O inferno são os outros (online)

Por Luisa Geisler

internet

Trecho do vídeo “This video will make you angry”. 

Eu não gosto de escrever pra internet.

Pronto. Falei.

Por mais que seja uma frase vaga, há precisão: eu não odeio escrever pra internet. Mas não gosto.

(Mas, por favor, Blog da Companhia das Letras, siga aceitando meus posts, por favor, por favorzinho, meu cachorro precisa operar a hérnia.)

E, não me entendam mal, eu gosto da internet. Gosto tanto da internet que não só tenho Snapchat como gosto dele. E, não, não é só pra nudes. Mas escrever pra internet é “o inferno são os outros” elevado na quinta potência.

Em 2014, o portal National Public Radio postou uma piada de Primeiro de Abril. As manchetes e linhas iniciais eram algo como “Por que pessoas nos Estados Unidos não leem mais? Cerca de 80% dos leitores comenta em notícias sem passar da terceira linha”.

Na quarta linha da notícia, o texto falava que aquele dado era uma mentira de Primeiro de Abril. Pedia-se que não se revelasse nos comentários que a informação era falsa. Isso permitiria que apenas as pessoas que leram as três primeiras linhas comentassem.

Em resposta, os comentários partiam de ideias simples como “nós, pessoas que lemos e nos preocupamos com a informação, sabemos que é um absurdo…” até culpar os imigrantes. Todos que não tinham passado da terceira linha expressavam sua revolta sobre essa população que não lia e ficava o tempo todo nas redes sociais, mal informados.

Bem-vindo ao inferno.

Não culpo os “leitores da internet” num maniqueísmo abobado. Faço essa leitura. Confiro a manchete, passo os olhos. Às vezes, quando começo a gostar de um artigo, compartilho sem ler o final e depois volto. Ou não volto. Ou não gosto do autor e não leio. Cometa um sincericídio aqui comigo: você faz isso também.

Não falo de todos os sites e todos os artigos, mas uma maioria. Mas não se lê muito na internet. Ou se lê e não se interpreta. Ou existe uma massa de pessoas “de zuera” na internet. Ou todas as anteriores. Para coroar, o que mais se lê na internet (ou pelo menos, mais se compartilha) é ódio. O que faz o dedo do “compartilhar” coçar é… raiva, revolta. E antes que você diga que estou tirando da minha cabeça, confiram o artigo “What Makes Online Content Viral?”, de Jonah A. Berger & Katherine L. Milkman, da University of Pennsylvania. Se um artigo é muito longo ou muito tempo, existe um vídeo que resume muito bem: o “This Video Will Make You Angry”.

É por isso que certas pessoas de quem ninguém gosta seguem na televisão ofendendo todo mundo. Ironicamente, se eu fizer um texto dizendo que Machado de Assis era um imbecil, ele vai ser mais compartilhado que este aqui. Ta-dã (visualizem aqui umas jazz hands).

Mas a gente não deveria compartilhar o que causa ódio? Eu não tenho que denunciar o comentário homofóbico do Malafaia? Meu ponto não é esse. Digo isso explicitamente porque compartilhar ou não compartilhar (eis a questão) é um outro debate. E não cabe aqui (já passei de três mil caracteres).

Meu debate é que escrever pra internet requer colocar as frases em ordem com cuidado. Porque qualquer frase pode ser mal interpretada. Pode ser tirada de contexto. Pode viralizar porque o remix com “Asereje” ao fundo fica engraçado pra caramba. Ou, o pior de tudo, pode não ser lida e ficar flutuando num vácuo maior que meu vazio existencial.

A literatura se constrói na interpretação. A possibilidade de contar com o leitor: sim, aquele subtexto é, na verdade, um histórico anterior subentendido. A falta de imediatismo que uma narrativa longa propõe — inclusive a trava de tempo que ela oferece naquele momento — me encanta. O que diabos são “olhos de ressaca”? Pois então. Agora imaginem “olhos de ressaca” e uma imagem do Minions da Zuera ao fundo.

Não gosto de escrever pra internet. Mas vou seguir no Twitter, no Instagram, no Facebook, no Snapchat, no Tumblr, no Reddit. Afinal eu gosto da internet.

Só que gosto bem mais de literatura.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

6 Comentários

  1. Richardson disse:

    Ola… Gostaria de lhe enviar textos pra você ler. Oque acha se tiver tempo pra mim me responde pra eu mandar. Abraços

  2. Jorge disse:

    Boa, Luisa. E sobre o que tu disse da interpretação, tenho a impressão que qualquer texto, por mais cuidadoso que tenha sido ao ordenar as ideias, pode ser mal interpretado, não por causa do autor, sem dúvidas – e mesmo que tenha sido lido por completo. Depois de um diálogo com pessoas bem diferentes, às vezes é absurdo o que resta como ideia do que foi dito por um dos interlocutores. Faço essa testagem todo dia: “o que tu acha a respeito do que eu disse?”. E surgem coisas irreconhecíveis, monstros advindos de uma interpretação manca (que ao contrário da estética e método de criação filosófica que Gilles Deleuze cita, não se cria nada que o valha). Uns apressadinhos querem solução depois de qualquer problematização, e eu não saberia apontar nada, por enquanto. Não acho nem que deveria ser procurada com urgência. Justamente porque ninguém para pra curtir aquela sensação de arroubo que um bom texto causa. Sei lá. Parece que odeiam, xingam, fazem memes e vão comer alguma coisa bem calórica pra se sentirem acarinhados e preenchidos.

  3. Sabrina M disse:

    Não gostei. Pronto, falei.

  4. Marina Lda froes disse:

    Viajei lendo seu texto, muito bom.

  5. Santiago disse:

    Compartilhado após uma leitura dinamica haah

  6. Camille disse:

    Deixe-me humildemente admitir que, antes de terminar de ler, estava gostando tanto que compartilhei no facebook. Depois voltei para terminar. Quando voltei, estava exatamente nesta parte:

    “Não culpo os “leitores da internet” num maniqueísmo abobado. Faço essa leitura. Confiro a manchete, passo os olhos. Às vezes, quando começo a gostar de um artigo, compartilho sem ler o final e depois volto. Ou não volto. Ou não gosto do autor e não leio. Cometa um sincericídio aqui comigo: você faz isso também.”

    Não teve como não me identificar. Principalmente com o final. Prefiro literatura, mas sem dúvida estou em todas as redes sociais (ou quase todas, não sei como gostar do snapchat)

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