“Mas por que você escreve?”

Por Luisa Geisler

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Meu começo no meio literário aconteceu por causa do Prêmio SESC de Literatura. Ele funciona por meio de pseudônimos, e os autores dos textos só são revelados se vitoriosos. Você manda seu manuscrito completo e, se ganhar, abrem o envelope com as informações reais. Hoje em dia, é tudo pela internet, até onde sei, mas os envelopes parecem mais dramáticos. Pra mim, insegura, envergonhada e assustada, parecia perfeito. Mandei o livro de contos Contos de mentira com o pseudônimo Brian McElfatrick. Os jurados finais foram Raimundo Carrero e Marina Colasanti, que escreveram belas orelhas pro livro, a coisa toda. Antes do lançamento, ao descobrir que Marina Colasanti estaria em Canoas em um evento literário, resolvi ir agradecer pela seleção, pelos elogios e tal. Quando me apresentei (tremendo), ela respondeu com algo que jamais esquecerei:

— Meniiiiiiiina! — com muitos is mesmo. — Eu achava que você era um homem gay roteirista de quarenta anos!

Por ter sido uma escolha por pseudônimo, Marina jamais tinha sido informada de quem ela tinha de fato escolhido como vencedor. No caso, vencedora. No caso, euzinha. “Inha” porque eu tinha dezenove anos.

E ela tinha argumentos pra cada uma das escolhas. Homem, pois o pseudônimo era masculino; mas gay, por ter algumas questões de feminilidade; quarenta anos por conta de alguns personagens com problemas “adultos” (divórcio, a coisa toda); roteirista por escolhas de linguagem. Não vou problematizar muito, foi um momento especial demais pra isso.

Essa história acabou ganhando uma boa dose de significado pra mim. Após a vitória do Prêmio SESC de Literatura, vieram as entrevistas, e eu ainda não tinha meu FAQ. Entre os comentários sobre a idade, veio a famosa pergunta de por que escrevo.

E a resposta é que eu não faço ideia.

Nem ideia.

Nenhuminhazinha.

Nada.

Desde pequena, escrevia. Eu gostava de ler e fazia meus próprios livros. Fazia grandes desenhos, frases simples, grampeava tudo, vendia pro meu pai por um real. Notem que, desde novinha, foquei em escrever como trabalho e não hobby.

Isso tudo pra dizer que não sei por que escrevia. Não sabia naquela época, não sei agora. Sei que escrevo.

Mas se tenho alguma resposta, é a resposta do homem gay roteirista de quarenta anos. O que mais me interessa em escrever é ser outras pessoas. Sendo insegura, envergonhada e assustada, nada me aterroriza mais do que me identificarem em meus textos. Não, não sou eu. Mas parece muito, alguém dirá. Mas não sou eu. No entanto, ninguém me procura mais nos meus personagens do que eu. Procuro, é claro, pra aniquilar (exterminate, exterminate).

Mesmo quando um personagem tem características minhas, existe um trabalho ficcional de me ver como um personagem. Ver como sou insegura, envergonhada e assustada — e ridícula por tudo isso. Aparo umas arestas que não interessam à ficção e tadam.

Talvez eu escreva justamente pra poder ser outras pessoas. Porque me diverte muito criar um personagem que não fica problematizando cada ideia de cada escolha de palavras [Ike, do Luzes de emergência se acenderão automaticamente].

Outro exemplo: fui bolsista de Iniciação Científica em economia. E sou estudante de ciências sociais. E consigo pensar tanto quanto um leitor de Mises, seguir a argumentação toda em série. E consigo acompanhar a linha de raciocínio da Luciana Genro sem piscar. Quase um duplipensar, pros leitores de George Orwell.

Porque construir um personagem é construir um jeito novo de ver ideias, e talvez eu não consiga ficar com apenas um par de “óculos de ver o mundo”. E, me repito, talvez seja por isso que eu escreva. Porque não consigo decidir se o Ike está mais certo que eu. Porque essa decisão na verdade não existe. Porque uma pessoa que diz que “arte é inútil” não é tão diferente de mim. Pode ser que seja só um lance da idade, ou da insegurança, da vergonha, do medo. Pode ser que mude. Pode ser que o desafio seja me achar no meio dessa bagunça. Mas é muito bom ser homem e mulher e ter vinte e quatro anos e quarenta e ser todas as pessoas e ninguém ao mesmo tempo.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

2 Comentários

  1. Daniel Assunção disse:

    É verdade. Dias atrás voltando pra casa e admirando a cidade eu olhava para os prédios com um vontade estranha de estar em cada uma daquelas sacadas, não só na de um prédio ou de outro; ver cada lado do horizonte, conhecer cada canto do meio que vivo, vasto né, etc, e assimilei que talvez fosse por isso esta minha necessidade de escrever. Ainda sou tão deslumbrado! rs

    Muito legal seu texto, Luisa.

  2. Jorge disse:

    Bacana. Vontade de ler teus livros.

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