Superprevisões, de Philip E. Tetlock e Dan Gardner

superprevisoes

Foto: thatwendyward – Tavern Brighton

A arte de prever o futuro intriga e fascina a humanidade desde sempre. São fartos os exemplos de rituais de sacrifícios, magias e jogos místicos em busca de respostas para o que está por vir. Afinal, todos nós tomamos decisões com base no que acreditamos em relação ao futuro. Comprar uma casa, mudar de emprego, ter um filho; quase todas as decisões dependem de uma expectativa sobre o que vai acontecer.

Superprevisões – a arte e a ciência de antecipar o futuro (Objetiva), do cientista político Philip Tetlock e do jornalista Dan Gardner, que acaba de chegar às livrarias, investiga o tema com base em pesquisas e em um estudo que levou vinte anos para ser finalizado, e chega a uma conclusão desconcertante: a média de acerto para previsões de longo prazo é de apenas 15% – a mesma de um chimpanzé atingir o alvo no arremesso de dardos. Mais que isso, Tetlock demonstra que a maior parte dos especialistas se sai ligeiramente melhor do que um leigo fazendo suposições aleatórias. A boa notícia é que é possível aprender a aprimorar a previsão do futuro. E há quem se saia bem na tarefa. São os chamados “superprevisores”, minuciosamente descritos pelos autores.

A questão não é simples e não pode ser resumida a modelos matemáticos, sem levar o fator humano (e toda a sua imprevisibilidade) em conta. Toda previsão é uma probabilidade que precisa ser revista a cada momento. Quem diria ainda durante as eleições presidenciais de 2014 que a recessão brasileira fosse alcançar o abismo que se confirmou ao final do ano passado? Uma das razões para a queda vertiginosa do investimento empresarial no Brasil é a perspectiva de piora da situação econômica. Mas qual a real dimensão do quadro político e econômico brasileiro para 2016?

Em entrevista recente para as Páginas Amarelas da revista Veja, Tetlock afirma que “as previsões são inevitáveis porque sempre que alguém toma uma decisão – seja ela pessoal, política ou econômica – leva em conta quais serão as suas consequências. E é disso que as previsões tratam, de consequências.”

Best-seller nos Estados Unidos, separamos para os leitores do blog trechos traduzidos das resenhas publicadas no Sunday Book Review, do New York Times, e das revistas The Economist e Forbes. Vale a pena conferir.

 

Prevendo o futuro

Uma abordagem esclarecedora

The Economist – 26 de setembro de 2015

Humildade diante de um mundo complexo torna os superprevisores pensadores sutis. Eles geralmente se sentem confortáveis com números e conceitos estatísticos como, por exemplo, a “regressão à média” – que basicamente afirma que na maior parte das vezes tudo segue um fluxo de regularidade, e, portanto, é provável que qualquer desvio significativo seja seguido por um movimento de retorno à normalidade. Mas eles não são estatísticos. (…)

Mais importante é o que Tetlock denomina como “ampliação da mentalidade”: um misto de determinação, autorreflexão e vontade de aprender com os erros alheios. Os melhores previsores não estavam tão interessados no fato de estarem certos ou errados, mas, sim, em por que haviam acertado ou errado. Sempre buscavam alternativas para melhorar seu desempenho. Em outras palavras, previsões não são apenas possíveis, podem também ser ensinadas. (…)

Previsões, assim como a medicina do início do século XX, são quase sempre baseadas em prestígio e não em evidências. Os previsores mais famosos do mundo são colunistas de jornais e comentaristas de televisão. Superprevisores não se saem bem como estrelas da mídia. Cuidado, nuance e um ceticismo saudável não se saem tão bem no vídeo um cabelo longo, um sorriso fascinante e declarações simplistas e convictas. Mas, mesmo que a aguardada revolução nunca ocorra, os hábitos e as técnicas mentais apresentadas nesse livro são um presente para qualquer indivíduo que precise pensar sobre os desdobramentos do futuro. Em outras palavras, para qualquer um.

 

É possível as empresas aprenderem a ser “Superprevisoras”?

Mais fácil na teoria que na prática

Revista Forbes – Por Frank David  – 4 de outubro de 2015

Muitas decisões empresariais se fundamentam em previsões sobre o futuro com base em fatos, e carreiras são construídas ou desmanteladas em função de resultados. Não surpreende, portanto, que empresas valorizem “especialistas” em todos os níveis – afinal, mais experiência e educação deveriam acarretar suposições melhor fundamentadas, e, sendo assim, melhores decisões.

