Em tradução (Joyce! De novo!!)

Por Caetano Galindo

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Traduzindo Um retrato do artista quando jovem, cujo lançamento completa cem aninhos agora em 2016 (esperem lindas edições comemorativas por aí!), topei com conhecidos e novos problemas joyceanos.

A primeira coisa (eu já tinha lido o livro mais de uma vez, mas traduzir é ooooutra história…) é o quanto é nítido que o Ulysses não apenas dá continuidade à narrativa da vida de Stephen Dedalus. Em trocentos sentidos, de continuidades de temas, técnicas, obsessões, imagens, de fato o Retrato e o Ulysses são um livro só. Contínuo.

A flexibilidade do narrador que vai se moldando à voz e à visão de personagens diferentes, uma das marcas mais famosas do Ulysses, já está também devidamente prefigurada no conhecido estilo mutante do Retrato, que a cada pequena seção apresenta uma prosa um pouquinho diferente, na mesma medida em que Dedalus vai passando de menino a adolescente e adulto.

Mas coisas mais pontuais também surgem pro coitado do tradutor. E uma delas faz parte daquele imenso arsenal de coisas, às vezes delicadas, às vezes divertidas, às vezes meio cínicas e/ou sádicas, que a gente faz, coisas que dão um trabalho da mulesta, e que a gente sabe, ainda enquanto faz, que quase ninguém vai ver.

Mas aí os cabras te dão uma coluna no blog da editora, certo?

Então aguentem.

Tudo começou com um diálogo entre dois estudantes universitários, pernostiquíssimos, Dedalus e seu amigo/nêmesis Cranly (que é citado de passagem no começo do Ulysses). Dedalus começa falando inglês, mas Cranly em suas primeiras réplicas só fala latim! (E veja que Mulligan, o amigo/nêmesis de Dedalus no Ulysses, também abre a boca primeiro em latim.)

Mas, mais (ou menos) que latim, o que ele fala é um latinório forjado e forçado, montado em cima das estruturas do inglês.

Dedalus, por exemplo, de cara pergunta se ele assinou uma petição: have you signed. E ele responde ego habeo.

Ora, ego habeo quer dizer eu tenho. O que não faz o menor sentido, a não ser que seja lido como tradução direta e meio porca do inglês I have, que responderia àquele have you da pergunta. Eles estão se divertindo com o latim.

Todo mundo que estudou seu latim faz isso às vezes. Piadinha pra iniciados. Nerdice.

Mas o fato é que as traduções tendem a deixar intocado e meramente transferido o ego habeo de Cranly, o que pura e simplesmente não faz sentido. Cranly diz que dedalus é um sanguinarius mendax, que só faz sentido como tradução de bloody liar. Ele diz que Dedalus está in damno malo humore, que seria in a damn bad humor. Isso tudo teria que ser reescrito em latim.

Na nossa (esperem pra ver), o latinório dos dois (Dedalus depois entra na dança) é todo baseado em construções aportuguesadas.

E como eu se diverti fazendo isso!

E como lembrei do Ulysses, onde outro estudante pernóstico diz diabolus capiat posterioria nostria, que é latinório pra and the devil take the hindmost, e que, novamente, tende a ficar inalterado nas traduções.

Mas não no Ulysses 2012, Companhia das Letras!

Ah, não!

Lá a gente tem qui ultimusque sacerdotis uxorem.

Quem chegar por último é a mulher do padre!

:)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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4 Comentários

  1. […] a perspectiva do lançamento de Um retrato do artista quando jovem (cf. coluna anterior), eu já vou dando os pontos finais no meu “projeto […]

  2. Monique disse:

    Gostei demais! Obrigada por compartilhar essas curiosidades!

  3. Carlos Alberto Bárbaro disse:

    O “a damn bad humor” vai ficar como? In canis humores?

  4. Paulo disse:

    Que massa. É a versão erudita do que Millôr fez aqui:
    http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13703

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