Lembranças do Carnaval

Por Juan Pablo Villalobos

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Pros Moronitas

Vou começar com um depoimento anticlimático: eu nasci e cresci numa cidade do México onde não tem Carnaval. Minhas primeiras lembranças do Carnaval são as imagens na televisão dos carnavais de rua em Veracruz e Mazatlán, dois portos que ficam a mais de 600 quilômetros da minha cidadezinha. Além disso, também passava na TV o resumo do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram vinte ou trinta segundos no noticiário noturno. Vinte ou trinta segundos de bundas e peitos e mulherada pelada, para ser exato.

Só quando fui morar em Barcelona, com 30 anos, lá em 2003, tive o primeiro contato direto com o Carnaval, em Sitges, uma das capitais gays da Europa. Ir para o Carnaval de Sitges é, pros recém-chegados (os “nouvinguts”, em catalão), um rito de passagem. Para pular Carnaval em Sitges, primeiro você tem que conseguir pular no trem (lotadíssimo) e, depois, o rito exige que você passe frio (é inverno), aguente a chuva (sempre chove) e demore horas para arranjar uma cerveja choca (se você não tomou a providência de trazer sua bebida, e os “nouvinguts” ainda não têm essa proficiência). Depois de cumprir com o rito de passagem no meu primeiro fevereiro em Barcelona, eu decidi, feliz, botar o Carnaval na gaveta das coisas da vida que não têm nada a ver comigo, ali ao lado do críquete, das religiões evangélicas, da taxidermia ou do molho bechamel. Pronto, achei que tinha esquecido para sempre do Carnaval. Hahaha. Que inocente… Porque logo, logo, alguém abriu essa gaveta, pegou o Carnaval e o colocou bem no centro da minha vida. Adivinharam: eu conheci uma brasileira.

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Mulher brasileira é assim: dez anos depois, em 2013, eu estava pulando Carnaval no Sambódromo de São Paulo com a escola Águia de Ouro. Juro. Carregando uma fantasia que pesava dez ou quinze quilos. E que tinha penas. E muitos enfeites brilhantes. E na cabeça eu trazia um capacete de operário amarelo (foi o mais perto que estive da classe trabalhadora na minha vida, vovô Marx estaria orgulhoso de mim). Eram seis horas da manhã do sábado e chovia, igualzinho em Sitges, enquanto a gente desfilava. Mas não vamos tão rápido, é preciso ir mais devagar (a verossimilhança tem suas regras).

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O namoro com a brasileira ficou sério. Tivemos um filho colecionador de passaportes. Depois uma filha com o mesmo hobby. E a cada fevereiro, ganhei uma nova angústia existencial: os brasileiros estavam lá no verão, pulando Carnaval, e a gente estava nessa porra de frio, com chuva, e com a única possibilidade de ir para esse carnavalzinho fajuto de Sitges. A angústia, lógico não era minha. Era da minha brasileira. Os amigos dela eram cruéis e colocavam no Orkut fotos na praia, no Carnaval de salão, no bloco de rua, sempre com pouca roupa. Eu tinha em casa uma suicida em potencial.

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Com a namorada brasileira eu arranjei, lógico, uma família brasileira. Sogra, sogro, cunhado, avós, tios, tudinho. Vinha no pacote. Uma famiglia italiana do estado de São Paulo. Era muito clichê. Mas eles estavam longe, ufa. Longe até a gente decidir ir morar no Brasil, lá em 2011. Aí eu senti de verdade que a bateria do Carnaval começava a bater bem nas portas do meu refúgio anticarnavalesco.

A minha família brasileira ia pro Carnaval de salão do clube chique da cidade. E, além do mais, tinha a matinê para as crianças. Naquela época, os colecionadores de passaportes já tinham 5 e 3 anos, respetivamente. Fofíssimos. Dava para fantasiá-los de piratas e princesas. De personagens da Disney. Até de mexicaninhos (o folclore é admitido). Mas o problema era que o pai gringo também tinha que se fantasiar. Eu peguei a verde-amarela que o sogrão deu de presente antes da Copa de 2010 (e que nunca tinha usado, lógico) e falei que gringo com camiseta do Brasil já pode se considerar fantasiado. Falei que era o Neymar. Claro que eu não usei o penteado do Neymar nem botei o número e o nome dele nas costas, mas o importante era a atitude. A ousadia. Tem ousadia maior que um mexicano de cidadezinha do interior encarar o Carnaval brasileiro?