Mas qual a confiabilidade das previsões dos assim denominados “especialistas”? Não muita, como se pode ver. Há mais ou menos uma década, o professor Philip Tetlock, da (Universidade) de Wharton, analisou as previsões de cerca de 300 autoridades respeitáveis – e Louis Menand, da New Yorker, avaliou os resultados: “Seres humanos que dedicam a vida estudando a situação mundial… são piores previsores que chimpanzés atirando dardos.” Tetlock dedicou a nova etapa de sua carreira questionando a síntese simplista de seu trabalho prévio. Mas ainda que “especialistas” façam essencialmente suposições, alguns chimpanzés conseguem ser mais precisos que outros para atingir um alvo? O título de seu último livro, Superprevisões, escrito em coautoria com Dan Gardner, adianta a resposta: “Superprevisores”, na realidade, caminham entre nós. E, ainda que não sejam “especialistas” de acordo com qualquer definição tradicional do termo, eles superam, de forma consistente, o desempenho em prever o futuro. (…)

(…) Mas um dos pontos centrais para Tetlock defende que nenhuma dessas habilidades é inata: é possível tanto ensiná-las quanto aprendê-las. Um tutorial de 60 minutos sobre as características de previsores com alto rendimento aumentou em cerca de 10% o índice de acerto dos participantes (da pesquisa desenvolvida por Tetlock) ao longo de todo o ano seguinte. Isso pode não saltar aos olhos, mas se o decorrer do tempo for levado em consideração, produziria um grande impacto, contando apenas com uma intervenção relativamente branda, que pode ser utilizada não apenas pela maioria dos indivíduos como também por empresas. Na verdade, com base apenas nessas informações, “Os dez mandamentos dos aspirantes a superprevisor”, criado por Tetlock, deveriam provavelmente ter um lugar de destaque na maior parte das salas de reuniões empresariais, bem ao lado (ou substituindo) os cartazes onipresentes com “os valores da empresa”.

 

Superprevisões

Sunday Book Review  do  New York Times – Por Leonard Mlodinow – 15 de outubro de 2015

O livro (Superprevisões) descreve as descobertas do Good Judgment Project, uma iniciativa empreendida por Tetlock e sua colaboradora (e esposa), Barbara Mellers, em 2011, que foi criada por um braço da comunidade de inteligência americana.

As agências de segurança nacional têm um interesse óbvio pelo projeto de Tetlock. Segundo estimativas, os Estados Unidos contam com 20 mil analistas de inteligência inteiramente dedicados a avaliar questões como a probabilidade de um ataque surpresa israelense contra o Irã no próximo mês ou a saída da Grécia da Zona do Euro até o final do ano. O número supera em quatro vezes a presença de físicos em centros universitários americanos de pesquisa. E, por isso, o valor gasto para aprimorar os resultados deve ter sido encarado como um bom investimento.

E foi. O Good Judgment Project utilizou a internet para recrutar 2.800 voluntários, pessoas comuns interessadas em temas da atualidade – um programador de computador aposentado, um funcionário do serviço social, uma dona de casa. Por quatro anos, os pesquisadores lhes pediram que se baseassem em notícias e outras fontes de informação para estimar a probabilidade com que vários eventos poderiam ocorrer, apresentando uma média de 500 perguntas nos mesmos moldes que os analistas de inteligência precisam responder todos os dias. Os voluntários também poderiam reafirmar ou ajustar essas probabilidades diariamente até que a questão “expirasse” em uma data de encerramento pré-anunciada.

As lições centrais de Superprevisões podem ser destiladas em uma série de diretrizes. Tenha como base previsões em dados e na lógica e tente eliminar inclinações pessoais. Acompanhe os resultados para que saiba o seu grau de precisão e o dos demais. Pense em termos de probabilidade e reconheça que tudo é incerto. Desmembre uma pergunta em seus componentes, distinguindo entre o que se sabe e o que não se sabe, e examinando as premissas. (…)

As prescrições apresentadas em Superprevisões (…) deveriam oferecer a todos nós uma oportunidade para entender e reagir de maneira mais inteligente diante do mundo confuso que nos rodeia.

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