha querida, A dama do lago e O longo adeus.

Homens

  • Perigoso como um esquilo.
  • Mole como um prato de mingau frio.
  • Matreiro como Richelieu por trás da tapeçaria.
  • Nervoso como um muro de tijolos.
  • Charmoso como uma cueca de metalúrgico.
  • Expressivo como um sarrafo de madeira.
  • Mais frio do que os pés de Finnegan no dia em que foi enterrado.
  • Nervoso como uma viúva que não consegue encontrar o toalete.
  • Tão honesto quanto é possível a um homem num mundo onde ser honesto está fora de moda.

* * *

  • Careca como um tijolo.
  • Barrigudo como todos os homens musculosos ficam na meia-idade.
  • Magro como um arame.
  • Esguio como um chicote.
  • Pesado como um bloco de cimento.
  • Calmo como um muro de adobe à luz do luar.
  • Tão difícil de avistar quanto o Dalai Lama.
  • Grosso como uma porta de cofre.
  • Duro como uma tábua.
  • Magro como um ancinho e duro como o gerente de uma casa de agiotagem.

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  • Verde como o verso de um dólar novo.
  • Esgotado como um pedaço de barbante mastigado.
  • Cansado como um jantar mal digerido de um pé-sujo qualquer.
  • Animado como um papa-defunto num enterro pobre.
  • Vazio e oco como os espaços entre as estrelas.
  • Silencioso como um arrombador atrás da cortina.
  • Fungando como um cachorro que não consegue terminar seu almoço.

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Mulheres

  • Linda como uma calcinha rendada.
  • Loura daquelas de fazer um bispo quebrar um vitral com um pontapé.
  • Calma como uma tigela de creme.
  • Delicada como uma calçada.
  • Nua e cintilante como uma pérola.
  • Tão platinada que seu cabelo brilhava como uma fruteira feita de prata.
  • Mais fácil de levar pra cama do que uma almofada.
  • Chateada como um vereador com caxumba.
  • Remota e límpida como água da montanha.

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Odores

  • Tão forte que dava para construir uma garagem em cima dele.

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Olhos

  • Cintilantes como luzes em águas paradas.
  • Duros como uma ostra numa concha aberta.
  • Tão saltados das órbitas que pareciam estar montados em pernas de pau.
  • Como os de um entomologista olhando para um besouro.
  • Fechando-se como uma cortina vagarosa num teatro.
  • Confusos como um cavalo que errou de estábulo.
  • Estreitos como um brilho verde e distante, como uma lagoa perdida entre as árvores da floresta.

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Estrada

  • Monótona como uma cantiga de marinheiro.

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Lago

  • Imóvel como um gato adormecido.

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Ondas

  • Encapeladas e espumosas, quase sem som, como um pensamento tentando se formar lá nas bordas da consciência.

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Brilho do sol

  • Tão forte que parecia dançar.
  • Tão vazio quanto um sorriso de maître d’hotel.
  • Tão claro e seco quanto uma dose de velho xerez pela manhã.

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Voz

  • Dura como uma bisnaga.
  • Falsa como os cílios de uma atendente e escorregadia como uma semente de melancia.
  • Dura como a lâmina de uma pá.
  • Arrastada como um homem doente se levantando da cama.
  • Soando como um editorial que esqueceu a própria tese que pretendia demonstrar.

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Comida

  • Com o gosto de uma sacola de carteiro jogada fora.
  • Saboroso como um pedaço de camisa velha.

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Sorriso

  • Como uma galinha com soluços.
  • Mais velho do que o Egito.
  • Duro como um peixe congelado.
  • Ardiloso como uma ratoeira quebrada.

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Tempo

  • Se arrastando como uma barata doente.

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Desfecho

  • Tão mortal que chega a ser engraçado.

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28000053 - Adeus minha querida_capa_V3.inddADEUS, MINHA QUERIDA
Sinopse: 
Durante um de seus casos de rotina, o detetive Philip Marlowe se envolve acidentalmente com “Moose” Malloy, o Alce, um brutamontes cruel que acabou de sair da prisão. Malloy está disposto a tudo, até matar, para encontrar Velma, uma cantora de cabaré com quem manteve uma relação oito anos antes. Em paralelo, o investigador se vê no meio de um caso de chantagem e assassinato, ligados ao roubo de um colar de jade. Entre videntes charlatões, milionárias insaciáveis e gângsteres implacáveis, as duas investigações aos poucos se ligam numa trama só, entremeada de violência e corrupção, bem ao contrário das histórias policiais clássicas, onde o mordomo é quase sempre o culpado. “Não é esse tipo de história”, diz Marlowe. “Não é elegante e não é engenhosa. É sombria, e cheia de sangue.”

Adeus, minha querida já está nas livrarias.