O maior acontecimento

Por Leandro Sarmatz

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Como o futebol, o carnaval não parece tão bem representado assim em nossa literatura. Digo: pelo espaço ocupado na nossa vida cultural e emocional, ambas manifestações parecem tímidas quando vamos contabilizá-las em páginas literárias. A grande festa escapista dos brasileiros — com raízes deitadas em tempos e lugares longínquos — se mostrou muito pouco presente até hoje em nossa melhor literatura. Festa total, que exorciza a morte, embaralha gêneros, desconstrói convenções e promove a amnésia coletiva — que melhor ocasião do que essa para escrever algo vertiginoso e potente?

Vejamos. Tem o conto “Antes do baile verde” (no livro de mesmo nome), de Lygia Fagundes Telles. O romance de estreia de Jorge Amado, O país do carnaval (e Dona flor e seus dois maridos, também do baiano), além da obra-prima do conto que é “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, e textos curtos de Clarice Lispector e Sérgio Sant’Anna (este no recente e formidável o O homem-mulher). Mas por que a festa popular conta com tão poucas representações na ficção? Bem. Oswald de Andrade, que por sinal vai começar a ter suas obras publicadas por aqui em breve, tem alguns insights absolutamente geniais sobre os dias de orgia. Assim como Manuel Bandeira, que em alguns poemas retrata a festa sob o signo de uma melancolia sexual meio escapista, e Drummond, com a metafísica momesca de “Um homem e seu carnaval”, em Brejo das almas. Mas não vai muito além disso (não que seja pouco, muito antes pelo contrário!). Que o leitor me ajude na lembrança, mas confesso que não me recordo de outros grandes momentos literários sobre a folia.

Claro. Música, cinema e novela são pródigos em apresentar a visão mais eufórica dos festejos de momo.  A canção, por motivos óbvios. Sem falar que as marchinhas de outrora eram todo um sistema dentro da indústria fonográfica nacional. Além de outras bossas. Porque muito da nossa sensibilidade, do nosso ethos, foi moldado por elas, rainhas da saudável sacanagem. São o depoimento de um tempo (anos 30 a 60) e de um lugar (o Rio de Janeiro), mas falam pelo Brasil inteiro até os dias de hoje, tanto no seu melhor (a graça descompromissada) quanto no seu pior (o preconceito de algumas letras). Cinema e TV, pelos atributos — digamos — plásticos do acontecimento.

Mas e o grande-romance-brasileiro-sobre-carnaval? Faz sentido ainda? Se faz ou já fez sentido, pelo que tenho notícia, ainda não chegou. Preconceito dos autores? Acho difícil. Palpite bem pedestre: porque é um momento bastante exigente em matéria sensorial. Representar isso não deve ser fácil. Dar corpo (ops!) à miríade de experiências táteis, auditivas, emocionais, sociais — isso é tarefa para narrador maiúsculo.

Será? É uma tese. Mas sigo com esperança, como leitor, de um dia levar para casa “O” romance sobre o carnaval brasileiro. Até lá, enquanto isso não acontece, desfilo meu bloco de dúvidas na avenida dos palpites.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

5 Comentários

  1. Eliana A Cardoso disse:

    Muito bom. Noto que, embora o carnaval esteja pouco representado de forma direta na literatura brasileira, temos a maravilhosa carnavalização do cavaleiro em busca do Santo Graal no Macunaíma de Mário de Andrade.

  2. sarmatz disse:

    Excelente, valeu, Cassioney!

  3. Paulo disse:

    Bandeira fez mais que alguns poemas, fez um livro inteiro sobre a festa, com uma espécie de narrativa interna. Um carnaval de Arlequins, Colombinas e Pierrots. Me lembra o primeiro CD de Los Hermanos.

    Nelson Motta fez um thriller passado durante o carnaval soteropolitano, algo assim.

  4. Segue uma listinha:
    “Teoria do consumo conspícuo”, Rubem Fonseca; “Um dia de entrudo”, de Machado de Assis; “O último entrudo”, de Raul Pompéia; “O meu carnaval”, de Lima Barreto; “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “Uma senhora”, de Marques Rebelo; “Restos do carnaval”, de Clarice Lispector; Bloco das mimosas borboletas, Ribeiro Couto; “Orfeu da Conceição”, Vinícius de Moraes

  5. Rubem Fonseca também tem contos sobre o carnaval.

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