(Ainda) precisamos falar disso

Por Luisa Geisler

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Venho querendo falar disto há bastante tempo (vou perder leitores em 3…). Apesar das notícias, conjuntura política e memes recentes, ainda estamos em março (2…). Que é o mês da mulher (1…). Então precisamos falar de feminismo (boom. Cabou leitores).

Precisamos, eu disse.

Precisamos porque uma mulher que manda um livro sob um pseudônimo masculino ganha mais e melhores respostas de editoras (fonte). Mulheres são mais interrompidas em reuniões que homens (fonte). Mulheres são avaliadas como programadoras e musicistas melhores quando os avaliadores não sabem que são mulheres (fonte, fonte ). Aplique isso na literatura. Eu inclusive já fiz um texto sobre isso. E não falei tudo o que precisava.

Precisamos, eu disse.

O tema que me interessa desta vez são as listas. As listas de escritoras mulheres que vão mudar sua vida; Sete escritoras negras que você precisa ler; citações de livros escritos por mulheres que vão te fazer chorar. E por que precisamos dessas listas. Assim mesmo. Listas de escritoras mulheres. Por que precisamos delas? Vou responder com uma lista, pois metalinguagem, jovens, geração Y, essas coisas todas.

1) Pelos motivos anteriormente citados.

Mulheres têm menos voz. As pessoas já são socializadas pra ouvir mulheres menos. E eu já sei que você vai dizer que você respeita mulheres e lê tudo igualmente. Mas não é assim que funciona o machismo estrutural. Notado através de pequenos comentários pequenos. Um “princesa não pode falar enquanto os outros não terminaram”, um “menino sempre quer atenção mesmo”. Por construções que mal se notam quando são feitas e que resultam num condomínio fechado antes de você sequer notar que estão ali. Mulheres são menos ouvidas e menos levadas a sério porque o cérebro foi treinado assim. Se não houver esforço pra desconstruir isso, começando com um questionamento sério, seu cérebro vai seguir assim.

2) Porque já existem muitas listas só de homens.

Um currículo de literatura do Ensino Médio sem dúvida vai incluir Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa. Viu o que fiz aqui? Uma lista de autores homens. Não falam Melhores Livros do Romantismo Escritos Por Homens, mas são escritos por homens. Inclusive achei uma lista online de Obras Mais Relevantes da Literatura Brasileira e… Zero mulheres. Estudamos mais homens. Nunca vi uma estante com mais mulheres que homens. As mulheres nunca escreveram tanto quanto agora. E elas ainda escrevem pouco.

3) Porque já lemos mais homens que mulheres.

Essa pesquisa da gloriosa Alpaca Press com mais de 2500 brasileiros mostra isso. Mulheres são menos lidas. Ponto. Uma lista só de mulheres que te fizer ler uma só que tenha sido citada já é uma vitória. Inclusive, já discuti um pouco dessa ideia neste texto n’O Globo. Por ter menos espaço na mídia formal (menos resenhas de seus livros, por exemplo), uma lista só com mulheres vai contra esse padrão.

As ideias de mulheres foram vetadas por séculos. O direito ao voto feminino só surgiu no Brasil em 1932. Não tem cem anos. Minha avó se lembra de quando ela não podia votar. Se o voto não era permitido, o que dizer de pôr sua opinião em papel?

As listas exclusivamente de mulheres ajudam a compensar esses descompassos. As listas seriam um espaço onde haveria o tal pé de igualdade. Claro que precisamos de listas com homens e mulheres juntos, e muitas não funcionariam de outra forma. Claro que homens escreveram (e escrevem) brilhantes obras literárias. Mas alguém usou um exemplo: quem a professora na aula tem que incentivar a falar? O aluno mais quietinho? Ou o que já fala o tempo inteiro?

E eu sei — eu sei, eu sei, eu sei — que ninguém se sente fazendo nada de “errado”. Que todo mundo acha que é igualitário e que o problema são os outros. Mas quem de fato não associa trabalho doméstico a mulheres? Quem de fato não associa “frescura” e “emoções demais” a mulheres? Ou não associa narrativas sentimentais, empoladas, melodramáticas a mulheres*? Quem de fato não cobra mais — nem um pouquinhozinho — mulheres por suas aparências mais que homens? Por isso precisamos falar. Precisamos dessas listas pra falar. Desconstruir, idealmente.

*A newsletter da Taize Odelli indicou: Knausgaard Writes Like a Woman. Sobre justamente como Knausgaard escreve sobre temas sentimentais, autobiográficos, “femininos” e a diferença de recepção, gênero, entre outros.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

12 Comentários

  1. Sim, suas colocações são bastante pertinentes e isso se prova com os comentaristas. Apenas Tony não usou de algum artifício pra desmerecer (nem que um pouquinho) o que você escreveu. O último chegou a desconsiderar a formação cultural, que você explorou em seu texto, é também um grande fator que faz com que “homens pensem e sintam de um jeito e mulheres de outro” ou que “seja mais comum homens em áreas de tecnologia e de exatas, enquanto há mais mulheres em áreas de saúde e educação” e ainda assim com diferenças do que se considera mais difícil ou importante. Pois há mais homens médicos que mulheres. Há mais professoras de ensino fundamental 1 que professores… Tudo uma questão de criação, de reprodução de determinada prática. Desconsiderar isso é o que torna ainda mais pertinente falar sobre o assunto e que bom que há pessoas falando. Que bom que há mulheres falando sobre isso de seus lugares de destaque. Espero que seu texto e suas ideias a respeito do assunto alcançem muitas pessoas mais, pois é muito necessário.

  2. Miguel disse:

    Existem coisas que simplesmente são diferentes e a autora não fez menção. Existem diversos outros fatores para além de características políticas e culturais.
    Uma mulher pode escrever muito bem, sim. Mas há coisas que são mais tendentes para um sexo, há coisas que são mais tendentes para outro sexo. Por exemplo: o vestibular é livre, mas os cursos de Engenharia, Física, Matemática… tendem a ser majoritariamente escolhidos por homens, e, os de Pedagogia, Nutrição ou Enfermagem… tendem a ser escolhidos por mulheres. Claro, há as minorias, mas existe uma ‘generalização’. Assim, acontece nas Artes.
    O que a autora não considerou: a vida de um homem é completamente diferente da de uma mulher; transcorre de maneira completamente diferente; a maneira de perceber e sentir as coisas também é diferente…
    Eu poderia discorrer por muitas linhas aqui, mas talvez seria simplesmente chamado de ‘machista’, como é a praxe hoje em dia, por isso, prefiro me abreviar. Mas volto a dizer: não é simplesmente uma questão de estatística ou de “opressão”, existem características subjetivas que precisam ser consideradas, e que não são fáceis de ser pensadas pelo sexo oposto.

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