Vinyl, minha pérola no caos

Por Ana Maria Bahiana

vinyl

Cena de Vinyl.

Não choro em cinema. Meus amigos ficam passados comigo por causa disso. Na cabine de O Paciente Inglês, minha amiga se debulhava em lágrimas no final e eu: “Onde é que vamos jantar, hein?” Acho que chorei tudo o que tinha que chorar com Bambi, o primeiro filme que vi no cinema. Acho que aprendi bem rapidinho a diferença entre a história que se conta, na tela, e a história que se vive, na carne — e essa sim dói e faz chorar. Muito.

Mas outro dia, umas três semanas atrás, eu me peguei chorando no cinema. Foi um susto, quase. É que na tela, o (ótimo) Bobby Cannavale, trincadão, doidão, em plena crise existencial, deixava os olhos se encherem de água enquanto via, num palquinho imundo, num lugar caindo aos pedaços (literalmente), uma banda protopunk/glam destruir os três acordes que são o cânon do rock ‘n roll e transformá-los em algo sublime.

A banda era uma versão fictícia dos New York Dolls, Bobby Cannavale era uma versão fictícia de uma espécie em extinção — o executivo de música que realmente venera o que faz — e a história contada era a da virada do desbunde dos anos 1960 para a explosão multifacetada dos 1970, no piloto de Vinyl, a nova série da HBO, produzida por Martin Scorsese e Mick Jagger (ambos responsáveis pelo argumento do piloto, que Scorsese dirgiu). Dois macacos velhos que sabem o que fizeram e o que fazem. Que sabem, por exemplo, que há uma reação visceral que certo tipo de pessoa tem quando exposta a certo tipo de experiência — o encontro com algo transcendental escondido no banal, a pérola no lixo, o verdadeiro no charco das mentiras.

A delicadeza e a precisão desse detalhe me tocaram de um modo que nenhum dos grandes dramas que o cinema nos serve semanalmente foi capaz de fazer. E, de verdade, revi esse piloto mais duas vezes e, em todas elas, tive a mesma reação (mentira: foi pior. Me esgoelei, dancei, berrei, pulei, para horror de minhas duas gatas, que preferem sua humana quietinha no sofá, debaixo do cobertor).

Não, Vinyl não é perfeito. Há perucas lamentáveis, o “Robert Plant” que eles escalaram não convence, e um problema que conheço muito bem — o altíssimo preço do licenciamento de canções originais — é uma pedra no caminho do que poderia ser uma trilha épica. Mas, por outro lado, é perfeito porque, essencialmente, é exato. A série descreve em várias camadas o que basicamente é o caroço no angu da música de massa: a apropriação do espontâneo pela linha de montagem, a fabricação do “espontâneo” quando o autêntico não está disponível, e as ramificações desse processo pela sociedade, pelo mundo, pelo século 20 até onde a estrada do tempo vai dar.

E, sobretudo, como no meio do sórdido há, oculta, uma beleza primal que vem do rubro chakra muladhara, a raiz de corpo e alma, o desejo, a fome, o transe que passa pela carne, pelo sexo, pelo pulsar do coração. Estou desperdiçando palavras. Essa experiência quem viveu, viveu. Quem não viveu, sinto muito.

Ao reconhecer o imundo e o luminoso, de braços dados, Vinyl me ganhou, me fez lembrar, me disse que minha própria vida louca existiu e valeu a pena. Eu gostaria muito que a série alcançasse além da minha geração e adjacências, e pegasse quem (como eu, aliás…) acredita que o pulsar ainda existe, mesmo com a superfície grossa desse pop plastificado que temos por aí. Quem, como eu, não passa um dia sem garimpar pelos Soundclouds da vida em busca de mais um momento de descoberta, de êxtase, de gozo auditivo.

E sim, crianças, é tudo verdade. Não, nada em Vinyl é exagero. É que a vida nos 70 era assim: maior que a própria vida.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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5 Comentários

  1. Ana Maria Bahiana é uma das mais férteis críticas de música. Ela fez minha cabeça nos anos 70 nas publicações sobre rock e tudo que vem dela é como um oráculo! A gente confia de olhos fechados porque nela tudo é verdade!

  2. Helio Jenne disse:

    Essa crônica encheu meu coração de vontade de assistir Vinyl.
    Abração!

  3. Fabinho Flapp disse:

    Que relato apaixonado! Pura mágica! De despertar o interesse em qualquer um assistir Vinyl.

  4. É por essas e outras que eu te amo Ana Maria Bahiana, eu tava precisando ler isso, que confirma como me senti vendo a estreia de Vinyl, grande beijo!

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