Quando nasceu São Paulo

Por Roberto Pompeu de Toledo

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“Fundação de São Paulo”, de Antônio Parreiras, 1913.

São Paulo faz 462 anos hoje. Ou seriam 463? Ou 456? Pouca gente sabe que dá para escolher a data da fundação da cidade segundo a preferência do freguês. De acordo com a versão vitoriosa, a cidade foi fundada no dia 25 de janeiro de 1554. Nesse dia, doze ou treze jesuítas rezaram uma missa que deu por inaugurado, num platô cercado pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú, um colégio a que deram o nome de São Paulo, e com o qual pretendiam catequizar os índios da região.

Pouco menos de um ano antes, em abril de 1553, o governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, em visita de inspeção à capitania de São Vicente, concedera “foral de vila” à povoação chamada de Santo André da Borda do Campo, situada na região em que, terminada a subida da serra do Mar, abre-se um extenso planalto descampado. Tratava-se de um povoado que reunia um punhado de portugueses — náufragos e degradados —, suas mulheres índias e filhos mamelucos, ao redor de uma capela dedicada a Santo André, erguida três anos antes pelo primeiro jesuíta a chegar por estas bandas, o padre Leonardo Nunes. (Não confundir com a atual Santo André, fundada no século XIX, em local próximo, mas não o mesmo.)

As duas situações são bem diferentes, quase opostas. Ao receber o foral de vila, Santo André foi reconhecida oficialmente pela autoridade competente como município. Como tal, pôde constituir uma Câmara dos Vereadores e erguer um pelourinho, símbolo da justiça praticada pelas autoridades locais. Já no platô entre o Tamanduateí e o Anhangabaú fundou-se um colégio, não mais que isso. Nenhum dos presentes imaginou que estivesse fundando uma cidade. Pelo contrário, segundo a utopia formulada pelo principal dos jesuítas, o padre Manuel da Nóbrega, o objetivo era manter os índios catequizados o mais longe possível dos portugueses e suas instituições, de forma a se constituírem em cristãos perfeitos, filhos exclusivos da pureza e da bondade, incontaminados pelas perversões dos europeus.

Ambos os empreendimentos fracassaram. Três anos depois, os índios reunidos em torno do colégio dos jesuítas já se haviam dispersado. Cansaram da vida estranha e regrada que os padres tentavam lhes impor. Os padres, de sua parte, não demoraram a se dar conta de quão inútil era tentar inculcar em tais discípulos conceitos como os de pecado, de monoteísmo e de monogamia. Na vila de Santo André, ao mesmo tempo, reinava a insegurança e a escassez. O local era vítima de constantes ataques de índios e, para piorar as coisas, não contava com água suficiente para as necessidades humanas. Descoroçoados, os moradores ameaçavam abandoná-lo.

Configurava-se um panorama em que, de um lado, tinha-se um povoado situado em lugar inadequado, à míngua de água e de proteção; de outro, tinha-se um colégio desativado e uma população reduzida a uns poucos padres remanescentes, num platô em boa situação para vislumbrar inimigos à distância e combatê-los, e ainda por cima bem abastecido de água. Que fazer? A resposta era óbvia: transferir a população de Santo André para a colina em que ficava o colégio de São Paulo.

Foi o que passaram a reivindicar os habitantes de Santo André. E foi com o que concordou outro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, quando, em 1560, encontrava-se por sua vez em visita de inspeção à capitania. Santo André mudou-se com armas e bagagens para junto do colégio de São Paulo. Quer dizer: levou consigo o foral de vila, a Câmara dos Vereadores e o Pelourinho. São Paulo nunca teve um foral de vila. Oficialmente, foi considerada uma continuação de Santo André. Atas da Câmara de quando a vila ainda se situava em Santo André até hoje são guardadas no Arquivo Histórico Municipal Washington Luís.

Está aí por que o freguês pode escolher a data de sua preferência. Pode considerar que São Paulo foi fundada em 1553, ano da elevação do povoado de Santo André à categoria de vila; em 1554, ano da criação do colégio dos jesuítas; ou em 1560, ano em que a população de Santo André se transferiu para o que é hoje o centro histórico de São Paulo, iniciando a efetiva vida do local.

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Roberto Pompeu de Toledo nasceu em São Paulo. Desde 1991 assina uma coluna na revista Veja. Trabalhou no Jornal da Tarde, no Jornal da República, na revista Isto É e no Jornal do Brasil. É autor de reportagens sobre política, cultura e história e publicou pela Editora Objetiva A capital da solidão A capital da vertigem, livros que contam a história de São Paulo.

 

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