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Daí aconteceu uma coisa muito estranha. Esquisitíssima. Comecei a gostar do Carnaval. Da matinê das crianças e do Carnaval de rua com bloquinhos alternativos. Comecei a achar legal. E, depois, muito legal. Mas para isso foi preciso muita bebida. Essa cerveja gelada que só tem no Brasil. E cachaça. Muita. Quando eu falo muita, é muita. (Porra, eu bem que tomaria uma cachacinha agora, mas estou tomando antibiótico, por culpa de uma dor de dente.) Aliás, este parágrafo não é comercial da Brahma. Nem da Skol. Eu gosto mesmo é da Serra Malte. Mas não é publicidade, não. O que era que eu estava contando? Peraí (o antibiótico me deixa zonzo).

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Morei três anos no Brasil e minha lembrança favorita do carnaval foi numa matinê, quando a minha princesinha, fantasiada de Frozen, me disse que estava com dor de barriga. Vamos pro banheiro, falei. Entramos na cabine da privada. Faz força, falei. E a minha princesinha peidou confete.

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Para falar a verdade, provavelmente eu ainda não gostava tanto assim do Carnaval. Só tinha aprendido a lidar com ele. Ficava num cantinho com a bebida na mão, olhando com autêntico interesse antropológico. Quando alguém me convidava para dançar ou participar de alguma brincadeira, eu falava que era escritor, um cronista da realidade, e que eu queria era observar. Quem sabe um dia eu acabava escrevendo um textinho sobre o Carnaval. Adorava também assistir o desfile das escolas de samba na TV. Acho que é o espetáculo perfeito, porque você não tem que assistir. Você só tem que deixar a TV ligada e dar uma olhada de vez em quando. Vinte ou trinta segundos por hora.

Mas então chegou aquele dia de finais de 2012. Minha brasileira falou que o irmão e a namorada de uns amigos nossos (editores, aliás – ô raça!) iam desfilar com a Águia de Ouro e que, se quiséssemos, poderíamos participar. Fiquei atônito. Olhei seriamente para ela: ela tinha cara de “é uma prova de amor”. Não dava para dizer que não.

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Cenas de uma noite de Carnaval:

1) Quatro pessoas demoram meia hora para entrar no carro depois de ensaiar inúmeras posições para não estragar as penas da fantasia.

2) Cinquenta pessoas fantasiadas iguais bebem cerveja num posto de gasolina às 2:30 da manhã.

3) Cinquenta pessoas demoram uma hora para entrar no ônibus da prefeitura que levará a nossa ala pro Sambódromo.

4) Aguardamos nossa vez no Sambódromo, seremos a última escola a desfilar. Às 5:45 começa a chover, observo as penas da fantasia molhadas, parecemos as Galinhas de Ouro.

5) Desfilamos sob a chuva, eu não sei de cor o enredo (é a segunda vez que o escuto), eu não sei a coreografia, aprendo tudo durante a hora do desfile, tomo bronca do diretor de nossa ala. Atrasamos um minuto do tempo permitido para terminar de cruzar o sambódromo. Porra.

* * *

Então, em 2014, a brasileira, os colecionadores de passaportes e eu voltamos para Barcelona. Ufa. De volta para as saudades do Carnaval, pensei. Mas minha brasileira tinha outros planos. Ela se candidatou para presidenta da Associação de Pais dos Brasileirinhos da Catalunha (que ela tinha ajudado a fundar, anos atrás), ganhou a eleição e eu virei primeiro-damo. Juro. E este sábado tem matinê lá na Associação. E eu não posso beber por culpa dessa porra de antibiótico. Quem sabe voltarei a não gostar do Carnaval. Quem sabe voltarei a ser parte da ala dos anticarnavalescos. Mas, por enquanto, já lavei minha camiseta do Neymar. Bom carnaval para vocês.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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3 Comentários

  1. Claudia disse:

    Adorei! Também ergo meu copo de Serra Malte para o brinde!

  2. Bruno disse:

    Juan Pablo, você é fantástico. Um brinde de Serra Malte à sua saúde.

  3. Diego Armando disse:

    Hahaha. Eu voto por mais textos desse cara.

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